23 de Julho de 2014

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O Mundial foi catastrófico para o Brasil. Não só perderam em casa, como nem sequer chegaram à final, sem nunca terem jogado um futebol inspirador. Foram humilhados pelos vencedores, a Alemanha, num jogo que acabou em 7–1. Deixaram o Ronaldo perder o recorde de melhor marcador dos Campeonatos do Mundo para Klose, um alemão (e Müller já com 10 golos, conta com 24 anos; se tiver a mesma sorte de Klose, pode ainda ir a dois mundiais). E pior de tudo, a Alemanha tem agora 4 títulos de campeã do mundo – um a menos que o Brasil. Quatro anos é muito tempo e ainda é cedo para apostar, mas tendo em conta o calibre da derrota brasileira, é possível que no mundial russo estejam os alemães mais próximos do penta do que os brasileiros do hexa. Se assim for, não sei quais são o Carmo e a Trindade lá do sítio, mas também devem cair.

Ronaldo em câmara lenta | New York Times

Para Portugal, a prestação na competição não foi muito mais honrada. Todos sabemos o que se passou. Que venha o próximo. Mas será que vamos ter problemas? Quando se discutem estes assuntos, há sempre a velha questão de não termos jogadores portugueses nas equipas portuguesas. Há dois aspectos a considerar: um deles é que quando os jogadores se dispersam pelo estrangeiro, tendem a ficar dispersos por várias equipas. O gráfico abaixo mostra, em cada Europeu e Mundial desde 1996, o número de jogadores contribuídos pelos dois (cores escuras) ou três (cores escuras + claras) clubes mais representados na selecção de Portugal (a verde) ou na selecção vencedora (a vermelho).

Número de jogadores contribuídos pelos 2 (cores escuras) ou 3 (cores escuras + claras) clubes mais representados na selecção de Portugal (a verde) ou na selecção vencedora (a vermelho) nos Europeus e Mundiais desde 1996.

Embora não seja necessariamente algo obrigatório (vide a França de 1998, ou o Brasil de 2002), a verdade é que nos últimos dez anos, as equipas vencedoras têm pelo menos metade dos 23 jogadores seleccionados a vir de 3 clubes diferentes, senão de apenas dois. A Espanha, no Mundial de há quatro anos, tinha 12 jogadores a vir do Barcelona e do Real Madrid, e mais 4 do Valência. Este ano a Alemanha tinha 7 jogadores do Bayern de Munique, 4 do Borussia Dortmund e 3 do Arsenal. Pelo contrário, na nossa selecção, o clube mais representado foi o Real Madrid, com 3 jogadores, e os 3 clubes que mais contribuíram fizeram-no com apenas 7 jogadores.

Este é, no entanto, um problema praticamente insolúvel: os nossos melhores jogadores serão sempre vendidos, tanto por razões financeiras, como por motivação de quererem jogar em ligas mais competitivas. Ainda assim, com a formação que tivemos, conseguíamos manter jogadores durante 2–3 épocas antes de partirem rumo a novas paragens. Conseguíamos fazer com que houvesse jogadores suficientes a serem lançados.

O outro aspecto a considerar é o de que de há uns anos para cá o número de portugueses a jogar nas equipas nacionais, sobretudo nos três grandes, é assustadoramente pequeno. Na época passada o Sporting tinha 9 portugueses, o Porto 5, e o Benfica 6 dos quais só metade tinha menos de 26 anos. A liga portuguesa, além de formar jogadores nacionais, também tem sido trampolim para muitos jogadores sul-americanos. Mas nos dias que correm o número de jogadores desta zona do mundo é muito grande. Só para termos uma ideia, no mundial que acabou, olhando só para os futebolistas centro- e sul-americanos que se estrearam na Europa em clubes portugueses havia 12 jogadores, de entre os quais o melhor marcador do torneio e 3 presentes na final, sendo que todos eles progrediram mais que a selecção portuguesa (James Rodriguez, Jackson Martinez, Hulk, Ramires, David Luiz, Fucile, Maxi Pereira, Angel Di Maria, Enzo Pérez, Ezequiel Garay, Diego Reyes, e Hector Herrera), não contando com outros como Falcao que se lesionou, ou ainda jogadores quer doutros países (Mangala, Nabil Ghilas, Islam Slimani), quer sul-americanos mas que não se estrearam em Portugal (Marcos Rojo, Juan Quintero).

Mais: a selecção portuguesa está velha. Dos 23 jogadores, só 3 tinham menos de 26 anos de idade (nenhum titular indiscutível e o Rafa nem saiu do banco de suplentes). Em comparação, a Alemanha tinha 14 jogadores com 25 ou menos.

