Venho agora fazer uma retracção. Fui precipitado ao declarar que Vasco Câmara era uma besta. Da mesma forma que o texto que o crítico escreveu não estava sujeito a contraditório, também a minha crítica não o estava. Em boa hora um amigo me sugeriu que o contactasse e prontamente me respondeu.
Na cena da casa de banho, Câmara reconhece não ter sido explícito na forma em como resumiu a cena, tendo tentado antes expôr aquilo que estava subjacente à cena e que é recorrente ao próprio filme: uma popização mesquinha e fácil da miséria.
Continuo a achar que a forma como a crítica está escrita não é a mais feliz e continuo a não concordar com a opinião nela expressa. Porém da troca de correspondância fiquei elucidado acerca da própria opinião de Vasco Câmara e também mais esclarecido acerca da minha própria atitude em que fui intransigente.
The Chinese Lunar New Year began Monday, and projections for the Year of the Ox from astrologers, lawyers, bankers and fishmongers are anything but auspicious.
O curioso, na minha opinião, é poder usar estes “videntes” como meio de recolher estatísticas. Como vem escrito mais à frente, no mesmo artigo,
Two years ago, people would ask me if they should change from a medium house to a big house, or from a Nissan to a BMW. Now people ask me directly, ‘When am I going to get laid off?’
As pessoas confidenciam e perguntam sobre os seus receios mais profundos.
Há uns tempos havia um blog intitulado “A Kathleen Gomes é um boi“. Agora já não o é (o blog) e passou a ser “O Pedro Mexia quer ser Pivot!“. Mas isso não interessa nada agora. O que eu quero dizer é: o Vasco Câmara é uma besta. Ou isso, ou ceguinho. Eu não sei se é preciso ver-se um filme para criticá-lo, diria que sim, mas mais que estar na sala, é preciso perceber o que se está a ver. Na crítica no Público ao Slumdog Millionaire, Vasco Câmara diz:
Numa sequência em que se roça, aliás, a abjecção: para “furar” a multidão que se acotovela em torno da estrela que desceu dos céus em helicóptero, o nosso pequeno herói mergulha num poço de excrementos para, com o cheiro, conseguir afastar a multidão.
Ora no filme, realmente o pequeno Jamal mergulha num monte de excrementos, mas a cena passa-se assim: Jamal e o irmão geriam uma pequena casa-de-banho, na margem de um rio, ou pântano, e recebiam alguns trocos para deixar as pessoas lá fazerem aquilo que se faz numa casa-de-banho. Essa casa-de-banho não era mais que um buraco entre quatro paredes, em cima de estacas. Ora num certo dia, uma estrela de cinema vai visitar aquela localidade e o pequeno Jamal estava dentro da casa-de-banho, quando o helicóptero aterra. Essa estrela, Amitabh, era o herói de Jamal e ele queria um autógrafo dele mais do que qualquer outra coisa. Só que o irmão tranca-o na casa de banho e Jamal tem de tomar uma decisão: ou não vê Amhitab, ou sai da casa-de-banho saltando para dentro do buraco, caindo dentro dos excrementos. Jamal acaba saltar, segurando a fotografia de Amitabh ao alto, qual Camões nadando com os Lusíadas fora de água.
Depois dirige-se para o herói, imundo, mas nada daquilo que Vasco Câmara diz, simplesmente porque foi a única maneira de sair da casa-de-banho. Aliás, o facto de o irmão o ter trancado é parte importante da relação entre os dois que se desenvolve ao longo da história.
Não vou fazer considerações filosóficas acerca do filme. Limito-me a dizer que é um filme bonito, bem filmado, com uma história bela, boa fotografia e que me deu muito prazer a ver. Mas Vasco Câmara acrescenta:
O filme de Boyle não é mais “real” do que um musical de Bollywood – aliás, o filme de Boyle acaba como um musical de Bollywood, tentativa de passar a mão pelo pêlo do espectador indiano.
Não sei se é real ou não, nunca fui à Índia. Da mesma forma que não sei se O Cidade de Deus é real, pois nunca fui a uma favela, nunca fui ao Brasil. Não deixa de ser um muito bom filme. Não contente, logo na frase a seguir vem mais uma cretinice: sim, o filme pós-acaba (porque já não faz parte da história, é na altura dos créditos) como um musical de Bollywood, com uma dança à lá Benny Lava. Claramente o objectivo não é tentar “passar a mão pelo pêlo do espectador indiano“; não estou dentro da cabeça de Danny Boyle, mas o pós-final é notoriamente um apontamento de humor, um salpico no fim dum filme tenso. Mais nada. Se não viu o filme, é uma besta, porque escreve sem saber. Se viu o filme, não percebeu nada do que lá estava (e nem é assim tão complicado).
ACTUALIZAÇÃO:
Fiz um post com a cena descrita. Poderão ver aqui que não é nada daquilo que Câmara descreve.
ACTUALIZAÇÃO 2:
Reconheço ter sido intransigente neste post e fica aqui a minha retracção.
Já há alguns tempos que pensava em fazer este inquérito, mas só agora o pus no papel. Trata-se de um pequeno questionário para tentar saber se, como e em que é que acreditam os portugueses (ou alguns deles). Peço que respondam a ele, é curto, e se puderem, que o ajudem a divulgar. O inquérito está aqui: