27 de Setembro de 2004

Uma das grandes (des)vantagens da informática e da automatização de sistemas é o processamento em massa de informação e dados. Não me refiro ao tratamento de grandes operações contabilísticas, nem a listas de contactos ou tão pouco ao armazenamento e ordenação de clientes, fornecedores, ou mesmo contribuintes do Estado.
Toda a gente sabe que nesse aspecto os computadores facilitaram, e muito, a nossa vida.
O que me refiro é ao seguinte: vejamos por exemplo uma empresa operadora de rede de telemóveis. Ao tratar todas as chamadas feitas pelos seus clientes tem imediatamente ao seu dispôr quantidades assustadoramente grandes de dados: como, quando, para que rede, quanto tempo… De forma quase imediata, esta empresa tem dados estatísticos para observar tendências e comportamentos.
Há agora um anúncio (só ouvi na rádio) em que a TMN informa que não é desonesta e ajuda os seus clientes a escolherem o melhor tarifário para o seu tipo de utilização. Indo a uma loja da TMN, a assistência que eles dão é baseada no conhecimento que nós temos das chamadas que fazemos. Ora, eu não sei dizer para que rede falo mais, ou se é mais para uma só, ou para duas, ou para as quatro. Não sei em média quanto tempo falo, nem se é mais à noite ou de dia, ou quantas SMS envio por dia. Certo, posso ter uma noção, mas não sei verdadeiramente quantificar. Se a TMN fosse mesmo honesta (pelo menos com os seus clientes actuais) pegaria nos registos que tem das suas chamadas e com um simples programa de computador diria logo qual é o melhor tarifário que a nós se aplica tendo em conta que a tendência seria a mesma dos últimos 4, 6, 12 ou 18 meses.
E a TMN tem esses dados. Eu pedi, mas só me deram dos últimos seis meses.
Este é só um exemplo: a Brisa, os bancos, os fornecedores de acesso à Internet e todas as empresas que possam ter forma de seguir mais-ou-menos em tempo-real o destino e uso dos seus produtos, podem ter acesso a informação importantíssima e de elevado valor. Um dos exemplos é a Zara, que consegue desenhar, preparar, confeccionar e distribuir um novo produto em duas semanas, tudo porque dotou as suas lojas de um sistema em rede que permite ter o conhecimento em tempo-real da venda dos produtos.
Se uma empresa souber reagir bem e depressa, estas informações são de elevado valor. Lembro que é desta forma que vivem muitos dos conteúdos e aplicações ´gratuitas´ da internet. A princípio começaram como simples bases de dados de contactos que as pessoas forneciam quando se registavam em sites (nomes, moradas, telefones, rendimentos, etc). Hoje em dia há programas especializados (como alguns dos software de mensagens instantâneas) em espiar os sites que consultamos e o uso que fazemos da internet.
Cada vez estamos mais perto de 1984.

27 de Setembro de 2004

  • Ricardo Ramalho

    Concordo até certo ponto… Há aí ao barulho a questão da privacidade. Mas ok.

  • Adorei a tua crónica. Embora roce um pouco na teoria da conspiracao, n deixa de questionar pontos pertinentes.
    Sobre isto devias falar com o teu primo, Hélder Coelho. Pela sua antecedência profissional e mesmo pelo pouco que conheco dele a nível pessoal. Acho que daria uma discussao interessante