
No passado fim-de-semana fui convidado para um jantar, onde os hóspedes (a Sofia e o João) me proporcionaram um brilhante arroz de polvo e uns pastéis de belém acabadinhos de chegar da fábrica. Ou, pelo menos, tão fresquinhos como a distância o permite.
No decorrer da noite lá falei da minha convicção de ser o único habitante do continente americano a usar pasta Couto para a minha higiene oral. Acabei por ter de explicar o famoso anúncio do indivíduo às voltas com a cadeira porque havia quem nunca tivesse ouvido falar dele. Não é que seja do meu tempo, mas quem vê aquilo uma vez nunca esquece.
Ora, ao desenrolar-se a conversa, fiquei a saber que um dos hóspedes era bisneto de Manuel Vicente Ribeiro, dono da farmácia responsável por outra pasta dentífrica memorável. Confesso que nunca lhe tomei o gosto (embora o João tenha prometido arranjar exemplares vintage), mas o facto de se chamar Piorricida fez com que ganhasse um lugar permanente na minha memória.
“Com Piorricida terá bons dentes toda a vida”. A genialidade do marketing é tremenda. Só não consigo avaliar se tremendamente boa, se tremendamente má.
EDIT: Deixo aqui o link para a reportagem “Ode to a toothpaste” da repórter freelancer portuguesa Mariana Van Zeller.
A imagem do anúncio veio daqui.
O meu pai faria hoje cinquenta e nove anos. Se tivesse sobrevivido.
Morreu, fará em julho próximo dez anos, em plena altura da Expo 98. Não foi assim há tanto tempo, mas foi há imenso tempo. Na minha imaginação o meu pai ainda tem mais uns trinta ou trinta e cinco centímetros do que eu, o que se fosse verdade, faria-o ter mais de dois metros de altura. Eu sei que não era assim tão alto, mas foi a imagem com que fiquei.
O meu pai usava bigode. Já na altura não era assim tão comum, mas interrogo-me se hoje o usaria. Na altura eu não tinha telemóvel; nem eu, nem o meu irmão, nem a minha mãe. A internet ainda era por modem, dos mais lentos, de 56k, e o mp3 começava a ser uma coisa grande. Se tivesse sobrevivido, talvez hoje andasse no Porsche que sempre quis ter. Ou talvez não. Mas de certo que continuaria a ser o elemento aglutinador nas piquenicadas de verão, na serra de Arga, ou noutro lugar igualmente belo do Minho.
O meu pai era uma personagem que impunha respeito, mas emanava uma grande calma. Calma essa que era assustadora, quando entrava no nosso quarto nos sábados de manhã em que fazíamos uma barulheira que não deixava dormir ninguém, com o propósito de nos fazer calar, mas sem levantar um bocadinho que fosse o tom da voz.
O meu pai morreu de repente, deixando à minha mãe grande parte do trabalho de nos educar e levar a bom porto. Daquilo que mais tenho pena é das coisas que não nos viu viver. Disso e da memória, que desvanece. Porque é inevitável.

Portugal – The shortest way between America and Europe.
Portugal, o caminho mais curto entre a América e a Europa. Do tempo em que ainda se usava a palavra propaganda.
O vídeo acima já é um hit da internet há algum tempo, mas de qualquer das maneiras quis deixá-lo aqui. É fruto duma iniciativa da Universidade de Harvard, cujo o objectivo é ajudar na visualização dos objectos de estudo da biologia. Fala um pouco sobre como um glóbulo branco fabrica as proteínas necessárias para aderir às paredes dum vaso sanguíneo. Mas muito mais do que falar mostra e fa-lo duma maneira visualmente muito bela, verdadeiramente espectacular.
A estrela do filme é a molécula que transporta um lipossoma ao longo dum microtúbulo. É a cinesina 1, uma proteína motora, com uma forma alongada, tendo num extremo dois “pés” que caminham num “carril” e no outro um “gancho” que agarra o objecto a transportar.

A cinesina 1 “consome combustível”, i.e. a molécula usual para o fornecimento de energia nos sistemas biológicos, ATP, e desloca-se unidireccionalmente ao longo de estruturas tubulares dentro da célula, denominadas microtúbulos.
