4 de novembro de 2003

(continuação da entrada anterior)
Se na entrada anterior queixei-me do surripiamento de juventude a que a Capital do Império está exposta, desta vez venho fazer uma ode à Cidade Só.
A solidão dos passos num metro vazio é confrangedora. Sentir as paredes nuas, que não comportam ninguém. As composições arrastam-se lentamente pelos túneis que esventram o subsolo. Ao emergirmos, as ruas, também despidas de pessoas, onde um pequeno sussuro, um leve bater das solas na calçada é brutalmente amplificado, fazendo levantar vôo o bando de pombos que se aninhava a um canto.
Passar as mãos nos corrimões das escadas, ter os prédios todos só para nós. Cada carro que passa é notado e num instante ficamos com a impressão de que conhecemos toda a vida do condutor.
Os ruídos, as correntes de ar, os papéis – tudo desapareceu ou está suavemente pousado no chão. Toda a cidade ganha a intimidade e a pessoalidade de uma casa.
Onde estão todos? E que interessa? Agora é tudo meu.

4 de novembro de 2003

3 de novembro de 2003

Lisboa é uma cidade fabulosa – assim o acho; assim a vivo. Porém é uma cidade que padece de um mal. É uma cidade de velhos. Por razões várias, como a lei do arrendamento, ou a especulação imobiliária, a cidade de Lisboa em si tem uma percentagem de residentes idosos bastante elevada. Basta passar pelo Areeiro depois das oito da noite, ou aos fins-de-semana. Ninguém.
Os cafés fecham, as ruas ficam desertas. Lisboa é esventrada da sua massa humana todos os dias depois do regresso a casa. É que na grande maioria dos casos, a casa é fora de Lisboa.
Há muitas casas abandonadas, muitos focos sem quase vida própria, além da conferida pelos que se deslocam à capital.
Eu espero que isto venha a mudar. Espero que Lisboa passe novamente a ter residentes, de forma equilibrada.

3 de novembro de 2003

31 de outubro de 2003

Vou fazer um declaração social e politicamente incorrecta nos dias que correm: eu detesto o meu pipi. Abomino aquilo.
Agora é cool dizer que se gosta do pipi. Sim, ele tem jeito para aquilo. É um fodilh** do caral** – e riem-se alarvemente.
Se repararem nos comentários, 99% dos leitores que lá os colocam fazem questão de que 99% do conteúdo do comentário seja palavrões e asneiras. O teor dos escritos é tão bom ou melhor como a conversa entre dois camionistas que estiveram seis meses a atravessar um deserto qualquer onde não havia bordel ou qualquer outro meio que lhes pudesse servir o propósito de aliviar o apetite sexual. Depois há aquelas pessoas que dizem: mas não, vai ver bem; ele escreve muito bem e tem muita razão naquilo que diz. expressa-se é de outra forma. Isso também eu quando vou à casa-de-banho!
Não é que dizer uma boa asneira no momento apropriado não seja algo de superiormente realizador – já o dizia o MEC. Eu acho até que é terapêutico. Agora o pipi… francamente. Aquilo é uma mega-masturbação, onde o autor tem o seu recreio e se dá ao luxo de insultar os leitores e tudo o resto – que ainda se põem a especular sobre a sua identidade. O pipi é uma grande manobra de marketing – o livro prova-o – onde alguém, à custa da alarvidade mental de muita gente, vai fazer um dinheirão e onde tem o seu cantozinho de troça dos humanos que habitam o país luso.
(curioso, pode ter sido azar, mas no arquivo desapareceram os posts anteriores a 4 de setembro…. terei que ir comprar o livro para os ler?)

31 de outubro de 2003

30 de outubro de 2003

Ando estranho. Acho eu.
Decidi remodelar aqui a casa, um bocadito. Do lado direito retirei links de blogs que, infelizmente, estagnaram no tempo. Do lado esquerdo comecei a acumular links para os posts de que mais me orgulho, ou que me deram particular gosto em escrever. Pus ainda um índice para a narrativa que estou a fazer sobre a minha experiência nova-iorquina.
Está a quase a fazer 4 meses, este blog. Só agora é que notei que os posts não têm títulos…

30 de outubro de 2003

27 de outubro de 2003

E se for?
E se fores? Será? És?
Dizes-me? E se for só um bocadinho?
Não, diz-me com a tua voz. Quero ter quase a certeza.
Será? Será que és?
Nem um suspiro?
Nem um…?
E se me beijares?
Será, porventura?
Que ando aqui a fazer…
Que faço eu aqui?
Será no surreal?
Será?
Quero explicar-te.
Queres saber?
Ah! Ponto.

