2 de fevereiro de 2015

Anda tudo desvairado. Nova edição da PACC – a prova que os recém-encartados potenciais professores têm de passar para poderem candidatar-se a dar aulas no Ensino Público – e está tudo a gritar. É injusto, é inútil, os professores são burros. Há opiniões para todos os gostos. Resolvi fazer a prova. Fiz duas, a de Dezembro de 2014 e a de Dezembro de 2013 e em duas vezes tive o resultado de 30 respostas certas em 32. Depois vim rever o que da prova estava a ser dito.

Antes de mais há que contextualizar: a prova, promessa eleitoral do ministro Crato, pretende ser uma barreira na entrada para a carreira de professor. Há anos começaram a aparecer as Escolas Superior de Educação (ESE) privadas, que passaram a receber, entre outros, quem não tinha média ou lugar para os cursos na Escola Pública. Sem querer generalizar, muitas destas ESE começaram a formar professores de qualidade duvidosa, mas que saíam com médias altas. Estes professores passariam, mais tarde, à frente de professores com médias mais baixas. A questão não é de agora: em 2006 a vice-reitora da universidade de Coimbra sugeria esta prova aos ministros da Educação do governo PS e, três anos depois, o secretário de Estado da Educação dizia:

(…) que “não tem absolutas garantias” de que a formação prestada por todas as instituições de ensino superior “corresponda aos padrões de qualidade exigível” à profissão docente. Pedreira adiantou que existem “indícios” de facilitismo e eventual inflação de notas em alguns cursos, e citou os casos da Escola Superior de Educação Jean Piaget, e do Instituto Superior de Ciências Educativas, ambos privados, onde se formou um terço de todos os professores admitidos no sistema nos últimos dez anos.
in Pedreira acusa escolas de educação de facilitismo

Esta encarnação da prova tem uma componente comum, para todos os candidatos a professor, e, presumo, mais tarde uma componente específica. A componente comum tem 32 duas perguntas de resposta múltipla e um exercício de escrita de um texto de 250 a 350 palavras. É esta componente comum que está a fazer correr tinta nos jornais.

Raciocínio

A pergunta que mais tem dado que falar é a seguinte:

O selecionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol. Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes.

Supondo que o selecionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes

(A) é inferior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos.
(B) é superior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos.
(C) é igual ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos.
(D) não se relaciona com o número de grupos diferentes de jogadores efetivos.

Ora, nesta pergunta, serem jogadores de futebol, ou serem bolas do totoloto é indiferente. Para evitar confusões, vamos pegar em 17 bolas numeradas. O enunciado diz que se vão repartir as bolas em dois grupos, um de 6 bolas e outro de 11 bolas. Diz ainda que não interessa a ordem das bolas. A questão é, então, relacionar o número de diferentes grupos de 6 bolas com os diferentes grupos de 11 bolas que se podem fazer.

Pergunta 6
Um grupo diferente numa das caixas implica um grupo diferente na outra.

Como o diagrama acima demonstra, se trocarmos uma das bolas numa das caixas (1 pela 12, no segundo caso), obtemos um grupo diferente em cada uma das caixas. Como a ordem não interessa, a cada grupo de bolas numa caixa corresponde um e só um grupo na outra caixa. Logo a resposta é a (C).

O enunciado talvez não seja o mais transparente, mas é assim tão rocambolesco? Olhando para as reacções, talvez seja mesmo!

Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça.

Vasco Pulido Valente in A estupidez à solta

E se a palavra “grupo” designar “conjunto de pessoas ou objectos”, como o que vem no dicionário? Jogadores de ataque, de defesas?!

No meu caso, essa questão ficou rapidamente resolvida graças à fórmula matemática que descreve o número de combinações de um grupo de P pessoas escolhidas entre um total de N pessoas. Mas concedo que, sem ela, talvez não tivesse chegado à resposta tão depressa ou sequer percebido a pergunta.

Ana Gershenfeld in A minha experiência com a prova

Discordo Ana, mesmo sem a fórmula, qualquer pessoa pode lá chegar. De certa forma havia pistas: o exame é para todos e para ser feito sem calculadora…

Nos comentários do Público alguns concidadãos vociferavam:

(…) o desgraçado do professor terá de saber que no futebol só pode se pos usar um suplente um só vez no jogo, se esse jogador/suplente que está a jogar depois for o banco já já não pode entrar de novo para o jogo. É uma pergunta imbecilizada de quem pariu a prova e que pensa que todo o mundo sabe as leis e regras do futebol.