É pouco provável que algum dia tenhamos uma liga suficiente atractiva para nos permitir reter muitos dos melhores jogadores no nosso país. Mas sempre tivemos capacidade de formar jogadores talentosos, sendo que parte dessa formação consiste em lançá-los no nosso campeonato, permitindo-os jogar competitivamente. Mas isso está a deixar de acontecer. Talvez essa seja uma necessidade para termos clubes capazes de lutar nas provas europeias, e é possível que simplesmente não haja talento suficiente em Portugal agora. Mas também é possível que seja uma opção financeira de maximizar lucros, indo buscar jogadores muito baratos em vez de os formar. Um Figo, um Rui Costa, ou um Cristiano Ronaldo, saindo, sempre voltam para, pelo menos, jogar na selecção, mas os Di Maria, Garay ou James Rodriguez já não regressam para nada. E uma coisa é certa, sem jogadores nacionais não há selecção.

23 de Julho de 2014   ·   Sem Comentários

12 de Julho de 2014

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Desde há dois anos que, perante o desfasamento entre o número de candidatos ao Ensino Superior e as vagas disponibilizadas, venho fazendo uma pequena análise (partes I e II) para perceber a capacidade de prever o número de estudantes no Ensino Superior através da natalidade.

O objectivo era perceber se desse modo se poderia dimensionar melhor a oferta de vagas (descrição na parte I). Fiz um modelo para prever o número de alunos que termina o ensino secundário a cada ano, mas concluí que esse parâmetro por si só não é suficiente. No entanto, a correlação com a nota do exame de Matemática A revelou-se bastante significativa, por motivos que não sei esclarecer:

Correlação entre as médias do Exame de Matemática A e o número de Candidatos ao Ensino Superior por aluno que acaba o 12º ano.
Correlação entre as médias do Exame de Matemática A e o número de Candidatos ao Ensino Superior por aluno que acaba o 12º ano.

Este ano, já foram reveladas a média do exame de Matemática A (7,8 valores, na primeira fase) e o número de vagas, segundo o ministro da Educação, não vai aumentar. Utilizando o modelo e, este ano, antes do número de ser candidatos ser revelado, faço aqui a minha previsão:

Vagas 2014.
Rácio entre vagas ou candidatos e número de alunos que terminam o 12º ano, segundo o meu modelo. Comparação com as médias da prova de matemática A. As cores de fundo representam “eras” de diferentes graus de dificuldade no exame nacional. A zona a cinzento representa o intervalo de confiança a 99% da previsão do número de candidatos.

No ano passado, o modelo previu um número de 40,025 candidatos ([37.488;42.576], intervalo de confiança a 99% ), sendo que valor divulgado foi de 40.419. Este ano prevê 39.976, num intervalo de confiança de 37.431 a 42.510. Prevê ainda que o diferencial entre o número de vagas e os candidatos se manterá elevado: se a correlação e a capacidade de previsão do número de alunos se mantiver, haverá cerca de 11.485 vagas por preencher (usando o intervalo de confiança deverão ser entre 8.951 a 14.030 vagas não ocupadas).

ACTUALIZAÇÃO: Por erro, na versão inicial desta entrada, tinha usado o valor de 7,5 valores para a média do exame de Matemática A, quando o valor é de 7,8. O gráfico e restantes valores foram actualizados.

12 de Julho de 2014   ·   4 Comentários

Plainfield, Massachusetts
O vôo do pirilampo | Plainfield, Massachusetts

8 de Julho de 2014   ·   Sem Comentários   ·   in English

2 de Julho de 2014

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Na universidade não há vida. As portas fecham-se. Os centros de investigação não funcionam. O pós-doutoramento é uma ficção útil para que quem manda não tenha de se preocupar com o desemprego de umas quantas pessoas que existem saltando de tese em tese.
Paulo Rodrigues Ferreira, Vida de Bolseiro

Esta citação é a chamada de uma coluna de opinião no P3, por Paulo Rodrigues Ferreira, 29 anos, bolseiro de doutoramento e co-proprietário da Fyodor Books. Como antigo aluno de doutoramento e bolseiro, e estando ainda inserido na vida académica fiquei curioso, mas logo de seguida veio a desilusão. O texto é uma amálgama de coisas que não se percebem bem e acaba por fazer mais por manter a confusão do que clarificar e explicar os problemas aos leitores.

O bom

Eu fiz o meu curso em Portugal e o doutoramento nos Estados Unidos. Também fui bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) durante parte do meu doutoramento, que durou mais de quatro anos. A minha exposição à investigação científica em Portugal é, por isso, limitada, já que a maioria da minha experiência foi fora de Portugal. Ainda assim mantenho-me ao corrente do que se passa: conheço muita gente na academia em Portugal, sobretudo nas áreas das ciências naturais.