Se alguém precisar de mais esclarecimentos acerca do filme, dá-los-ei dentro das minhas possibilidades!
Referências
[1] – Harvard Multimedia Project
[2] – XVIVO
Já lá vão uns dias valentes, mas só agora deu para comentar a defesa da missa em Latim, que o Pedro Mexia colocou no seu blog. Percebo-o, mas neste caso não percebo.
Não entendo como se pode querer que a missa seja usada como ritual sem a palavra. Eu não vou à missa, aliás, nem sequer acredito, mas não creio que faça sentido a cerimónia do ponto de vista puramente mecanístico. Penso, aliás que seja um retrocesso, na grande maioria dos casos.
No entanto, percebo perfeitamente a necessidade de rituais. Já aqui o tinha dito, a propósito do 25 de Abril. Sou um defensor da solenidade, do ritual como evento marcador de passo. Marcar os passos da vida. Acho que é preciso, que contribui para distinguir-nos de entre o banal, do passageiro. Celebrações sem terem de ser festas, pausas para meditar e valorizar, pausas para observar. Os rituais fazem-nos olhar para o agora e para o antigamente e ajudam a preparar um futuro. Os rituais criam referências temporais.
Acho até que se devem criar novos rituais, para situações novas, ou para reformular outros. O melhor exemplo para mim é o casamento, que, para os não religiosos, é um ritual insípido, deprimente e sem identidade. E poderia dar mais, mas por hoje fico-me por aqui. Digo apenas que acho que a missa deve ser um ritual, mas não acredito que na maioria dos casos o latim faça da missa o ritual que ela deveria ser.
Para juntar à crescente lista de incoerências tipográfico-intelectuais que os nossos jornais de referência publicam, no artigo Só um novo investidor pode salvar Cinema Quarteto do fim, do DN, ficámos a saber que o cinema lisboeta:
“Por não reunir todas as condições de segurança, nomeadamente, saídas de emergência em número suficiente, sistema de detecção de incêndios, revestimento de paredes e pavimento com materiais inflamáveis, o Quarteto teve de encerrar.”
É a nova técnica do IGAC para garantir que não ficam feridos graves… se houver fogo, que arda tudo e todos!
Aqui de longe, vou-me mantendo actualizado sobre a vida urbana das duas localidades onde vivia antes de emigrar através dos blogs dos movimentos cívicos Cidadania Cascais e Cidadania Lisboa.
Numa proposta à comunidade de Cascais o movimento faz, aquele que considero, o melhor diagnóstico do comércio local da vila:
– Ninguém quer comprar 99 % do que as lojas de Cascais e do Estoril vendem;
– Em muitos casos as montras das lojas são ainda piores do que aquilo que se encontra à venda lá dentro;
– Os horários que praticam podem dar muito jeito aos comerciantes, mas não servem os potenciais clientes;
– Não pode continuar a vender as mesmas coisas que as grandes superfícies vendem e, muito menos, ao dobro dos preços por elas praticado. Tem que haver segmentação e valorização pela a diferença.
– Perceber que nas grandes superfícies o estacionamento só é grátis para os clientes. Ele é pago, e bem pago, pelos lojistas estabelecidos nas grandes superfícies.
– Tirar partido do significativo número de visitantes que, ao fim-de-semana, se desloca ao concelho em lazer, nomeadamente ao Paredão e ao Guincho, atraindo-os ao centro;
– Perceber, finalmente, que as pessoas não vão às suas lojas por causa da falta de estacionamento, ou por as ruas serem pedonais, ou por causa da Câmara, ou dos centros comerciais existentes, ou quaisquer outros poderes mais ou menos ocultos, mas sim, porque não encontram o que querem, à hora que querem, com a qualidade de serviço que querem.
