O Metro de Lisboa é onde eu tenho encontrado as mais variadas e, sobretudo, as mais divertidas formas de loucura urbana. Uma das suas variantes é a da manifestação política de grupos de cidadãos ou indivíduos a sós sobre os mais variados temas.
Eu tenho por hábito recolher estas pérolas (fica tudo a olhar para mim quando descolo os autocolantes).

A mais recente é esta, da Campanha de Sensibilização à Senilidade da População. Uma boa resposta e eficaz solução para o problemas dos saudosistas.
A dos Sentadinhos e Caladinhos é outra destas fabulosas manifestações, que recolhi já há cerca de ano e meio, quando regressei de Nova Iorque e me deparei com este sentimento tão característico da tristeza urbana portuguesa. Já conhecia este fenómeno, mas só depois de comparar com metropolitanos de outras grandes cidades é que pude confirmar que este é um mal endémico muito característico dos portugueses. Que é feito daquelas senhoras que falavam com tudo e todos?
Criticar os Blogs
Depois de uma pequena ausência, cá vamos.
Como já disse neste blog, Aristófanes ensinou-nos a não zombar dos insignificantes. E geralmente os meus princípios são geridos dessa maneira. Mas não consigo conter-me ao ler o agradável Criticar os Blogs. Quem por lá andar pela primeira vez, não se deixe enganar pelas alegres cores e flores que dão um ar infantilmente fresquinho ao blog – é puro veneno. A verdade é que aquilo é duro: em apenas três dias e sete entradas, desanca tudo e todos, em especial os de lá de cima. Qual Robespierre da blogosfera decapita os blogs da estratoblogosfera. A embaixadora do poder apócrifo, uma tal Carla Guedes, lança uma cruzada contra Pedro Boucherie Mendes e Ivan Nunes. Mas é sobretudo José Pacheco Pereira que é mais visado pela dita senhora. Diría mesmo que só ouvir o seu nome lhe causa erisipela.
Todas as críticas são facciosamente fundamentadas e nada escapa. Nem ao autor do Abrupto, se lhe deixa coleccionar objectos perdidos!
Porquê minha senhora? Porquê tanta raiva. Olhe que foi assim que o World Trade Center foi abaixo.
Ontem de manhã vi, pela primeira vez, a notícia de que tinha sido encontrado um corpo, ao mesmo tempo que a família de do Dr. Kelly o dava como desaparecido.
David Kelly estaria no centro de uma polémica – a meu ver gravíssima – entre o governo do Reino da Inglaterra e a BBC, que denunciou as falsidades praticadas por aquele sobre as capacidades bélicas do Iraque.
Agora já se diz que o corpo é compatível com a descrição de Kelly e que foi encontrado a meia dúzia de quilómeros de sua casa.
Que estranho. Ou não? Estas são histórias de crimes iguais às que desde sempre ouvi acontecerem nos anos dos gangsters. Há décadas que não se ouve (muito) de casos como este.
Mas será que foi mesmo assassinado? Estou convencido que sim. As reacções são no mínimo estranhas:
– talvez seja suicídio;
– He is not used to the media glare, he is not used to the intense spotlight he has been put under. Richard Ottaway, Tory MP
Ainda assim, que raio de assassinato é este? Mais atenções não poderia chamar. Ou será esse o propósito? Será que este senhor tinha ainda mais revelações a fazer – se estas não são já suficientemente graves? E porque é que o assassinariam depois de já se saber aquilo que se sabe? Será apenas vítima de um louco?
Nestas alturas, o que não costuma faltar são teorias da conspiração. Não gosto. Nunca gostei. Nunca levam a nenhum lado. Mas não posso deixar de manifestar a minha surpresa e curiosidade sobre este estranho acontecimento.
