8 de Outubro de 2003

Eu pertenço à minoria que não está contra o governo nisto do aumento das propinas (e nem sou PSD). Não vou fazer aqui nenhuma declaração enorme sobre os meus motivos, até porque já o tenho feito aqui. Mas há um pequenino exemplo de que me lembrei, de que quero aqui deixar e que revela a hipocrisia de quem se revolta contra as propinas por serem socialmente injustas:
– se o custo real médio de um aluno no ensino superior andar à volta dos €4000/ano (o que é mais do que razoável) e um aluno pagar de propinas €856, então paga cerca de 25% do custo da sua educação ao estado.
– na cantina do IST, uma refeição custa €1,80. Se o custo real da refeição for €5 (o que também é um valor muito razoável), então um aluno está a pagar 36% do custo da refeição! Se for um desterrado, mesmo que cozinhe no sítio onde está alojado todos os almoços e jantares, duvido que consiga obter um preço inferior a €1,80/refeição.
Proporcionalmente, uma refeição numa cantina é socialmente mais injusta do que as propinas, mesmo no valor máximo (se for um aluno que almoce todos os dias na universidade, durante 36 semanas – 70% do ano – tem de pagar €324, quase tanto como a propina antiga, que já em tempos também ouviu o não pagamos). E porque é que ninguém protesta contra os €1,80? Porque aí não se poderia ocultar tão bem o ridículo da situação como atrás do número 856.
Mais uma vez digo, se for para protestar contra a falta de condições de algumas instituições, contra a injustiça e insuficiência das bolsas, ou outras coisas realmente em falta, lá estarei. Para dizer que as propinas são socialmente injustas e elitistas, por amor de Deus…

8 de Outubro de 2003

  • Tiago Teles

    Diz-me como uma família que tenha um rendimento mensal de €1000 por mês com 2 filhos na universidade consegue pagar-la. Os filhos do ricos conseguem. Com um sistema de ensino em que nos leva mais que 40 horas semanais de trabalho como conseguem os menos ricos arranjar empregos em part-time para pagar os seus estudos? E consegues arranjar 300.000 empregos em part-time para igual número de estudantes do ensino superior português principalmente em tempos de crise? É dever do Estado educar os seus cidadãos. Só assim conseguimos evoluir. Somos o único País da União Europeia que investe menos de 1% do PIB no ensino superior.

  • Tiago Teles não sei ao certo qual é o valor que as bolsas chegam, mas se não ultrapassam andam pelo menos muito perto dos 200 euros por mês…
    Se é suficiente ou não, não sei… para pelo menos cobra as propinas, à vontade.
    Se realmente for pouco para outros fins, como livros e alimentação, então que se revejam as bolsas… Acho mais inteligente fazer isso do que andar a criticar-se tanto as propinas…

  • Outra coisa…
    Acredito no que disseste sobre a percentagem do PIB que o estado investe no ensino superior. Mas também deves concordar que, pelo contrário, deveremos estar no topo nos que mais aldrabamos o estado seja em fuga aos impostos, seja a receber bolsas injustas, seja a receber qualquer outro subsídio injusto.
    Devia-se investir mais na educação? Sim… como em muitos outros sectores, mas isto torna-se um ciclo vicioso complicado de resolver.
    Se calhar no ensino superior é onde o estado consegue receber dinheiro de forma mais fiável, porque dúvido que haja muitas pessoas, se é que vai haver alguma, a deixar de estudar por causa das propinas…
    Se isso acontecer há toda uma estrutura de apoio a pessoas necessitadas que está a funcionar mal…

  • Eu nunca disse que o sistema é justo e que funciona bem. Nunca disse que as bolsas de apoio são adequadas, que as condições/organização dos cursos são as melhores, que o investimento na educação é o melhor. Pelo contrário: os cursos são, em geral, maus, com más qualidades, desadequados da vida laboral real. As universidades muitas vezes não oferecem as condições que deveriam oferecer.
    Não é nada disso que critíco. Critíco pura e simplesmente uma coisa: a hipócrisia de um meio académico que supostamente luta pelos estudantes. Todos os estes problemas já existiam antes desta questão das propinas e não só devem ser assinalados, como resolvidos. É pena que deles, a maioria, só agora se lembre. E é pena que numa manifestação contra estas propinas só se mova pouco mais de meia centena de pessoas (IST 08/10/03), enquanto que para o arraial do IST apareçam cerca de 2000 pessoas…

  • Estas manifs contra as propinas lembram-me os primeiros tempos de faculdade.
    Na altura, o poder político tinha mudado.
    Os estudantes tinham vencido o braço de ferro das propinas com o anterior governo.
    Com o actual, acreditáva-se (injenuamente) que iriam ser nossos aliados tal como nos tempos em que eram oposição.
    Obviamente tal não aconteceu. Apresentaram novas medidas para o financiamento do ensino superior onde as propinas estavam incluídas.
    Na altura tinham um valor equivalente ao do salário mínimo nacional, e eram pagas em duas prestações.
    O pessoal protestou.
    Sabia-se que o investimento no ensino superior iria diminuir, e as propinas serviriam para compensar esse corte.
    Organizaram-se manifs mas a adesão era fraca. Pudera, muitos tinham ajudado a eleger o novo governo, com que moralidade o iriam criticar?!
    Mas o pessoal não desistia, e inventava formas de alertar os colegas para a injustiça das propinas.
    Vi então, membros de associações de estudantes a promoverem o uso de violência como forma de captar o interesse dos media.
    Embora não me identificasse com essas merdas, mantinha-me na luta contra as propinas e aderi ao boicote do seu pagamento.
    O reitor alimentou a nossa esperança de que com um boicote massivo, seria difícil alguém ver a sua inscrição anulada, do modo como o governo ameaçava.
    Nessa altura, colocámos uma lista na sala de convívio da minha faculdade, onde o pessoal que iria boicotar poderia rubricar o seu nome e número de aluno, orgulhosamente.
    Foi vergonhoso! A maior parte dos líderes da associação de estudantes e outros dinamizadores das manifs, não incluiam o seu nome pois os pais já tinham pago as propinas por eles.
    Era a história do “façam o que eu digo, não façam o que eu faço”.
    Como sabem, o governo ganhou essa luta, e pouco a pouco todos pagaram as propinas, e creio que o governo não teve que anular a inscrição de ninguém.
    O que me chateou nessa altura não foi o ter que pagar, mas sim ver a consistência dos jovens políticos que se formam nas nossas faculdades.
    A conclusão que eu tiro disso é que a maior parte das manifs, seja contra o que forem, não passam de manobras políticas.
    E para servir interesses políticos/pessoais de outros, o melhor é estar quieto.
    Abraços

  • Só uma pergunta, algum é já deputado?

  • Que eu saiba não.
    Mas com o tempo chegam lá.
    Um desses meus colegas, foi a seguir eleito para a Associação de Estudantes, fartou-se de participar em ENDA’s, e não tenho bem a certeza mas creio que tb ocupou cargos na AAL.
    Nos entretantos perdi o contacto com ele, mas sei que tb ajudou a fundar o núcleo da JS no Monte da Caparica.

  • Ainda sobre as propinas, no site da FCT (faculdade onde fecharam a direcção com papel higiénico), existe um seminário online de reflexão académica.
    Estão lá várias perguntas acerca das propinas, assim como respostas da direcção da faculdade.
    Deixo aqui o link para caso se interessarem, visitá-lo.
    http://www.fct.unl.pt/seminario/reflexao_academica/arquivo9/debate/