27 de Abril de 2016

Está no Observador, desde dia 24, um artigo de Rafael Marques de Morais, intitulado Os afectos entre Portugal e Angola e o racismo encapotado. Nele, Rafael Marques defende que:

Há uma cumplicidade atroz entre os governantes portugueses e a sua elite de negócios no apoio à pilhagem de Angola pelo MPLA, Eduardo dos Santos, a sua família e o sistema de repressão que os sustenta.

O que se segue é uma óbvia e clara descrição do que se passa com a relação entre Portugal e Angola, nomeadamente ao nível da cúpula política e económica. À parte do título do artigo, Marques não mais menciona, usando essa mesma expressão, o racismo encapotado dos portugueses, mas não deixa de apontar situações e atitudes degradantes que se condensam, relativamente às relações dos dois Estados, nas palavras do próprio, da seguinte forma:

Disponibiliza-se todo o afecto necessário para o dinheiro e para os recursos angolanos, e nenhum afecto para o povo. Buscam-se todas as justificações para defender o sofrimento dos angolanos como algo natural, decorrente da guerra, do seu estado “africano”.

Qualquer um que leia o artigo, ou que esteja minimamente a par da realidade, vê como há muita condescendência por parte de alguns de nós, e muito cinismo numa real politik que beneficia demasiados interesses pessoais para ser, de facto, uma politik. E, obviamente, a breve descrição que faz da colonização, com a escravatura que mais tarde se transforma em servidão, não traz nada de novo.

O que é, para mim, novo, é o raivoso rol de comentários que se segue. Em geral, as caixas de comentários de jornais online não são os locais mais higiénicos para se deambular, mas o que lá está escrito faz com que seja totalmente desnecessário o artigo de Rafael Marques: bastava o título, o resto brota com facilidade.

27 de Abril de 2016

15 de Abril de 2016

Francamente, acho que o Bloco de Esquerda peca por não ir até onde deveria ir. Dever esse que é de todos os supremos defensores do politicamente correcto asséptico, como se quer nos dias de hoje. Pessoalmente acho que se trata de um caso de “revolucionarismo reprimido”, mas agora não estamos aqui para falar dos humores psico-emocionais latentes do Bloco.

O facto é que, lendo o Projecto de Resolução nº247/XIII/1ª, constatamos a notória falta de empenho do Bloco (e a incapacidade de não dar erros ortográficos ou escrever sem gralhas abismais). Várias vezes aludem ao Conselho de Ministros, numa clara e negligente falta de consideração pelas ministras Maria Manuel Leitão Marques, Constança Urbano de Sousa, Francisca Van Dunem e Ana Paula Vitorino.

No entanto, o mais grave é a falha de consistência ideológica latente, que demonstra a falta de coluna vertebral para defender o que realmente interessa. Não é óbvio que para a efectiva «eliminação do sexismo na linguagem e a promoção de uma linguagem que reflita o princípio da igualdade de género» o problema está efectivamente no sexo e no género? Uma linguagem nunca deixará de ser sexista sem abolir a referência ao género. No fundo o género em si mesmo «não respeita a identidade de género». Só se pode garantir a independência da identidade de género abolindo o género! Já demonstrámos, sem margem para dúvidas, que não é o órgão sexual que define o género, como se passou até agora, nessa obscura idade média vivida desde os primórdios da humanidade até ao dia em que o BE entrou na Assembleia da República. O género é produto da complexidade do ser e como tal não pode ser espartilhado em compartimentos ideológico-refractários! O género ou é um contínuo de valores, ou tem de deixar de existir!

Para tal proponho a seguinte solução: acabemos com o género na linguagem! Assim sendo:

  • os artigos definidos “a” e “o”, “as” e “os” desaparecem dando lugar a “ê” e “ês”;
  • os artigos indefinidos “um” e “uma”, “uns” e “umas”, desaparecem dando lugar a “ên” e “êns”;
  • os substantivos, adjectivos e pronomes impregnados de género devem ser purgados das suas terminações discriminatórias que serão substituídas por “e” ou “es”. Por exemplo:
    • “carro” passa a “carre”
    • “outros” passa a “outres”
    • “num” passa a “nên”

Aqui ficam alguêns exemples dê nove linguagem revolucionárie:

  • Ê Marie e ê Manuele foram comprar rebuçades e outres guloseimes a ên café lá dê bairre.
  • Ê Conselhe de Ministres deliberou ên projecte de resolução em que se delibera ên nove regime contributive para ês contribuintes que dêem êm donative para ês selecções nacionais de futebol e pole aquátique.

