2 de Julho de 2014

Na universidade não há vida. As portas fecham-se. Os centros de investigação não funcionam. O pós-doutoramento é uma ficção útil para que quem manda não tenha de se preocupar com o desemprego de umas quantas pessoas que existem saltando de tese em tese.
Paulo Rodrigues Ferreira, Vida de Bolseiro

Esta citação é a chamada de uma coluna de opinião no P3, por Paulo Rodrigues Ferreira, 29 anos, bolseiro de doutoramento e co-proprietário da Fyodor Books. Como antigo aluno de doutoramento e bolseiro, e estando ainda inserido na vida académica fiquei curioso, mas logo de seguida veio a desilusão. O texto é uma amálgama de coisas que não se percebem bem e acaba por fazer mais por manter a confusão do que clarificar e explicar os problemas aos leitores.

O bom

Eu fiz o meu curso em Portugal e o doutoramento nos Estados Unidos. Também fui bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) durante parte do meu doutoramento, que durou mais de quatro anos. A minha exposição à investigação científica em Portugal é, por isso, limitada, já que a maioria da minha experiência foi fora de Portugal. Ainda assim mantenho-me ao corrente do que se passa: conheço muita gente na academia em Portugal, sobretudo nas áreas das ciências naturais.

O que se passou em Portugal em termos de política de Ciência e Investigação pode ser, de forma simplista, resumido da seguinte forma: desde meados dos anos noventa houve um grande crescimento no número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. Sob a alçada de Mariano Gago, o número de bolsas cresceu exponencialmente. Entre outras coisas, o número de grupos de investigação cresceu e o número de publicações – um dos indicadores usados para medir a quantidade e qualidade da produção científica – aumentou de forma substancial. Portugal está longe de ser uma potência no panorama científico mundial, mas os avanços foram verdadeiramente significativos.

Com a crise chegaram os cortes. Há menos bolsas na sua totalidade, o financiamento para a Ciência e Tecnologia, e para o Ensino Superior em geral desceu. Há limitações nas contratações, burocracias e ineficiências administrativas que são um empecilho ao funcionamento do sistema, e a tudo isto se junta o decrescente número de alunos fruto de um país que envelhece cada vez mais depressa. Novos problemas acrescidos do agravamento de falhas antigas fazem com que o mundo académico viva momentos difíceis e desanimadores.

Por tudo isto há motivos para frustração e irritabilidade. Há uma ausência de perspectivas de futuro, muitas incertezas e falta de recursos. Em suma, a frágil academia portuguesa, sofre momentos que tornam vida académica uma experiência amputada e disfuncional. Este não seria o primeiro relato que me chega aos ouvidos de desânimo e irritação. São temas que merecem a pena ser noticiados e descritos. Problemas que urge debater e resolver, mas problemas que não são únicos num momento de crise económica e financeira.

Em particular, vejamos algo que afecta a vida de um bolseiro de doutoramento, que escolhe fazer a sua formação em Portugal: o seu salário. Uma vez aceite a candidatura, um bolseiro tem praticamente garantido uma bolsa mensal de €980 durante quatro anos, acrescida do valor do seguro social voluntário. Não tem subsídios de férias, direito a subsídio de desemprego, mas também não paga impostos. Um bolseiro é, isso mesmo, um bolseiro, não um empregado.

O valor das bolsas é essencialmente o mesmo há mais de quinze anos. Tendo em conta a inflação, a verdade é que a vida de bolseiro tem sido cada vez mais pobre. Para manter o poder de compra, os bolseiros de hoje deveriam receber entre €250-€300 por mês a mais.

Ano Bolsas de
 Doutoramento
Financiamento Salário Salário
Ajustado
1995 582 € 4.465.015 € 639 € 1.423
2000 1358 € 15.185.342 € 932 € 1.267
2005 2063 € 25.405.899 € 1.026 € 1.194
2010 5387 € 64.071.020 € 991 € 1.058
2013 4799 € 56.694.315 € 984 € 984
Tabela 1 – Salários nominais de um bolseiro de doutoramento e actualização devido à inflação. [1]
Este é um problema relevante, mas confesso que não sei exactamente se o Paulo concorda comigo porque a partir do primeiro parágrafo, o texto é uma amálgama imperceptível.