O que se passou em Portugal em termos de política de Ciência e Investigação pode ser, de forma simplista, resumido da seguinte forma: desde meados dos anos noventa houve um grande crescimento no número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. Sob a alçada de Mariano Gago, o número de bolsas cresceu exponencialmente. Entre outras coisas, o número de grupos de investigação cresceu e o número de publicações – um dos indicadores usados para medir a quantidade e qualidade da produção científica – aumentou de forma substancial. Portugal está longe de ser uma potência no panorama científico mundial, mas os avanços foram verdadeiramente significativos.

Com a crise chegaram os cortes. Há menos bolsas na sua totalidade, o financiamento para a Ciência e Tecnologia, e para o Ensino Superior em geral desceu. Há limitações nas contratações, burocracias e ineficiências administrativas que são um empecilho ao funcionamento do sistema, e a tudo isto se junta o decrescente número de alunos fruto de um país que envelhece cada vez mais depressa. Novos problemas acrescidos do agravamento de falhas antigas fazem com que o mundo académico viva momentos difíceis e desanimadores.

Por tudo isto há motivos para frustração e irritabilidade. Há uma ausência de perspectivas de futuro, muitas incertezas e falta de recursos. Em suma, a frágil academia portuguesa, sofre momentos que tornam vida académica uma experiência amputada e disfuncional. Este não seria o primeiro relato que me chega aos ouvidos de desânimo e irritação. São temas que merecem a pena ser noticiados e descritos. Problemas que urge debater e resolver, mas problemas que não são únicos num momento de crise económica e financeira.

Em particular, vejamos algo que afecta a vida de um bolseiro de doutoramento, que escolhe fazer a sua formação em Portugal: o seu salário. Uma vez aceite a candidatura, um bolseiro tem praticamente garantido uma bolsa mensal de €980 durante quatro anos, acrescida do valor do seguro social voluntário. Não tem subsídios de férias, direito a subsídio de desemprego, mas também não paga impostos. Um bolseiro é, isso mesmo, um bolseiro, não um empregado.

O valor das bolsas é essencialmente o mesmo há mais de quinze anos. Tendo em conta a inflação, a verdade é que a vida de bolseiro tem sido cada vez mais pobre. Para manter o poder de compra, os bolseiros de hoje deveriam receber entre €250-€300 por mês a mais.

Ano Bolsas de
 Doutoramento
Financiamento Salário Salário
Ajustado
1995 582 € 4.465.015 € 639 € 1.423
2000 1358 € 15.185.342 € 932 € 1.267
2005 2063 € 25.405.899 € 1.026 € 1.194
2010 5387 € 64.071.020 € 991 € 1.058
2013 4799 € 56.694.315 € 984 € 984

Tabela 1 – Salários nominais de um bolseiro de doutoramento e actualização devido à inflação. [1]

Este é um problema relevante, mas confesso que não sei exactamente se o Paulo concorda comigo porque a partir do primeiro parágrafo, o texto é uma amálgama imperceptível.

O mau

Pena que acabe. Pena que a minha bolsa acabe para o ano. Se entretanto não encontrar emprego, não terei direito a subsídio de desemprego. A única hipótese do ex-bolseiro de doutoramento é ganhar uma bolsa de pós-doutoramento, e depois disso entrar na meia-idade cravejado de artigos científicos no currículo, com pelo menos três dioptrias de miopia em cada olho e com o futuro assassinado pela ilusão de que a universidade o ampararia quando o resto falhasse.

Sim, é pena que acabe. Eu também tenho pena que a minha adolescência tenha acabado. Tenho pena de não poder ter os meus pais a sustentar-me e a alimentar-me, enquanto eu vou à escola e gozo a minha juventude. Sim, após o doutoramento não há direito a subsidio de desemprego, mas esta não é uma situação distinta da que encontram a grande maioria dos doutorandos mundo fora. É melhor na Escandinávia? É pois, mas que serviço do Estado não o é? E já agora, quão mais produzem, quão mais pagam de impostos e quão menos fogem aos impostos os cidadãos desses países?

Outro dos grandes problemas é a questão da empregabilidade. O emprego é difícil de encontrar? Certamente: a taxa de desemprego é elevada e o tecido empresarial nacional não absorve muitos doutorados. E se em relação a este último aspecto a academia não está isenta de culpas, a verdade é que este é um problema nacional. Se o doutorado tem hipótese de seguir para um pós-doutoramento, possivelmente tem mais hipóteses do que muitos dos seus compatriotas. Mas está longe de ser a «única hipótese». É no final do parágrafo, no entanto, que o Paulo começa a revelar um dos problemas do raciocínio que muitos fazem, o de um dia ter a «ilusão de que a universidade o ampararia quando o resto falhasse». Esta é, sem dúvida, uma ideia confortável: depois do Estado nos ter pago a educação, sustentado (precariamente, é certo, mas com o suficiente para nos alimentarmos e alojarmos, e até mesmo um bocadinho mais) durante um doutoramento, deveria, pois claro, amparar-nos o resto da vida.