Não há negócio a investimento zero, que é o que a generalidade dos comerciantes tem feito nas suas lojas nos últimos (muitos) anos. Será duro dizê-lo, mas não há centros urbanos vivos sem um comércio vivo. E este comércio de Cascais e do Estoril está morto. E continuará morto enquanto os comerciantes não entenderem que a culpa da sua desgraça não é, ou não é principalmente, da Câmara, das grandes superfícies, da falta de estacionamento, dos clientes, do sol ou da chuva. É deles próprios porque insistem em vender o que ninguém quer, às horas a que ninguém quer, a preços que ninguém quer.
De todas as variáveis de que dependerá a ressurreição do centro da vila, esta é a mais importante mas será, também, a mais difícil de alterar. Julgamos que apenas uma alteração radical da Lei do Arrendamento Urbano poderá trazer um princípio de solução. Possível a ressurreição do centro da vila? Sim, mas muito difícil. Haverá que tentar, contudo.
Na sequência dum post anterior sobre manipulação de imagens, deixo aqui um link de um laboratório de um professor da Universidade de Dartmouth, MA, EUA. Um dos temas a que se dedica é precisamente a manipulação de imagens e como detectá-la. Aqui apresenta uma série cronológica de como a história visual é adulterada para melhor servir os interesses dos seus protagonistas.
Lembro-me de quando era mais novo ver num documentário como Stalin tinha mandado apagar os relógios “extra” que trazia no braço um dos soldados russos que hasteou a bandeira soviética no Reichstag em 1945. Não era bem visto o herói andar com relógios de soldados alemães mortos como troféus.
Neste site, no entanto, a lista é extensa e uma das coisas que mais me impressiona é quão antiga esta tradição é!
Hoje, no supermercado comprei Nestum Mel. Com o rótulo e a data a consumir de preferência, bem, tudo em português.

Mas continuo a achar que muito provavelmente sou o único Português que lava os dentes com Pasta Couto neste continente. Claro, não tenho provas. It’s just a feeling.

Um em cada dez estudantes universitários de Coimbra acredita que a pílula anticoncepcional protege da infecção por VIH/sida, segundo um inquérito realizado pela investigadora Aliete Cunha-Oliveira, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Público
Isto resume, em poucas palavras, a educação que se dá neste momento em Portugal. E é pena que se discuta muito sobre educação no nosso país, mas não se diga uma única palavra do que está a ser feito aos jovens, da geração que se está a criar.
O conjunto de falhas é extremamente grande e numa dimensão altamente transversal. Não é só o tipo de conteúdos que são transmitidos, mas a relação com o que se aprende e com o que se ensina. A cada vez maior ausência de responsabilização, aliada ao facto de se querer fazer do ensino algo osmótico e indolor é muito grave. Aprender custa a todos os alunos; alguns têm mais facilidade que outros, mas a todos dá trabalho. Estimular a criatividade e curiosidade custa aos professores e aos pais, e não é trivial. Inculcar a responsabilidade e o brio pelo sucesso académico (e, por inerência, pelo esforço e pelo trabalho) é da responsabilidade dos pais — e cada vez existe menos esse sentimento; a extrema protecção dos filhos é preocupante.
O facto de dez por cento dos alunos de uma das principais instituições de ensino superior do país não saberem que a pílula não protege contra doenças sexualmente transmitidas, não só é grave do ponto de vista intelectual (o que é que esta gente anda a fazer?) como é muito grave numa perspectiva de saúde pública. São pessoas numa altura importante das suas vidas sexuais e são, supostamente, dentro da nossa sociedade, aqueles com mais treino para procurar informação, para aceder a ela e para a digerir e compreender. Independentemente de serem de biologia, literatura, psicologia, farmácia ou direito.
Isto tudo faz parte dum grande problema chamado falta de educação. Não é falta de conteúdos, mas de educação para a vida cívica e passando por coisas como o civismo, as regras de boa educação, as regras de etiqueta e bom comportamento e ainda pela responsabilização. Um outro exemplo, bem filmado para todos vermos foi a menina histérica agarrada à professora. Parte virá das escolas, mas muito virá das famílias e da sociedade. E volta e meia dumas belas bofetadas.
actualização: como muito bem afirma o Pedro Aniceto, “era assim que funcionava antes, ainda no tempo em que ninguém se traumatizava como hoje parece acontecer”.