27 de outubro de 2003

27 de outubro de 2003

António Arrão nasceu em 1947 na remota aldeia de Guisado, no norte do país. Cedo compreendeu que a sua vocação era a da apanha da giesta na Serra do Gerês, labuta para a qual se preparou psicologicamente durante os anos em que frequentou a escola primária. Mas foi a pesca do bacalhau à linha, em alto mar, que, por ironia do Destino, lhe ofereceu sustento para o início da sua prolífica vida.
Na sua viagem inaugural, apesar de verde conseguiu pescar uma invejável quantidade de bacalhau, só ficando atrás do mais experiente bacalhoeiro. Com isto ganhou boa reputação entre os homens do navio e junto do capitão. No decorrer das seguintes viagens apaixonou-se pela cozinheira do navio, cujos olhos era a única parte do corpo que via, através do orifício por onde passavam os pratos. Na sua décima viagem compreendeu que, apesar dos indícios que a qualidade da confecção do pescado e das batatas já davam, o nome da cozinheira – José, ou simplesmente Zé – não vinha de Maria José. Zé era o nome dum cozinheiro; o que nunca ficou esclarecido foi se a Zé tinha sido sempre o Zé, ou se o Zé tinha substituído uma eventual cozinheira chamada Zé. Os olhos eram muito similares, no entanto.
Não recomposto desta desilusão António Arrão quis suicidar-se, mas o capitão não permitiria tal coisa a bordo do seu navio. Deixou-o, então, num iceberg do mar do norte, com um penico e um exemplar d´Os Lusíadas e prometeu passar por lá no regresso da viagem para o levar de volta, caso tivesse mudado de ideias. Numa noite quente e estrelada, depois de Arrão ter chegado à conclusão de que efectivamente devia pôr termo à sua vida, um navio, que outrora fora conhecido por Titanic, chocou com o iceberg. Arrão foi arremessado contra o casco e foi parar dentro de água, de onde foi salvo, já inconsciente pelo navio que socorreu os desgraçados passageiros do navio. Uma pena foi o navio ter ido ao fundo, já que não se pôde aproveitar nem os lençois de seda, nem os penicos de porcelana fina, que ainda hoje estão no fundo do mar.
Arrão acordou na América, mais precisamente no quarto andar do número 52 da 52ª rua, perto da 6ª avenida, em Nova Iorque. Isto aconteceu aproximadamente dez anos depois do acidente no iceberg. O que se passou entretanto, ninguém sabe. Arrão acordou sozinho e no apartamento, ao lado da cama só havia uma pilha de livros cujo autor era, aparentemente, ele, uma garrafa semi-vazia de Marquês de Borba e um post-it que tinha escrito: “Não posso viver mais contigo sem saber se estás em coma, ou simplesmente a dormir.”
O pobre bacalhoeiro do Guisado, saíu de casa, naquela estranha cidade, ligeiramente entorpecido e dirigiu-se ao SoHo. Entrou na primeira cafetaria que encontrou e pediu uma dezena de panquecas e maple sirup, o qual desastrosamente entornou sobre um guardanapo de papel que se colou ao seu sobretudo, deixando uma mancha que se assemelhava a Leonardo da Vinci apanhando gladíolos na Pampa. Foi aí, em 1978, que, segundo Jordan Greenpuff, teve início a carreira de um dos mais produtivos artistas plásticos do século XX. António Arrão mudou o seu nome para Andy Warhol, casou com Yoko Ono e assassinou o anterior marido desta. Foi simulada uma morte por envenenamento, para esconder o seu actual paradeiro, mas que, segundo as minhas investigações, são os calabouços da prisão de Sing-Sing.´´

27 de outubro de 2003

26 de outubro de 2003

A chuva caía incessantemente. Era fim-de-tarde de um dia de semana. Nem eu nem tu tínhamos de regressar a casa e as responsabilidades de estudante… que esperassem umas horas. Rumámos à baixa e ao sair da entrada do metro, pouca escolha tivémos. A chuva continuava a não dar tréguas e por isso enfiámo-nos logo na Brasileira. O escuro lá de fora era trazido para dentro, pelos vidros, e ampliado pela já natural escuridão do café. As luzes, muito amarelas, reflectidas nos vidros e espelhos, salpicam as mesas e os clientes e, de certo modo, aquecem-nos. São o suficiente para nos vermos uns aos outros.
Sentámo-nos. Tu pediste um chá e uma torrada. Eu um galão e pastel de nata. Depois mudaste o teu pedido: em vez do chá, também querias um galão. Sempre me fascinou o galão. Não só pelo calor afável que transmite no inverno, mas pela sua forma física. O copo, comprido, contrasta com todos os outros suportes de café e derivados. A colher, igualzinha às pequenas, à excepção de um cabo muito maior. Porquê? Não sei.
Sorríamos parvamente um para o outro, enquanto contávamos os pormenores do dia de cada um. As maiores inutilidades foram criteriosamente descritas como se de factos científicamente relevantes se tratassem. Soltaste uma gargalhada quando cocei o olho e a lente foi lá para trás e deixei de ver. Acabámos o lanche. Tem de ser. Tinha de ser. Lá fomos. Saímos porta fora e a chuva… lá estava. Que se lixe! E fomos pela rua fora até ao Cais do Sodré. Sem sequer acelerarmos o passo.
Foi. Será?