Não quero deixar de realçar os tempos estranhos em que vivemos sobretudo desde os finais do século passado. Após uma década de fulgor económico espectacular, vivemos uma recessão a nível mundial – algo que alguns já tinha esquecido, outros (como eu) nunca tinham conscientemente vivido. É uma recessão estranha, visto que (ainda) não se sentem aqueles sintomas característicos da quinta-feira negra, ou da superinflação alemã, que podemos ler nos livros de história. Em dois anos assistimos a dois conflitos armados de grande envergadura, pese embora curtos. Assistimos a um ataque terrorista, beyond our wildest dreams. Vamos assistir ao maior alargamento da União Europeia, numa altura em que alguns dos grandes estão em conflito. Estamos a assistir ao questionamento das autoridades americanas e britânicas por terem descaradamente mentido aos seus povos.
Veremos o que vai acontecer.
Tive de mudar o sistema de comentários. Recoloquei manualmente os comentários no sistema antigo, neste novo e mantive os privados, bem, privados. Se alguém estiver descontente, diga. Espero que não. Espero que esteja tudo a funcionar bem.
English As She Is Spoke
Crónica publicada em www.100ideias.org, depois de uma investigação despoletada por um post de um blog
Em deambulações pela internet dei de caras com esta pérola da literatura de linguística. Em 1855 foi publicado um dos primeiros guias de conversação Português-Inglês; sob a égide de José da Fonseca e Pedro Carolino saiu o English As She Is Spoke, uma obra tão incrivelmente má, que desde então tem sido reeditada como obra-prima da estupidez mais pura.
Agora que é reeditado, mais uma vez, em Nova Iorque, divulgou-se também um estudo de 2002 da autoria de Alex MacBride, sobre as causas que podem ter levado a tamanha incompetência. Desde a primeira edição do livro, que ambos os autores têm sido considerados como bestas ignorantes e profundamente ridicularizados. As investigações de MacBride sugerem que o que se passou foi o seguinte:
José da Fonseca era um académico responsável, que dominava várias línguas entre as quais o Francês e o Inglês. Entre as suas publicações contavam-se Novo Guia da Conversacao, em Portuguez e Francez, em Duas Partes. Por razões obscuras e ainda não esclarecidas, talvez ligadas a intrigas editoriais, um tal Pedro Carolino, que não sabia uma única palavra de Inglês resolveu pegar neste último volume e num dicionário Francês-Inglês para criar o English As She Is Spoke. Porque razão aparece o nome de Fonseca juntamente com Carolino na capa deste livro, ninguém sabe. Macbride sugere que terá sido vítima de um embuste ou terá estado mentalmente incapaz nos últimos anos da sua vida, que coincidem com a aparição do guia, visto que ele era um profissional capaz.
O resultado é que imediatamente a seguir à sua publicação, o English As She Is Spoke tornou-se num delicioso livro de anedotas. As reedições sucederam-se entre as quais uma prefaciada por Mark Twain que afirmou:
“Nobody can add to the absurdity of this book, nobody can imitate it successfully, nobody can hope to produce its fellow; it is perfect.”
Esta compilação de estupidezes resultou então da tradução literal de frases francesas, que tinham sido traduzidas e adaptadas por Fonseca ao francês a partir do original Português. Aqui seguem alguns exemplos hilariantes:
Original: Barriga cheia, cara alegre.
Tradução Correcta: A full stomach makes for a content face.
Versão de Carolino: After the paunch comes the dance.
Zombo deles; o meu navio é armado em guerra, tenho equipagem vigilante e animosa; e as munições não me faltam.
I laugh at them; my ship is armed for war; I have an alert and courageous crew, and I have plenty of ammunition.
I jest of them; my vessel is armed in man of war, i have a vigilant and courageous equipage, and the ammunitions don´t want me its.
Ainda não é tempo delas; mas os damascos brevemente estarão maduros.
It isn´t the season for them; but the apricots will soon be ripe.
It is not the season yet; but here is some peaches what does ripen at the eye sight.
Este lago parece-me bem piscoso. Vamos pescar para nos divertir-mos.
This lake looks full of fish to me. Let´s have some fun fishing.
That pond it seems me many multiplied of fishes. Let us amuse rather to the fishing.
Já não sei como me hei-de haver com esta casta de gente.