O péssimo

Se for esperto, o bolseiro aproveita o tempo para escrever, para ler, para ver filmes, para namorar e, claro, para redigir a sua prestimosa tese (…). O problema é não viver, não saber mais do que aquilo que se escreve numa maldita dissertação, não ter visto um filme, não ter ido a um festival de música, não ter aproveitado para namorar, para respirar o ar da cidade.

Ora aqui está parte do péssimo contido nesta coluna de opinião. Antes o Paulo já havia dito que o bolseiro que não é esperto ultra-especializa-se e depois vai à sua vidinha, «cravejado de artigos científicos no currículo». Eu não sei exactamente o que é que o Paulo pensa acerca do que é fazer-se um doutoramento e qual é o seu objectivo. Um doutoramento é um contributo para o avanço do corpo de conhecimento da humanidade. Alguns doutoramentos, produzidos por seres excepcionais, são verdadeiramente marcantes e revolucionários. Mas como quase tudo na História a grande maioria são minúsculo contributos infinitesimais, isto sem falar naqueles que são maus e para descartar. Um académico é por definição um especialista. Ponto final.

Ora, quase todos concordaremos que um ser humano completo necessita de mais coisas na sua vida para além do seu conhecimento especializado. Um ser humano completo é um ser social, estabelece relações, cultiva-se, faz desporto, respira o ar da cidade (e do campo!), em suma deve viver. O Paulo diz que este é um dos problemas do bolseiro: não faz nada disto.

Não sei quem são os bolseiros que o Paulo conhece. Eu tive a oportunidade de fazer tudo isto: de namorar, de ouvir música, de ir a concertos e a teatros, de conhecer gente de todo o mundo, até de viajar, mesmo com um orientador que teima em não mandar alunos a conferências. Serei um privilegiado? Talvez. Mas a grande maioria dos bolseiros que conheço, nacionais ou estrangeiros, acabam por ter privilégios semelhantes aos meus. Alguns terão uma vida menos eclética, é certo, mas garanto-vos que é por opção própria (ou um orientador especialmente desagradável).

Não sei quem são os bolseiros que o Paulo conhece. E, deste texto, não consigo perceber qual é o motivo que os torna assim. O próprio Paulo é co-proprietário duma livraria, actividade essa que, imagino, está além do seu plano de estudos. Claramente tem tempo para sair abrir horizontes, e acho muito bem que assim o faça. No entanto, continuo sem perceber o que é que faz dos bolseiros bisonhos ignorantes. Será pela tal super especialização da academia? Mas não é essa a definição de um especialista académico? É um problema localizado e nacional ou é um mal mundial? Será por causa do famigerado problema que parece assolar o país: a falta de dinheiro? Não sei… mas investiguemos este aspecto.

País Ano Salário Diferença
custo de vida
Diferença
salário
Comparação c/
salário mediano
Bélgica 2014 1800-2000 56% 94% 5%
Canadá 2014 1412 46% 44% -40%
Dinamarca 2012 2370 82% 142% 7%
França  2010 1685-2020* 87% 89% 8%
Alemanha  2014 1000-1600 23% 33% -27%
Irlanda  2014 1400 67% 43% -15%
Itália  2014 1000-1250 56% 15% -16%
Holanda  2014 2500 58% 155% 46%
Noruega 2005 3203* 114% 227% -4%
Polónia  2014 550 -14% -44% -21%
Portugal 2014 980 - - 41%
Espanha  2014 1147-1250 24% 22% 20%
Suécia  2006 2365* 30% 89% 15%
Reino Unido  2011 1373-1871* 61% 89% -37%
EUA  2014 1500-1600 71% 79% -8%

Tabela 2 – Valores aproximados de salários nominais de um bolseiros de doutoramentos em vários países, comparação desses salários com os valores portugueses e diferenças de custo de vida. Ainda a comparação do valor da bolsa com o salário mediano local.[2]

Consultando a Tabela 2 é manifesta a diferença de rendimentos auferidos pelos doutorandos nos diferentes países. Mais uma vez, na Escandinávia, assim como na Holanda, ou na Bélgica, um doutorando vive melhor. Mas se atentarmos a outros locais, como nos Estados Unidos, na França, na Itália, na Polónia ou mesmo na Alemanha, o poder de compra de um aluno de doutoramento é comparável, se não pior do que em Portugal. Assim sendo, e tendo em conta o estado económico-financeiro do país, será que nos podemos queixar muito?

