15 de Outubro de 2003

– Olá! Estás bom?! Desculpa lá ter chegado atrasado… É que…
– Não faz mal. Não te preocupes. Ainda bem que vieste; precisava mesmo de falar contigo.
– Então, conta lá, o que se passa? Qual a urgência?
– Bem sabes… é que…
– Deixa-me só pedir um cafézito, se facha vôr. Oh! Não se importa de chegar aqui? Era uma bica, po´favor. Vá segue.
– Bem é que a Sara, como é que te hei-de dizer…? Também não é nada de especial… posso dizer já…
– Diz homem! Que te vai na alma?
Ora cô-licença, aquistá a bicazinha. Mais alguma coisa senhor? E o senhor? Também não? Muito bem.
– É assim, sabes que a Sara e eu não namoramos assim há tanto tempo…
– Um ano, não é?
– É é
Tit-at-turiri-ri-ru-ri – aha – tit-at-turiri-ri-ru-ri
– Só um minuto, não te importas que atenda pois não?
– Nã…
Tou? Não, no café, com Afonso. Diga? Ah, mé…! Esqueci-me! O quê? Não, não foi de propósito. Sim mãe. Eu sei mãe. Deixe que eu procuro uma farmácia de serviço. Não mãe. Eu sei que o pai fica aflito do estômago sem eles. Eu VOU buscá-los! Não, não telefone nada ao tio Alfredo, deixe-o lá em paz. Ok mãe. Sim mãe. Até logo. Beijinhos…
Esqueci-me completamente dos remédios do meu pai, vê lá tu, com a farmácia mesmo ali, ao lado da faculdade. Tou cada vez pior. E a minha mãe… ai ai… bem… desculpa lá. Estávamos onde?
– Não te preocupes. É que sabes estas coisas põe-me nervoso. Já a Sara ter ido morar lá para casa. Não é que tenha problemas, até sabe muito bem ter companhia e gosto mesmo da dela… Mas é como se estivéssemos quase casados e só tenho 26 anos… Não estou preparado…
– Oh! e eu 25 e ainda moro com os meus pais. Tens é uma vida óptima…!
– Não me queixo, mas isto do compromisso. E se não é com a Sara que eu quero passar a vida inteira?
– Bem, deves saber, que hoje em dia isso….
– E eu quero um compromisso sério e quero dizer que sim e gosto muito dela mas…. não sei…
Caiem três pratos no chão e partem-se, ao mesmo tempo que entram uma data de pessoas no café e o autocarro apita lá fora, por entre a chuva.
– AHH! Que susto! Estas coisas dão cabo de mim… Não aguento isto, ainda hoje ia morrendo ao sair de casa! Mas, íamos, ah!, sim…. Pois. Essas dúvidas assolam qualquer um.
– Eu sei que sim, mas tu sabes quão indeciso eu sou.
– E queres que eu te ajude a tomar a decisão?
– Não.
– É que sabes, não sou a pessoa mais indicada…
– Mas eu não quero…
– E além disso, estas coisas têm que ser os próprios a tratar. Neste caso tu.
– Já disse que não quero!
– Ah bom… ok… desculpa. Aía, sabes uma coisa, a Joana quer que eu vá viver com ela. Mas diz que tenho de ser mais responsável e que se quero tenho de me mudar até Janeiro! Não sei o que hei-de fazer… Pareço tu!
– João, vou-me casar.
– Não sei se leve já as coisas de lá de casa. Sabes como as coisas são, ela pode torcer o nariz e não…
– JOÂO! EU VOU-ME CASAR!
– Ah… pois… óptimo… ainda bem… bem… quer dizer… olha… vou-te dizer uma coisa… e não te esqueças…é mesmo importante e tens de ter cuidado. Chega cá: o casamento – não – é – irreversível! As crianças é que são…´´

15 de Outubro de 2003

  • Brilhante a tirada final.
    Isso quer dizer que um gajo não precisa de ter medo de tomar decisões, desde que use camisinha…. heheheheh 😉

  • Pois… não era bem isso, mas…. eu percebi!

  • Ricardo Ramalho

    Tá muito nice!
    🙂

  • Gracias!
    Tenho que agrdecer ao prof. Buescu… [private]