O mau

Pena que acabe. Pena que a minha bolsa acabe para o ano. Se entretanto não encontrar emprego, não terei direito a subsídio de desemprego. A única hipótese do ex-bolseiro de doutoramento é ganhar uma bolsa de pós-doutoramento, e depois disso entrar na meia-idade cravejado de artigos científicos no currículo, com pelo menos três dioptrias de miopia em cada olho e com o futuro assassinado pela ilusão de que a universidade o ampararia quando o resto falhasse.

Sim, é pena que acabe. Eu também tenho pena que a minha adolescência tenha acabado. Tenho pena de não poder ter os meus pais a sustentar-me e a alimentar-me, enquanto eu vou à escola e gozo a minha juventude. Sim, após o doutoramento não há direito a subsidio de desemprego, mas esta não é uma situação distinta da que encontram a grande maioria dos doutorandos mundo fora. É melhor na Escandinávia? É pois, mas que serviço do Estado não o é? E já agora, quão mais produzem, quão mais pagam de impostos e quão menos fogem aos impostos os cidadãos desses países?

Outro dos grandes problemas é a questão da empregabilidade. O emprego é difícil de encontrar? Certamente: a taxa de desemprego é elevada e o tecido empresarial nacional não absorve muitos doutorados. E se em relação a este último aspecto a academia não está isenta de culpas, a verdade é que este é um problema nacional. Se o doutorado tem hipótese de seguir para um pós-doutoramento, possivelmente tem mais hipóteses do que muitos dos seus compatriotas. Mas está longe de ser a «única hipótese». É no final do parágrafo, no entanto, que o Paulo começa a revelar um dos problemas do raciocínio que muitos fazem, o de um dia ter a «ilusão de que a universidade o ampararia quando o resto falhasse». Esta é, sem dúvida, uma ideia confortável: depois do Estado nos ter pago a educação, sustentado (precariamente, é certo, mas com o suficiente para nos alimentarmos e alojarmos, e até mesmo um bocadinho mais) durante um doutoramento, deveria, pois claro, amparar-nos o resto da vida.

O péssimo

Se for esperto, o bolseiro aproveita o tempo para escrever, para ler, para ver filmes, para namorar e, claro, para redigir a sua prestimosa tese (…). O problema é não viver, não saber mais do que aquilo que se escreve numa maldita dissertação, não ter visto um filme, não ter ido a um festival de música, não ter aproveitado para namorar, para respirar o ar da cidade.

Ora aqui está parte do péssimo contido nesta coluna de opinião. Antes o Paulo já havia dito que o bolseiro que não é esperto ultra-especializa-se e depois vai à sua vidinha, «cravejado de artigos científicos no currículo». Eu não sei exactamente o que é que o Paulo pensa acerca do que é fazer-se um doutoramento e qual é o seu objectivo. Um doutoramento é um contributo para o avanço do corpo de conhecimento da humanidade. Alguns doutoramentos, produzidos por seres excepcionais, são verdadeiramente marcantes e revolucionários. Mas como quase tudo na História a grande maioria são minúsculo contributos infinitesimais, isto sem falar naqueles que são maus e para descartar. Um académico é por definição um especialista. Ponto final.

Ora, quase todos concordaremos que um ser humano completo necessita de mais coisas na sua vida para além do seu conhecimento especializado. Um ser humano completo é um ser social, estabelece relações, cultiva-se, faz desporto, respira o ar da cidade (e do campo!), em suma deve viver. O Paulo diz que este é um dos problemas do bolseiro: não faz nada disto.