Mais uma vez, o Paulo não explicou qual é o problema da vida do bolseiro que não pode namorar ou ler. Talvez não seja o dinheiro.

O problema do bolseiro é o hiato entre a licenciatura e o fim do doutoramento ou do pós-doutoramento. O hiato entre os vinte e um ou vinte e dois e os quarenta anos. São muitos anos morto.

Ou seja, o problema do bolseiro é ser bolseiro: fazer aquilo que um bolseiro é suposto fazer. Não percebi se isto é uma crítica ao sistema académico que vigora no mundo actual, se um reparo ao mal que vive um bolseiro em Portugal. É certo que ninguém gosta de estar morto.

O sistema académico, de investigação científica e universitário português está debilitado e com muitos problemas, como já referi. Veja-se o caso recente do decréscimo no número de bolsas avançadas, ou ainda mais recente caso do corte do financiamento a centros de investigação mal classificados. Mas mais uma vez afirmo: vez não percebo o que faz do Paulo um morto.

No seu blog diz-se «licenciado, mestre e a tirar um doutoramento em História, disciplina que odeia e sempre odiará, na Faculdade de Letras de Lisboa, instituição que abomina tanto, mas tanto que quase vomita quando lá mete os pé». Que eu saiba, ninguém é obrigado a fazer um doutoramento. E se é sapo que tem de engolir para poder vir a ser professor, então não poderia ter escolhido uma disciplina que não odiasse, numa instituição que não abominasse? É uma maçada quase vomitar todos os dias! Mas pior ainda é caminhar deliberadamente para a sua morte, mesmo que temporária. Para alguém que se propõe ser bolseiro de investigação, não deixa de ser uma desilusão que não tenha conseguido investigar um bocadinho aquilo que seria a sua vida (ou morte) como bolseiro. Pior ainda é continuar a insistir estar morto quando se apercebeu do facto. E contribuir com mais ruído numa realidade conturbada.


  1. Os valores mensais foram calculados dividindo o valor do financiamento da FCT pelo número de bolsas (Dados FCT), embora nominalmente o salário se tenha mantido nos €980, desde 2000. Para correcção da inflacção foram usados os dados da Pordata (Inflação Total Geral).

  2. Estes valores foram recolhidos de forma pouco científica de diversos sites, sobretudo o Find a Phd e o agregador de salários Glassdoor. Não pretende ser uma recolha exaustiva ou rigorosa, mas apenas uma perspectiva aproximada das diferenças entre salários nos diversos países.

    A diferença do custo de vida foi determinada usando o índice de preços de consumo incluindo renda, entre Lisboa e a capital de cada país, excepto na Suécia (Uppsala), Reino Unido (Cambridge) e Estados Unidos (Boston). Os dados são do site Numbeo.

    Os salários medianos são essencialmente os referidos neste artigo da wikipedia, RU, EUA. Nem sempre foi possível obter relativos ao mesmo ano e antes/depois de impostos. Assim sendo, os valores são meramente indicativos.

    *Valores antes de impostos

2 de Julho de 2014   ·   2 Comentários

9 de Maio de 2014

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O Público fez uma interessante recolha de testemunhos sobre a praxe universitária. A experiência da praxe varia de pessoa para pessoa, de lugar para lugar. Umas são mais suaves, outras mais rígidas; há quem goste e quem não goste. Eu não gosto.

Antes de mais devo dizer que reconheço a importância dos rituais – marcam a cadência da vida. Todas as organizações têm rituais iniciáticos, é algo que faz parte da natureza humana. Quando fiz a minha licenciatura no Técnico fiquei surpreendido e indignado por não haver rituais oficiais de início e de fim de curso. No dia em que acabei o curso, apesar de ninguém ter verbalizado as palavras, a sensação que ficou foi dum “obrigado, agora deixe de cá aparecer”. Tendo depois me doutorado numa universidade americana, vi a força dum ritual de fim de curso – ou início de vida, já que se chama commencement. Os rituais marcam entradas e saídas, marcam presenças e pertenças. Os rituais fazem vir ao de cima uma sensação de sermos parte dum colectivo. Reconheço que em Portugal temos uma certa aversão a algum tipo de rituais. Pessoalmente não sou contra rituais. Mas sou contra a praxe.

A praxe é um ritual diferente: nas descrições dos que afirmam mais ter gostado da praxe, esta é tida como uma actividade que dura todo o ano lectivo e que se estende ao longo da duração do curso. No entanto, mesmo naquelas em que a “tradição” não é tão forte, há um elemento primordial sempre permanente: a força da hierarquia.