Convenhamos que na primeira questão o erro reflecte algumas ambiguidades, já que para responder acertadamente, é necessário que o candidato tenha um mínimo de conhecimento quanto à formação de uma equipa de futebol.

in As três questões em que mais professores erraram

Afinal parece que este exercício não é assim tão fácil. Talvez quem já tenha feito deste tipo de exercícios esteja mais habituado, mas a verdade é que está lá tudo no enunciado.

Outra pergunta:

A Júlia saiu de casa para visitar uma amiga: andou 1 km para oeste, 500 m para noroeste, 300 m para oeste, 500 m para sudeste e, por último, 1 km para sul.

O percurso da Júlia
O percurso da Júlia (ilustração minha)

Para voltar a casa pelo mesmo caminho, a Júlia necessita de andar:

(A) 1 km para sul, 500 m para sudoeste, 300 m para oeste, 500 m para nordeste e 1 km para oeste.
(B) 1 km para sul, 500 m para sudeste, 300 m para oeste, 500 m para noroeste e 1 km para oeste.
(C) 1 km para norte, 500 m para nordeste, 300 m para este, 500 m para sudoeste e 1 km para este.
(D) 1 km para norte, 500 m para noroeste, 300 m para este, 500 m para sudeste e 1 km para este.

É difícil, esta pergunta? Não, é elementar, e acho que saber os pontos cardeais não é um requisito desumano. Só acertaram 44.7%

Cultura geral

De entre as pergunta, duas delas, pelo meio de interpretação de textos, perguntavam conhecimentos de cultura geral. Num desses textos, em que o narrador ia ao café de uma qualquer terra portuguesa falar com um suposto herói da guerra recém-chegado do campo de batalha em Armentières, mencionavam-se soldados alemães e ingleses, trincheiras enlameadas e fogo de metralhadora.

A pergunta pedia para seleccionar de entre quatro períodos temporais (1875–1900, 1900–1925, 1925–1950, 1950–1975), qual deles se referia aos acontecimentos descritos no texto. Será demais querer que um professor saiba minimamente o que foi a Primeira Guerra Mundial, a única guerra mundial em que Portugal participou e cujo centenário foi amplamente comemorado nos meios de comunicação no ano que ainda agora terminou?

Noutra pergunta, lia-se no texto que precedia a seguinte frase:

Nos anos seguintes, e durante quase todo o reinado de D. João V, a Inquisição teve o cuidado de justificar a sua existência com autos de fé copiosos.

e a questão de escolha múltipla:

De acordo com o texto, durante o período mencionado, a Inquisição
(A) apresentou relatórios a D. João V.
(B) copiou modelos de outros países.
(C) produziu diversos textos religiosos.
(D) realizou muitas cerimónias públicas.

Será demais querer que um professor saiba que autos-de-fé eram cerimónias públicas destinadas a que os hereges fossem penitenciados?

Em nenhum destes casos houve mais de metade dos examinados a responder correctamente.

Deficiências

A prova está bem construída? Sinceramente não sei. Não me parece inteiramente descabida, mas há, claramente, deficiências. O grupo de questões onde se inseria uma das outras questões com menos de 30% de respostas certas (por curiosidade, eu acertei nessa, mas errei nas duas outras desse grupo), baseava-se num texto cuja tradução deixa muito a desejar. Aqui dou razão a Pulido Valente – «em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga». Também «concentrar muito entusiasmo» não é brilhante tradução de «summon much enthusiasm». E concordo com Luis Miguel Queirós em “Português dos redactores da PACC não cumpre os requisitos mínimos”, no que diz respeito a esta pergunta. Ainda que seja uma edição da Gulbenkian, este texto é obscuro e a tradução má. Porquê escolher isto? É inadmissível.

Prova escrita

Não fiz a prova escrita, por razões óbvias, mas não me parece nada de extraordinário. São entre 250 a 350 palavras, para fazer um comentário à seguinte frase:

Como a prensa de Gutenberg, a Internet e as redes sociais permitem que muito mais gente seja capaz de comunicar mais depressa e com mais pessoas, mas isso não implica que a informação que circula seja melhor e mais útil.