Não sei quem são os bolseiros que o Paulo conhece. Eu tive a oportunidade de fazer tudo isto: de namorar, de ouvir música, de ir a concertos e a teatros, de conhecer gente de todo o mundo, até de viajar, mesmo com um orientador que teima em não mandar alunos a conferências. Serei um privilegiado? Talvez. Mas a grande maioria dos bolseiros que conheço, nacionais ou estrangeiros, acabam por ter privilégios semelhantes aos meus. Alguns terão uma vida menos eclética, é certo, mas garanto-vos que é por opção própria (ou um orientador especialmente desagradável).

Não sei quem são os bolseiros que o Paulo conhece. E, deste texto, não consigo perceber qual é o motivo que os torna assim. O próprio Paulo é co-proprietário duma livraria, actividade essa que, imagino, está além do seu plano de estudos. Claramente tem tempo para sair abrir horizontes, e acho muito bem que assim o faça. No entanto, continuo sem perceber o que é que faz dos bolseiros bisonhos ignorantes. Será pela tal super especialização da academia? Mas não é essa a definição de um especialista académico? É um problema localizado e nacional ou é um mal mundial? Será por causa do famigerado problema que parece assolar o país: a falta de dinheiro? Não sei… mas investiguemos este aspecto.

País Ano Salário Diferença
custo de vida
Diferença
salário
Comparação c/
salário mediano
Bélgica 2014 1800-2000 56% 94% 5%
Canadá 2014 1412 46% 44% -40%
Dinamarca 2012 2370 82% 142% 7%
França  2010 1685-2020* 87% 89% 8%
Alemanha  2014 1000-1600 23% 33% -27%
Irlanda  2014 1400 67% 43% -15%
Itália  2014 1000-1250 56% 15% -16%
Holanda  2014 2500 58% 155% 46%
Noruega 2005 3203* 114% 227% -4%
Polónia  2014 550 -14% -44% -21%
Portugal 2014 980 41%
Espanha  2014 1147-1250 24% 22% 20%
Suécia  2006 2365* 30% 89% 15%
Reino Unido  2011 1373-1871* 61% 89% -37%
EUA  2014 1500-1600 71% 79% -8%
Tabela 2 – Valores aproximados de salários nominais de um bolseiros de doutoramentos em vários países, comparação desses salários com os valores portugueses e diferenças de custo de vida. Ainda a comparação do valor da bolsa com o salário mediano local.[2]
Consultando a Tabela 2 é manifesta a diferença de rendimentos auferidos pelos doutorandos nos diferentes países. Mais uma vez, na Escandinávia, assim como na Holanda, ou na Bélgica, um doutorando vive melhor. Mas se atentarmos a outros locais, como nos Estados Unidos, na França, na Itália, na Polónia ou mesmo na Alemanha, o poder de compra de um aluno de doutoramento é comparável, se não pior do que em Portugal. Assim sendo, e tendo em conta o estado económico-financeiro do país, será que nos podemos queixar muito?

Mais uma vez, o Paulo não explicou qual é o problema da vida do bolseiro que não pode namorar ou ler. Talvez não seja o dinheiro.

O problema do bolseiro é o hiato entre a licenciatura e o fim do doutoramento ou do pós-doutoramento. O hiato entre os vinte e um ou vinte e dois e os quarenta anos. São muitos anos morto.

Ou seja, o problema do bolseiro é ser bolseiro: fazer aquilo que um bolseiro é suposto fazer. Não percebi se isto é uma crítica ao sistema académico que vigora no mundo actual, se um reparo ao mal que vive um bolseiro em Portugal. É certo que ninguém gosta de estar morto.

O sistema académico, de investigação científica e universitário português está debilitado e com muitos problemas, como já referi. Veja-se o caso recente do decréscimo no número de bolsas avançadas, ou ainda mais recente caso do corte do financiamento a centros de investigação mal classificados. Mas mais uma vez afirmo: vez não percebo o que faz do Paulo um morto.