As análises dos especialistas que o Público consultou são interessantes. Aborda-se a natureza humana, a identificação e cópia duma sociedade idealizada, posterior à vida de estudante, e o teor erótico e sexual da motivação dos que participam na praxe. Não vou repetir argumentos, vou essencialmente discutir a questão da hierarquia e da noção latente de poder.

O conceito mais fundamental e indispensável à praxe é o da hierarquia: a submissão dos praxados, a superioridade dos praxantes. Embora os submissos possam sempre dizer “não” à praxe, os que verdadeiramente participam sujeitam-se à hierarquia. A marca dessa hierarquia é a capacidade de exercer poder sobre os destinos dos submissos. Jogos psicológicos e actividades físicas, gritos e ofensas verbais e actividades de confraternização – resumindo, penso, cabe tudo numa destas categorias.

«A praxe envolve humilhação, envolve gritos, envolve estar de 4». [1] «Cantei, andei de autocarro cheia de farinha e no final do dia estava sempre de sorriso nos lábios. Não houve um momento de humilhação, eu sei, estava atenta (…).» [2] «Nunca, no decorrer das praxes, me senti humilhado nem inferiorizado, isto porque apesar de estar a ser praxado, nunca recebi uma praxe que tal permitisse. Não se enganem, pois as praxes aqui são duras. Nunca me irei esquecer das directas consecutivas, da constante voz rouca, do cheiro contínuo a peixe, nem dos alhos e cebolas incontáveis que tive de comer, ou ainda dos joelhos esfolados, resultado de horas intermináveis de joelhos.» [3] Há quem diga que nenhum destes actos constitui humilhação ou ofensa – é certo que, em certa medida, aquilo que é humilhação ou ofensa é subjectivo e cada um submete-se ao que bem entender. Mas aos olhos da maioria da sociedade, rastejar porque alguém nos ordena (ou pede) não deixa de ser humilhação.

A praxe é, em teoria, opcional. Não vou falar da pressão dos pares e já mencionei o “não” que todos podem supostamente declarar. Mas é indiscutível que aqueles que se dizem “sim” se submetem à hierarquia. Os submissos são imediatamente tratados como “bestas”; pode ser que seja carinhoso, mas não deixa de ser um facto de que são considerados – de forma teatral ou não – como inferiores. Os submissos têm de acatar essas designações, bem como as ordens que lhes são dadas: o questionar existe apenas se se considerar que as regras da praxe estão a ser violadas.

Nos testemunhos há um número de pessoas que justificam isto como um mimetismo daquilo que os espera no futuro. Por exemplo, «(…) a praxe ensina-nos isto, ensina-nos que na vida há uma hierarquia natural e que nós vamos ter de aceitá-la, ensina-nos a respeitar essa hierarquia.» [1] Sim, mas… «O estatuto de caloiro tem como função explicar-lhes que quando forem trabalhar para uma empresa vão estar no patamar mais baixo de uma pirâmide hierárquica. Pior ainda: não terão ninguém que os ajude a adaptarem-se a essa realidade.» [4] «(…) um dia, num futuro emprego, o meu patrão poderá chamar-me de incompetente e eu terei de saber aceitá-lo (…)» [1].

Obviamente que todos nós vivemos em sociedade em que estamos inseridos em estruturas hierárquicas. Não, não temos que acatar, amorfos, as ordens e os insultos duma hierarquia insultuosa e desrespeitosa. Há qualquer coisa de espírito militar nestes testemunhos. Infelizmente, a visão que estes alunos têm do mundo é profundamente triste e inviesada, possivelmente causadora de danos irreparáveis. Se, como afirma um dos testemunhos, eles copiam o mal feito pelos “mais velhos”, então mais triste fico pelo facto de se conformarem em ser elementos que apenas perpetuam o mal-estar.

Nos testemunhos perpassa um espírito de amor à regra e à burocracia. É um amor próprio do funcionário-empecilho, daquele que se agarra às regras não como elementos estruturantes de uma comunidade, mas como a fonte de autoridade e legitimidade (vejam os relatórios que o conselho da praxe da Lusófona produzia!). «É por isso que existe um pequeno livrinho chamado “Código de Praxe”. No nosso mundo académico, temos normas específicas para regulamentar» [5]. «Há um controlo apertado no que toca a relacionamentos amorosos entre doutores e caloiros. Não é permitido esse tipo de relacionamento. “A praxe não é para o engate!” O que não invalida que haja pessoas que já namorem e que informem os responsáveis pela praxe para esse facto (ex: um casal de namorados do 12.º ano; ele entra na faculdade e ela reprova o 12.º. Ela, no ano seguinte, entra na mesma faculdade do namorado, que está agora no 2.º ano. O casal deve avisar a comissão de praxe para esse facto).» [4]