Não vou entrar pela questão dos erros ortográficos, embora segundo consta, erros por escrever com a ortografia certa – aquela a que chamam de antiga – não contavam. Mas vou comentar a estatística que diz 21,9% dos examinados teve cotação 0 (zero)! Mais – do grupo de examinados que tentavam o exame pela segunda vez, 27% teve cotação zero nas duas tentativas. Ora, o que significa cotação zero:

  • Resposta ilegível
  • Resposta com extensão inferior a 150 palavras
  • Resposta com extensão superior a 450 palavras
  • Resposta em que se verifica um afastamento integral do tema
  • Resposta que não atinge o nível 1 de desempenho

O nível 1 de desempenho:

– Respeita parcialmente a instrução no que se refere ao tema.
– Produz um texto com uma estrutura pouco adequada à tipologia proposta.
– Apresenta a sua perspetiva de forma ambígua e defende-a através de uma linha argumentativa pouco articulada e/ou pouco coerente.
– Manifesta um domínio lexical limitado (com pouca variedade, mas sem incorrer em impropriedades que comprometam o sentido global do texto).
– Manifesta um domínio limitado dos mecanismos de coesão textual (com pouca variedade, mas sem incorreções que comprometam o sentido global do texto).

Ou seja, para ter zero é preciso muito esforço. Não vi, é certo, o que os zeros escreveram, mas vou aceitar o que os correctores tenham seguido estes critérios de correcção. Adiante

Resumindo e concluindo

Fiz duas das provas e, sinceramente, embora o português de algumas das questões seja duvidoso e haja uma escolha de um texto inadmissível, a verdade é que não penso que a prova seja assim tão extraordinária. Apresenta um mínimo de questões que testam um pouco de raciocínio, de cultura geral, de interpretação e de capacidade de produção escrita.

A PACC suscitou muitas reacções: já citei a de Pulido Valente, contra, o António Santos, que diz que já temos bons professores e esta não é mais do que uma manobra resultante do desprezo do governo pela classe profissional dos professores. O próprio IAVE, responsável pela implementação da prova, está, de forma um tanto ou quanto surreal, contra ela, afirmando que “este tipo de provas ignora aquilo que é essencial na acção docente” temendo que os futuros cursos de professores os passem a treinar para passar esta prova (ensinando os pontos cardeais, presume-se)! Outros aproveitam para desancar nos professores, sabendo (presumo), que estes ainda não são professores, mas querendo com certeza generalizar. Ou seja, há opiniões para todos os gostos e cores políticas.

A PACC gera melhores professores? Certamente que não? A PACC consegue prever quais os candidatos a professores que vão ser melhores educadores? Claro que não. Então para que servirá a PACC?

Ao Observador, João Pedro da Ponte, director do Instituto de Educação, da Universidade de Lisboa faz a seguinte mirabolante afirmação:

[A PACC] “não está concebida para avaliar o trabalho das instituições”. Quanto muito, continuou, estes erros e a percentagem de chumbos revelam que “o nível de formação no ensino básico e secundário não é o adequado”. E se o indivíduo for passado no secundário, estamos indevidamente a atribuir culpa ao ensino superior”, explicou, acrescentando que os alunos “saem bem preparados” das instituições de ensino superior para dar aulas.

A sério? Vêm mal-preparados do secundário, mas bem preparados do ensino superior? Querem ver que ainda posso vir a ser jogador do Real Madrid?!

O já famoso Mário Nogueira afirmou:

“Gostava que os pais dos alunos se dessem ao trabalho de ir à página do Instituto de Avaliação Educacional [IAVE] na internet e lessem a prova. Será que ficavam mais descansados por entregar os filhos a um professor que tivesse passado naquela coisa?”, questionou, nesta terça-feira, Mário Nogueira, da Federação Nacional de Professores (Fenprof). Ele próprio assegura que “não”. “A PACC é de uma inutilidade completa. A não ser para afastar professores, que em Setembro, muito convenientemente para o Governo, já não aparecerão como não colocados”, disse.

in PACC: instrumento de “selecção” para o MEC e de “exclusão” para os professores

Será que ficaria mais descansado por entregar os meus filhos a um professor que passasse nesta “coisa”? Só por si, é claro que não, mas sei que ficaria bastante receoso se o meu filho estivesse a ser ensinado por alguém que não passou nesta prova. Disso tenho a certeza.

O ministro deveria ter chamado a este exame “PERMID”: prova eliminatória dos que não reunem os mínimos indispensáveis para a docência. No entanto, o mais assustador é que quem foi prestar esta prova tinha acabado de terminar um curso homologado pelo Ministério da Educação. É a este problema que os sindicatos, comentadores e governantes deveriam dedicar a sua energia, como já outros bem o disseram.

2 de fevereiro de 2015

"