No seu blog diz-se «licenciado, mestre e a tirar um doutoramento em História, disciplina que odeia e sempre odiará, na Faculdade de Letras de Lisboa, instituição que abomina tanto, mas tanto que quase vomita quando lá mete os pé». Que eu saiba, ninguém é obrigado a fazer um doutoramento. E se é sapo que tem de engolir para poder vir a ser professor, então não poderia ter escolhido uma disciplina que não odiasse, numa instituição que não abominasse? É uma maçada quase vomitar todos os dias! Mas pior ainda é caminhar deliberadamente para a sua morte, mesmo que temporária. Para alguém que se propõe ser bolseiro de investigação, não deixa de ser uma desilusão que não tenha conseguido investigar um bocadinho aquilo que seria a sua vida (ou morte) como bolseiro. Pior ainda é continuar a insistir estar morto quando se apercebeu do facto. E contribuir com mais ruído numa realidade conturbada.


  1. Os valores mensais foram calculados dividindo o valor do financiamento da FCT pelo número de bolsas (Dados FCT), embora nominalmente o salário se tenha mantido nos €980, desde 2000. Para correcção da inflacção foram usados os dados da Pordata (Inflação Total Geral).
  2. Estes valores foram recolhidos de forma pouco científica de diversos sites, sobretudo o Find a Phd e o agregador de salários Glassdoor. Não pretende ser uma recolha exaustiva ou rigorosa, mas apenas uma perspectiva aproximada das diferenças entre salários nos diversos países.
    A diferença do custo de vida foi determinada usando o índice de preços de consumo incluindo renda, entre Lisboa e a capital de cada país, excepto na Suécia (Uppsala), Reino Unido (Cambridge) e Estados Unidos (Boston). Os dados são do site Numbeo.
    Os salários medianos são essencialmente os referidos neste artigo da wikipedia, RU, EUA. Nem sempre foi possível obter relativos ao mesmo ano e antes/depois de impostos. Assim sendo, os valores são meramente indicativos.
    *Valores antes de impostos

2 de Julho de 2014

  • Bom dia!

    Realmente os bolseiros de PhD são essenciais para a ciência e a tecnologia, pois sem os jovens não haveria a energia mental necessária para a investigação e desenvolvimento.

    É verdade que, estatisticamente, a crise apenas trouxe uma pequena diminuição no número de bolsas de PhD e no salário dos bolseiros.

    No entanto a comunidade científica em Portugal está em geral muito descontente com a presente presidência da FCT. Nunca as manifestações públicas e os comentários nos jornais foram tão negativos como agora.

    Por isso o problema que sentimos em Portugal não é apenas um problema estatístico de menos bolsas e de menos dinheiro. Obviamente, todos conseguiríamos continuar a fazer investigação e desenvolvimento apesar de sofrermos alguns cortes.

    Vivendo no interior do sistema académico sinto que o problema é causado pela decisão da presidência da FCT de acumular o financiamento em apenas alguns novos programas de doutoramento que deixam grande parte dos anteriores programas de doutoramento sem bolseiros.

    Isto é agravado por as sub-áreas da ciências e da tecnologia que acabam por ser financiadas não terem mais qualidade que as que perdem financiamento. Nem sequer as sub-áreas financiadas são claramente mais relevantes para a economia ou a estratégia nacional que as áreas não financiadas. Os júris não têm a competência e os meios necessários, e tanto os critérios como a sua aplicação não parecem razoáveis.

    Numa comunidade que busca a verdade e a excelência, esta disparidade, este caos e esta arbitrariedade são demasiado desmotivantes. Este mal estar afasta principalmente os os jovens que são os mais idealistas de todos.

    A ciência, a tecnologia e a academia, estão a sofrer danos muito profundos, não tanto pelos cortes, mas principalmente pela estratégia utópica e pela péssima gestão da FCT.

    Pedro Bicudo, Prof. IST Lisboa

    • Obrigado pelo comentário. Tenho seguido toda a polémica fora e dentro dos jornais, e agora com a avaliação dos grupos de investigação há ainda outro ponto negro.

      Tenho de escrever algo sobre isso, até para que eu me possa esclarecer de alguns dos problemas que estão a acontecer e que não é fácil descortinar.

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