Também este sentimento se enquadra no espírito militar que já referi. As regras e a autoridade, a hierarquia e o poder incontestado. Todos já ouvimos historias, vimos filmes ou lemos livros que contam a brutalidade da organização militar, onde estes elementos estão todos presentes. «SOMOS um só, nós e os nossos doutores.» [6] Este é um dos elementos mais marcantes da pertença às forças armadas: a camaradagem. E é tanto maior quanto maior as privações passadas em conjunto. O elemento opressivo das praxes replica esta situação: os submissos passam por situações duras e difíceis em conjunto, momentos de extremo cansaço, vergonha e intimidação, tudo sob uma tensão opressiva que é aliviada de forma abrupta no final do ano. É o fim da guerra e eles sobreviveram.

A sensação é tão forte — quase todos nós já sentimos algo semelhante em diferentes contextos — que leva a que os que a sentiram mais intensamente queiram perpetuar e transmiti-la aos vindouros. Nem todos têm ânsia de poder, nem todos querem dominar; muitos querem apenas partilhar essa intensidade que viveram. Descrevem-na como camaradagem, amizade, integração, orgulho, etc. Há sempre aqueles que se entregam de corpo e alma, os que descobriram algo novo e que acabam por ser funcionários instrumentais da hierarquia: «No fim de tudo, eu que nem achava grande piada às praxes, fui caloira do ano.» [2]; «Fui eleita caloira do ano, para meu espanto. (…) Um dia trajei. Ai, que dia. Que saudades! O dia em que mais chorei, em que vivi tanta mas tanta emoção e que estava orgulhosa daquilo que tinha vestido. Traje para o qual tanto me esforcei. Senti-me completa.» [7]

Se os há heróicos, também há exemplo de militares abjectos e mesquinhos que se apropriam destes elementos para exercer o seu poder. São os mesmo que fazem a apologia do orgulho bacoco e exigem a dedicação inquestionável. No entanto no mundo militar preparam-se soldados para a guerra, para a morte pelos valores da pátria. Querer equiparar isso com o espírito académico é simplesmente ridículo.

«Sou grande animal, na mui nobre academia de Vila Real, UTAD.» [6] Desculpe? Grande animal? Não quero desrespeitar os que dão o seu melhor na UTAD, mas de que é que se orgulha esta estudante? Claro que todos devemos sentir orgulho das instituições a que pertencemos, onde aprendemos e crescemos, e que têm um papel importante na nossa formação. Mas que o seja pelas razões certas. Mais uma vez a Bia Miranda: «Encarem a praxe como deve ser encarada — uma tradição cultural que existe há tanto tempo no nosso país. Como pode ser assim tão “má”, existindo há tanto tempo e com tanta gente a orgulhar-se de nela se ter envolvido?!» Ui.

Como um soldado que vai à guerra, rejeitam que os outros, os civis, possam sequer conceber aquilo porque passaram: «Muitas dessas pessoas que estão a criticar forte e feio nunca foram a uma praxe na vida, nunca tiveram uma única experiência para poderem comentar sobre ela.» [5] «Só pode falar de praxe, só pode saber o que é a praxe QUEM foi praxado e quem praxou!» [4]. Se é certo que não terei as mesmas vivências, isso não me impede de poder discutir o assunto. É um argumento falacioso, esse do apelo à experiência. Posso falar sobre violações sem ter sido vítima de agressão sexual, posso falar de prostituição sem ter sido prostituto.

Há rituais de iniciação brilhantes, aqui ficam dois exemplos, um em português, outro em inglês. Mas da praxe académica, raramente vi exemplos que me interessassem. «Apenas consegui ver colegas meus a (…) ser submetidos a questões do tipo (…) “mostra-me o teu sexo” e “faz-me um broche”. Isto, para a grande maioria das pessoas, seria uma ofensa extrema e razões mais que suficientes para aniquilar a praxe.(…) A resposta às questões não têm nem teor sexual nem ofensivo. Só como exemplo, a resposta ao pedido de fazer um broche é pegar numa colher de café, que nos é dada, torcê-la e colocar no casaco do veterano tal como o acessório de vestuário, broche. (…).» [8]. Brilhante e hilariante! E claro, não só educativo e de bom gosto, como certamente instrutivo para a vida futura de um estudante.

Ao contrário do que muitos querem fazer passar, as universidade têm toda a culpa nos excessos. Elas são responsáveis pelos seus alunos e pela criação de um ambiente seguro e construtivo que promova a educação. E dizer que «todos os dias morrem pessoas nas estradas e não vamos proibir alguém de andar na estrada»[9] é simplesmente absurdo. Especialmente inadmissível tratando-se de um reitor.