26 de outubro de 2003

26 de outubro de 2003

Não me considero uma pessoa nem sádica, nem mórbida, nem violenta – excepto quando me cruzo com algum responsável da Sociedade Portuguesa de Autores.
Agora a sério: eu não me considero uma pessoa nem sádica, nem mórbida, nem violenta. Mas desde pequeno que, de vez em quando, uma sensação de atracção pelo abismo, me invade o corpo. Não é daquele tipo de atracção ligado às vertigens; é mais profundo, mais obscuro.
Desde sempre que por vezes dou comigo a pensar como seriam as coisas se todas as pessoas do mundo desaparecessem e eu ficasse sozinho. Como é que eu reagiria numa situação de catástrofe natural. E se estivesse na guerra? Ou se um amigo ou amiga próximo adoecesse mortalmente? São tudo coisas terríveis que ninguém quer que lhe aconteça, nem aos seus pares; tudo coisas que nenhum ser racional quer conhecer; tudo coisas que eu não quero que me aconteça. Mas… há um qualquer sentimento subliminar que me faz despertar a curiosidade para estas situações.
Quando era criança, de vez em quando, nestas divagações, pensava o que aconteceria se um dos meus pais morresse. O meu pai morreu. Não é nada bom, garanto-vos, e o acontecimento abalou muito esta casa. Mas ainda assim, estes estranhos impulsos que vivem lá escondidos no subconsciente, de repente, teimam em saltar cá para fora. Espero que não sejam mais que isso: impulsos do subconsciente. Espero que nunca tomem outra forma, mais real. Será só uma característica individual? Ou é da espécie?

26 de outubro de 2003

26 de outubro de 2003

Yep, é de vez. Chegou o Inverno.
Desta vez não é uma ameaça, é mesmo a sério. Chegaram a chuva e o frio, o cinzento e o vento, os trovões e os relâmpagos. Não é que não tenha aproveitado o Verão, mas as saudades ficam. Por outro lado, também é verdade que já sentia falta do inverno.
O início de tarde cinzento e molhado, depois de uma almoço aconchegador, que nos leva a sair de casa protegidos, fugindo das gotas mais grossas, para ir domingar para uma qualquer exposição no CCB. Depois corremos a uma pastelaria qualquer para bebermos algo quente e comermos um pastel de nata. De regresso a casa, sento-me em frente à televisão, com a minha mãe e por vezes o meu irmão, recordando momentos em que a família fora maior, mas que do mesmo modo, aproveitava aqueles finais de tarde para filmes entremeados de conversa, em frente à lareira. O Natal avizinha-se, mas ainda não temos de aturar o marketing peganhoso da festividade. O quentinho das casas entranha-se-nos no corpo e, enfiando a cabeça nos ombros, rodando-a ligeiramente, inclinada, sobe-nos um arrepio pela espinha – é o conforto, a sensação de que estamos protegidos.
Acho que sou uma pessoa com muita sorte.

26 de outubro de 2003

25 de outubro de 2003

Eu gosto muito de ir ao cinema. Mesmo muito. Porém, devido a razões variadas, é raro ir a salas de cinema. Ontem fui ver o Kill Bill; nunca tinha visto um filme do Tarantino no cinema e decidi que tinha de ir. Antes tinha visto o Catch Me If You Can, talvez em Maio, e antes desse, provalvemente em Fevereiro, o Sinais.
Não é para armar em intelectual da borra, mas ontem lembrei-me de algumas das mais fortes razões porque não vou ao cinema, já para não falar do preço e de possíveis condições técnicas longe de óptimas. Ontem tive de assistir ao filme com um grunho a comer as suas pipocas atrás dos meus ouvidos e a comentar todas as cenas e mais algumas. Até pedir para se calar tivémos de saber que achava que o filme ia ficar para a história e que quando a Uma Thurman esposteja 88+2 soldados à espadeirada, aquilo não é real.

25 de outubro de 2003

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