27 de Abril de 2007

Anteontem o Presidente da República, no discurso do 25 de Abril, sugeriu na Assembleia da República que se repensasse as comemorações da Revolução. As reacções foram muitas, oscilando entre a concordância (mais à direita) por se achar que tal como estão, ninguém se interessa, e a indignação (mais à esquerda) por se achar que o Presidente quer minorar Abril.
Sem entrar em pormenores na análise do que o senhor Presidente disse (que infelizmente, hoje em dia, só se faz isso, pelas piores razões), acho que se confundiram duas coisas: a comemoração em si – o acto de se festejar, celebrar um acontecimento marcante e de importante simbologia – e a memória de Abril – com tudo o que representa: o antes, com o Estado Novo e o seu regime altamente repressivo e o depois, com o período revelocionário e o (in)cumprimento das promessas da Revolução. Comecemos pela segunda.
A crítica mais ouvida pelos de esquerda, fossem políticos ou meros cidadãos, foi a de que o Presidente pretende contribuir para o apagamento da Revolução. Eu sou insuspeito, porque não votei no Prof. Cavaco Silva e é pública a minha falta de admiração pela sua figura, mas penso que o objectivo das suas declarações não era esse, de maneira nenhuma. Mesmo que seja verdade, como muitos disseram, que o Presidente não se sente muito à vontade neste domínio.
De seguida, a segunda crítica mais ouvida, foi a de que os sucessivos governos não se esforçavam por fazer com que as crianças, nas escolas, fossem ensinadas do que foi o 25 de Abril. Francamente, vindo de quem defende que não se deve ensinar religião nas escolas, oficialmente, acho muito triste, em especial porque não ouvi rigorosamente ninguém dizer que os próprios pais é que deviam ser os primeiros a transmitir como se vivia no Estado Novo aos seus filhos. Muitos dos pais e avós de agora estão em posição priveligiada para contar como eram aqueles dias, pois são actores vivos da história, algo que é sempre raro. Em boa verdade não é só o 25 de Abril que é pouco lembrado nas escolas; é todo o século XX, já que a modernidade é sempre relegada para o fim dos programa, aquele que é dado à pressa, quando não é esquecido.
Fez-me muita impressão o descartar sistemático de responsabilidades de todos quanto ouvi para cima dos governos da República e isso sim, considero um verdadeiro atentado aos valores de Abril. E quantos não preferem ver as Floribellas, em vez de ver, p.e. os programas de António Barreto e saber que antes de `74 não era permitido namorar em público? Infelizmente cada vez mais os pais descartam responsabilidades na formação dos seus filhos, em especial a moral e de valores, já que ao contrário do que o que a maioria pensa, a educação vem sobretudo de casa e da relação com a comunidade. Da escola vem sobretudo a instrução.
Quanto ao outro tema que enunciei, o da comemoração em si, é sobretudo aí que concordo com o senhor Presidente da República. O problema não é tornar-se um ritual (e muitos distorceram esta parte) – lavar os dentes é um ritual; o problema é tornar-se chato. Claro que uma cerimónia protocolar na Assembleia da República é sempre chata para a maioria dos comuns. Mas a meu ver o problema não é de Abril. São todas as comemorações.
É simples, perguntem às pessoas, cada vez que há um feriado, o que ele representa. Será que alguém comemora o 10 de Junho com convicção? Ou a restauração da independência? O dia mundial da Paz (1 de Janeiro)? O dia do trabalhador? E os tantos feriados religiosos? Sim, o que há mais é jovens na rua a aplaudir a assumpção de Nossa Senhora. No fundo, no fundo, já poucos são os feriados que se celebram pelos motivos tradicionais, e mesmo aqueles que o são, são-no na sua versão materialista e pouco ou nada idealista.
Nós temos muito pouco jeito para as solenidades. Não temos rituais (não chatos) quase nenhuns. Já ninguém faz juramentos de bandeira, ninguém se levanta quando entra um professor, tira o chapéu dentro de casa, pede a benção ao avô, ninguém tem de saber o hino. Bolas, eu fiz uma licenciatura e não houve cerimónia nem na chegada, nem na partida, nem uma palavrinha, ou um discurso daqueles chatos do senhor Reitor! E as poucas cerimónias solenes que temos são quase que ridicularizadas, como no 10 de Junho.
Há tempos discutia com um amigo sobre a necessidade de alguma formalidade neste tipo de coisas. Não é que seja um burocrático da protocolaridade cerimonial, mas sou um defensor da distinção. E a solenidade é uma distinção e mesmo que seja ritual, quebra o ritual do dia-a-dia. O ser humano, diga-se o que se quiser, é um animal de hábitos e as solenidades são hábitos que marcam as nossas vidas. Já repararam que comemorar um aniversário não é nada mais, nada menos que celebrar o dia em que a Terra deu mais uma volta em torno do Sol, desde que nos deram à luz? Ridículo, não é? Até terá algo de pagão. Mas é muito importante para a grande maioria de nós – os outros lembram-se de nós, nós lembramo-nos de nós e paramos, ainda que um bocadinho, para pensar: que diacho, estou mais velho! Mas lembramo-nos, porque quem não se lembra esquece e sejam ou não estúpidas, as solenidades servem para isso mesmo: para lembrar, para marcar passo, para não esquecer. Por isso tornemo-las o mais agradável possível.

27 de Abril de 2007

  • perguntem às pessoas, cada vez que há um feriado, o que ele representa
    Gosto muito do 1 de Dezembro e celebro com pesar o 5 de Outubro.
    Bolas, eu fiz uma licenciatura e não houve cerimónia nem na chegada, nem na partida, nem uma palavrinha, ou um discurso daqueles chatos do senhor Reitor!
    Estavas em Física! O que é que tu querias? 99% dos coleguinhas querem lá saber dessas festividades inter-relacionais e de convivência sã… “vamos aprender a função zeta de Rieman” diziam uns, “vamos decorar as funções de partição” diziam outros! Trabalho trabalho e trabalho… :s
    Mas nunca o 25/4 me soube tão bem. Fui para a praia, andei de barco e apanhei sol. Por mim, 25 de Abril Sempre (principalmente dps do 24 de abril e à semana)!