Eu não duvido que das praxes saiam sentimentos únicos e intensos como já acima referi. Não duvido que uns façam amigos para a vida e que alguns até tirem proveito de conselhos, académicos ou de vida, que saem da confraternização proporcionada pelas praxes. Mas não consigo admitir que alguém queira aceder a isso sujeitando-se à submissão e ao insulto, à pertença a hierarquias que podem degenerar em “old boy networks”. Antes a recruta, sempre se pratica tiro ao alvo! Citando a Nídia Sobral, «acho que escrevi de mais (sic)». [5]

9 de Maio de 2014   ·   Sem Comentários

5 de Dezembro de 2013

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O arando-vermelho – que nunca tinha provado antes de vir aos EUA, e que aqui se chama cranberry – é uma baga ácida, não muito agradável de se comer sem ser em compotas ou outros doces. No entanto, o processo de cultivo e colheita é interessante.

Colheita de arandos
Cranberry bog

As bagas são geradas por uns arbustos – tecnicamente são caméfitos – rasteiros e pouco rígidos, pelo que a apanha, quando não manual, é com umas máquinas com uns pentes que abanam as plantas até o fruto cair e depois as apanham. O processo é moroso e requer que o solo esteja bastante horizontal e pouco acidentado, para evitar que o pente esteja muito alto ou desenraíze as plantas. Um outro método recorre à criação de pauis artificiais em que se plantam os arbustos. Cada paul é inundado na altura da colheita e são utilizadas alfaias agrícolas, novamente com pentes, que agitam os arbustos e arrancam as bagas. Estas, menos densas que a água, flutuam. Assim tornam-se mais fáceis de recolher.

A colheita dos arandos
A colheita do arando-vermelho

Como as bagas são muitas, o paul recobre-se dum manto vermelho vivo e as cores geradas criam um efeito verdadeiramente belo.

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Recolhendo as bagas

5 de Dezembro de 2013   ·   2 Comentários

28 de Novembro de 2013

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O Ciência Hoje fechou. Numa altura em que já nem os jornais nacionais têm secções exclusivamente dedicadas à ciência, o Ciência Hoje era responsável, desde há anos, por um importante trabalho de divulgação de Ciência, não descurando a produção nacional.

A Ciência é fundamental para o desenvolvimento das sociedades. Nós portugueses temos disso exemplo caríssimo na transformativa expansão marítima de há séculos. E agora, numa sociedade cada vez mais complexa, a Ciência é fundamental para solucionarmos muitos dos problemas que enfrentamos. Sendo que há muitos aspectos a ter em conta na promoção duma sociedade conhecedora, é inegável que a divulgação e difusão pública do conhecimento da Ciência é um factor fundamental e imprescindível.

Quando ouvi as novas do fim do Ciência Hoje, fiquei espantado pelo baixo valor do orçamento que necessita para sobreviver. O Ciência Hoje vivia ultimamente sobretudo de dotações estatais que, no contexto actual, acabaram. Por isso precisa da nossa ajuda para poder continuar.

Nos dias que correm temos solicitações de toda a parte e, claro, não podemos acorrer a todas. Mas se há projectos que consideramos fundamentais e se temos capacidade, devemos contribuir. A minha contribuição é magra, mas ajudei a criar uma campanha de angariação de fundos. Em Portugal, não há grande tradição deste tipo de financiamento, mas há casos que merecem a intervenção da sociedade civil. Se puderem ajudar, contribuam aqui. Obrigado pela ajuda e por toda a divulgação que possam fazer.

28 de Novembro de 2013   ·   Sem Comentários

Fall/Boston | Outono no Public Garden, Boston.

23 de Outubro de 2013   ·   Sem Comentários   ·   in English

8 de Outubro de 2013

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Vou recorrer a Shakespeare:

You common cry of curs! whose breath I hate
As reek o’ the rotten fens, whose loves I prize
As the dead carcasses of unburied men
That do corrupt my air, I banish you;
And here remain with your uncertainty!
Let every feeble rumour shake your hearts!
Your enemies, with nodding of their plumes,
Fan you into despair! Have the power still
To banish your defenders; till at length
Your ignorance, which finds not till it feels,
Making not reservation of yourselves,
Still your own foes, deliver you as most
Abated captives to some nation
That won you without blows! Despising,
For you, the city, thus I turn my back:
There is a world elsewhere.

The Tragedy of Coriolanus

8 de Outubro de 2013   ·   Sem Comentários

27 de Setembro de 2013   ·   Sem Comentários   ·   in English