I don´t know what to do any more with this sort of people.
I don´t know more what I won´t with they servants.
Vamos mais depressa. Nunca vi pior besta. Não quer andar, nem para diante, nem para trás.
Let´s go faster. I never saw a worse animal. It doesn´t want to go either forward or backward.
Go us more fast never i was seen a so much bad beast; she will not nor to bring forward neither put back.
Seja a quem for que pergunte por mim, dizei-lhe que não estou em casa.
No matter who comes asking for me, tell him that I´m not at home.
Either to who it will be that it asks for me, you say to it that I am not in house.
Dando uma queda Philippe, rei de Macedonia, e vendo a extensão de seu corpo impressa na poeira, exclamou: “Grandes deuses! Como é acanhado o espaço que, neste universo, ocupamos!”
King Phillip of Macedon fell down, and seeing the outline of his body in the dirt, said, “Oh Great Gods! How small is the space we take up in the universe!”
Philip, king´s Macedonia, being fail, and seing the extension of her body drawed upon the dust, was cry: “Greats gods! that we may have little part in this universe!”
Certo ferroupilha pedindo, em Madrid, esmola a um sujeito, este respondeu-lhe: “Tu és moço, e melhor for a trabalhasses, que exercer tão vergonhoso mister.” “Meu senhor, acudiu o orgulhoso mendigo; eu peço-lhe dinheiro, não lhe peço conselhos.”
A beggar in Madrid accosted a passerby, who told him, “You´re a healthy young man; it´d be better for you to work, instead of taking up such a shameful profession.” The proud beggar replied, “I asked you for money, not advice.”
A beggar, to Madrid, had solicited the pity of a passenger. “You are young and strong, told him that man; it would be better to work as you deliver to the business who you do.– It is money as i beg you reply immediately the proud beggar, and not councils.”
Sem dúvida maravilhoso. É Portugal a fazer rir o mundo! Quem quiser mais pérolas pode aceder aqui a outros excertos do livro.
Estava a ouvir o fórum da TSF e, apesar da iniciativa ser louvável, serve para corroborar a minha já publicamente expressa ideia de que o tuga gosta de opinar. E opina muito e opina sobre tudo.
Ora não é que o ouvinte Vítor, indignado com as disparidades entre o litoral e o interior e com a falta de produção do país, resolveu recomendar ao Sr. Primeiro-Ministro, qual ido governante do Brasil, que leve a Capital do Império para o interior, como por exemplo Castelo Branco. Sim, em Lisboa continuaria uma capital do turismo, mas a capital administrativa deveria ser levada para Castelo Branco. Extraordinário! Do que esta gente se lembra!
Eu sempre fui partidário da descentralização e da efectiva dispersão dos aparelhos administrativos, mas tal ideia nunca me tinha passado pela cabeça. Provavelmente a culpa é de D. Afonso Henriques: para que é que saíu de Guimarães?
Mais uma sugestão bushiana do ouvinte Vítor: “Custa-me ver o País em chamas. O Governo deveria cortar as árvores. Sim, ao menos poderíamos guardar a madeira para queimar no inverno já que vejo tanta gente passar frio.”
Fica portanto uma questão, um tanto incómoda, mas que me assola há já algum tempo: até que ponto é que se pode e deve dar voz a quem quer falar?
Há cerca de dois anos comprei, para oferecer à minha mãe, um livro chamado Sabores da Toscana, de Stephanie Alexander e Maggie Beer. É um belíssimo livro de culinária, cujas receitas são óptimas e a qualidade gráfica é altíssima.
Hoje peguei nele e lembrei-me do seguinte facto, que já na altura me espantou: quando escolhi o livro, pensei que iria pagar cerca de seis ou sete contos – já se sabe, este tipo de livros de culinária é sempre assim: capa dura, mais de quinhentas páginas, muitas e belíssimas ilustrações, design, impressão e papel de muito boa qualidade. O livro estava em promoção e acabou por me custar pouco mais de dois contos. Em casa, reparei que no interior, juntamente com as especificações técnicas dizia o seguinte: preço aprox. 3000$00. O desconto da promoção foi bom, mas era efectivamente o livro que era barato, especialmente tendo em conta o tipo de livro que é. Só resta dizer uma coisa: a tradução e publicação é da responsabilidade da editora Könemann Verlagsgesellschaft mbH.
