<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	
	xmlns:georss="http://www.georss.org/georss"
	xmlns:geo="http://www.w3.org/2003/01/geo/wgs84_pos#"
	>

<channel>
	<title>blog.scheekoLargo do Carmo &#8211; blog.scheeko</title>
	<atom:link href="http://blog.scheeko.org/2006/01/largo_do_carmo/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.scheeko.org</link>
	<description>Blog de Francisco Feijó Delgado</description>
	<lastBuildDate>Fri, 05 Apr 2024 10:21:09 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.1.1</generator>
		<item>
		<title>Largo do Carmo</title>
		<link>https://blog.scheeko.org/2006/01/largo_do_carmo/</link>
		<comments>https://blog.scheeko.org/2006/01/largo_do_carmo/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 21 Jan 2006 13:17:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>francisco feijó delgado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Palavras]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.feijo.org/boston/largo_do_carmo/</guid>
		<description><![CDATA[Sentou-se e pediu logo um caf&#233;. Costumavam demorar imenso tempo a vir &#224;s mesas, naquela esplanada do Largo do Carmo. &#192;quela hora, deviam faltar dez ou quinze minutos para ela chegar. A palavra ainda n&#227;o tinha sido inventada; o que lhe vinha &#224; cabe&#231;a era um misto de obscenidade e de cobardia. H&#225; dois meses [&#8230;]]]></description>
		<content:encoded><![CDATA[<p style="text-indent:40pt;">
Sentou-se e pediu logo um caf&#233;. Costumavam demorar imenso tempo a vir &#224;s mesas, naquela esplanada do Largo do Carmo. &#192;quela hora, deviam faltar dez ou quinze minutos para ela chegar. A palavra ainda n&#227;o tinha sido inventada; o que lhe vinha &#224; cabe&#231;a era um misto de obscenidade e de cobardia.
</p>
<p style="text-indent:40pt;">
<em>H&#225; dois meses que sei que te sentas a&#237;, nessa mesma mesa, sempre &#224;s ter&#231;as e &#224;s sextas. Coincid&#234;ncia ter-te encontrado, a escrever. Ainda n&#227;o deixaste de vir uma &#250;nica vez.
</p>
<p style="text-indent:40pt;">
H&#225; dois meses que ele sabe que ela vai &#224;quela esplanada, &#224;s ter&#231;as e sextas, pelas seis horas. N&#227;o faltou nem no dia vinte e tr&#234;s de Dezembro; deve ser daqui de Lisboa. Todas as sextas um livro, geralmente de arte, ou arquitectura. Sempre um bloco e uma m&#225;quina fotogr&#225;fica em cima da mesa. Costuma pedir um caf&#233; e um pastel de nata. &#192;s vezes troca o caf&#233; por uma meia-de-leite. Outras pede um aperitivo que ainda n&#227;o conseguiu identificar. Pela apar&#234;ncia, um Moscatel, um Madeira, ou um Porto. &#192;s vezes tr&#225;s um leitor de CD&#146;s. N&#227;o se preocupa em trautear alto; sempre Steve Poltz, Mazgani e Blind Pilot. Ele n&#227;o conhecia nada daquilo. &#192; hora certa, l&#225; chegava ela. Ele, preso &#224; cadeira.
</p>
<p style="text-indent:40pt;">
<p style="text-indent:40pt;">
Ser&#225; que ela j&#225; me viu? Quem &#233; ela? O que faz?  As mesmas perguntas, sempre. Jorravam-lhe, inundavam-lhe a imagina&#231;&#227;o. N&#227;o falava daquilo a ningu&#233;m. Era rid&#237;culo. Nunca fizera nada. Nada mais que observar. Isto &#233; rid&#237;culo . &#192;s vezes sustinha a respira&#231;&#227;o e levantava-se ligeiramente. Depois sentava-se. J&#225; v&#225;rias vezes vira tipos ir falar com ela. Que frustra&#231;&#227;o, era o que ele sentia. Tipos com bom aspecto (ser&#225; que era aquilo que faziam na vida?), muitos deviam ser artistas. Pediam para desenh&#225;-la, vinham falar com ela. J&#225; a vira rir, a bom rir. E ele nada mais fazia que imagin&#225;-los a ambos, juntos, a viverem juntos, a prepararem um pequeno-almo&#231;o juntos. Tu trope&#231;aste em mim, eu com as ch&#225;venas na m&#227;o, tu com o p&#227;o com doce, e olhaste-me nos olhos com uma cumplicidade que se situava mesmo entre a culpa e o arrependimento parcial . Ele imaginava-a na sua vida. Imaginava uma vida a dois, diferente. Imaginava, sonhava os bons momentos. Era isso que ele ia ali fazer; ia ali imaginar. Mas ia com a esperan&#231;a de que um dia se tornasse mesmo a sua pr&#243;pria vida.</em>
</p>
<p style="text-indent:40pt;">
O medo, a vergonha. <em>Porqu&#234;? Isto &#233; rid&#237;culo</em>. Naquele dia tinha dito: <em>&#233; hoje; tem de ser </em>. Ele nunca dizia &#233; hoje. Mais que tudo, o seu medo era de reconhecer-se falhado. Assim evitava falhar-se a si pr&#243;prio, pelo menos formalmente. Naquele dia disse. <em>&#201; hoje </em>. Tudo planeado. O que diria, o que n&#227;o diria. Sabia que n&#227;o iria ser nada disso que lhe viria &#224; cabe&#231;a. Mesmo assim recreou aquilo vezes infind&#225;veis, na sua imagina&#231;&#227;o.
</p>
<p style="text-indent:40pt;">
E ela sentou-se. Em dez minutos, ele n&#227;o pensou em rigorosamente nada. Limitou-se a olhar. Sentiu o tempo a passar. At&#233; que p&#244;s as m&#227;os nos bra&#231;os da cadeira. Assim que transferiu o peso e se come&#231;ou a levantar, viu-a levar as m&#227;os &#224; cara. Ficou est&#225;tico. Ela baixou a cabe&#231;a. Ele n&#227;o conseguia distinguir se estava mesmo a tocar na mesa.
</p>
<p style="padding-left:40pt;">
<em>Ela est&#225; a chorar.</em><br />
<br />Ela estava a chorar. Primeiro timidamente. Depois nada o escondia.<br />
<br /><em>Ela est&#225; a chorar! </em>
</p>
<p style="text-indent:40pt;">
Ele estava surpreendido. Aterrado. E deixou-se cair na cadeira. Na sua mente consolava-a. Passaram cinco ou seis minutos. Ela levantou-se e fugiu correr.</p>
]]>
						</content:encoded>

	
	
	
	
			</item>
	</channel>
</rss>