Já não é a primeira vez que neste curto blog digo bem de estrangeiros. Mas enquanto que da primeira foi para criticar a visão curta característica dos lusos, desta vez é para me queixar das editoras nacionais (o que no fundo também é falta de visão): há anos e anos que se queixam que é difícil ser-se editor em Portugal e que os portugueses não lêem. Pudera! se o povo já é iletrado e tem pouco interesse por livros, não são certamente os preços que agora (e desde já há muito tempo) se praticam que vão inverter essa tendência. Os livros estão caríssimos. A situação que apresentei é um mero exemplo. Mas podemos ir à Amazon e ver o que acontece lá fora: um romance anda entre os $10 e $20 – é sensivelmente o mesmo que por cá se pede. Mas nós ganhamos metade, ou um terço, ou talvez ainda um quarto do que se ganha em Inglaterra, em França, em Espanha, na Alemanha, nos EUA… São casos diferentes!
Senhores editores, a situação actual por vós praticada é quase incomportável para a cultura nacional, que, se bem me recordo, é o motor do vosso negócio. Portanto, salvo raras excepções, e além de outros, são vós os culpados da pouca leitura no país. E não me digam que não conseguem fazer mais barato, a Könemann consegue.
A minha política é não entrar em círculos de citações e referências, mas esta não consigo evitar:
Para quem pensava que não havia justiça no mundo:
“One American, One Spaniard Gored at Final Bull Run of San Fermin Festival (…) The American, identified as Robert Fluhr, 27, of Arkansas, was gored in the buttock”.
Agora só falta acontecer o mesmo a cerca de metade da população portuguesa.
Por Ralo. As melhoras aos dois, em especial ao Fluhr. É que é mesmo grave. Não estou a brincar.
Eu já conhecia o que era um blog há algum tempo. Talvez há um ano. A primeira vez que tomei contacto com estes seres foi através da página do Blogger e na altura resolvi espreitar alguns dos links das últimas actualizações para ficar a saber o que realmente era um blog. Lembro-me de na altura só ter visto sites de adolescentes americanas que se serviam de blogs para pôr à vista de todos, as mais variadas e insignificantes coisas que lhes tinham acontecido durante o dia. Achei inútil e além do mais piroso – é que realmente a maioria era.
Mais tarde vim novamente a tomar contacto com os blogs; desta feita tinha dado de caras com uma comunidade portuguesa, em círculo, que utilizava os blogs como grito público (no entanto privado!), exprimindo as coisas que muito bem entendiam. Pouco tempo depois saiu a reportagem na Visão e aí tomei verdadeira consciência da dimensão do fenómeno. Decidi também criar o meu blog, por dois motivos: o primeiro porque gosto de criar páginas de internet – acho que os novos meios tecnológicos são excelentes meios de expressão criativa; em segundo lugar, apesar de já ter o meu espaço de crónicas na 100ideias, queria um lugar privado (público!) para libertar os meus pensamentos. São variados, mas tentando que a temática seja a do espírito dos portugueses e a suas célebres (in)capacidades.
Mas como qualquer blogueador (ou bloguista? será blogueiro, ou ainda blogante?) iniciado, há ansiedades que nos assolam (se esta generalização estiver errada, digam-me): porque é que realmente estou a fazer isto? Interessa a alguém? Será que eu acho que isto interessa? Vou conseguir mantê-lo? E agora que o tenho, alguém vai lê-lo? Como é que o vou divulgar? Também vou tentar entrar na blogosfera? Vou entrar na roda que gira? Quero ser um bestseller? Vou ser um bestseller! Vou? Não sejas parvo!
Eu acho que vou tentar ficar por cá. Gosto disto.