Sugere-se que ê nove lei seja apresentade aês portugueses peles embaixadores Pedre Paulete e Jorge Jesus.
Saudações revoluvionáries.

15 de Abril de 2016

3 de Outubro de 2015

As sondagens parecem claras: a maioria dos portugueses não gosta e não quer os actuais governantes. E no entanto o governo vai, muito provavelmente manter-se. A culpa, essa pode ser repartida, começando pelo facto de a oposição não ter a mínima capacidade de diálogo para criar uma alternativa que efectivamente reúna o descontentamento. Fazer política é isso mesmo: gerir.

Mas se no Domingo António Costa e o PS não ganharem, ficará à vista de todos a inépcia política destes, mas – pior – vislumbrar-se-á a incapacidade de perceberem o país.

António Costa foi propalado como génio da política (por exemplo, no Contraditório da Antena 1, às sextas-feiras, Raúl Vaz todas as semanas diz que António Costa é o mais competente político português, mesmo sendo da área política oposta – ou terá sido estratégia psicológica?), mas desde o primeiro ataque à liderança do PS que se tem vindo a revelar uma nódoa. Costa foi de faca ao largo do Rato e voltou de lá assobiar, corado, como menino mal comportado. Na política, sabemos, há facadas a toda a hora, mas se é para fazê-lo, que se faça com determinação e manifestando capacidade de liderança. Costa só voltou à carga quando Seguro estava prostrado no chão, mexendo-se pouco, já morto aos olhos de quase todos. E o aparelho depois recompensou o novo líder com uns soviéticos 96% dos votos o que só mostra que os aparelhos também não são nada do qual alguém se deve sentir orgulhoso.

Mas pior que tudo é o facto de nem Costa nem sus muchachos terem efectivamente percebido os portugueses. Do &conomia à 4ª, no Expresso:

Quatro anos depois, os desequilíbrios macroeconómicos estão muito pior do que há quatro anos. A dívida pública aumentou de 108% para 130% do PIB, a dívida externa líquida de 82% para 105%. A direita subiu ao poder prometendo ajustar os desequilíbrios macroeconómicos da economia portuguesa, mas conseguiu apenas empobrecer o país, deprimindo a produção e fazendo alastrar as falências e o desemprego.

O articulista Alexandre Abreu argumenta com factos, indiscutíveis, mas com a mesma interpretação do PS, afirmada no seu programa: estamos hoje piores do que há quatro anos. Vamos lá ver uma coisa: Sócrates foi péssimo, mas nem tudo foi mau, e qualquer pessoa há-de valorizar, por exemplo, o Simplex, ou a política de ciência. E no entanto, sem margem para dúvidas senão nas cabeças dos mais facciosos, os governos de Sócrates deixaram-nos na bancarrota (seja por acção própria, seja por contribuição de factores externos). Durante os quatro anos de governo da coligação parou a sangria – há que reconhecê-lo. Sim, como afirma Alexandre Abreu, os números são piores, mas qualquer pessoa que veja os gráficos dos números vê que em 2011 a tendência destes parâmetros era crescente (ia ficar pior fosse quem fosse que lá estivesse) e que durante o tempo de governo da coligação as tendências melhoraram (efectivamente reduzindo a velocidade a que estavam a agravar-se em muitos casos, noutros invertendo mesmo a tendência). Se em muitos casos em termos absolutos estamos pior, a verdade é que em muitos dos números e valores estamos com tendências positivas. É melhor estarmos a desacelerar, mesmo se ainda a viajarmos um pouco mais rápido, do que continuar com com o pé no acelerador em direcção à parede, à espera da colisão certa. Em 2011, o acelerador ainda estava bem a fundo. É tudo obra do governo? Provavelmente não. A conjuntura, embora longe de famosa, está melhor aqui, como em Itália, França ou Espanha, mas não é possível ignorarmos que algo foi feito.

Se é verdade que a maioria dos portugueses está a sofrer, também é verdade que a maioria percebe o que se passou. O PS tinha que reconhecer estes dois factos: que foram os seus governos passados que nos puseram na trajectória financeira e que durante estes últimos quatro anos efectivamente se estancou a sangria. Depois o PS teria de ter alegado que a gestão da coligação foi má, que fizeram opções e decisões erradas, que não foram eficientes na gestão da coisa pública, e finalmente teria de ter apresentado alternativas (e não só antes da campanha) que os portugueses pudessem equacionar. Aquilo que o público recebeu foram mensagens contraditórias: uma negação completa do trabalho do governo e propostas que não se assemelham aos portugueses como suficientemente diferenciadoras. Eu como cidadão sinto-me desiludido pelo facto do maior partido da oposição não se comportar com responsabilidade, demonstrando uma atitude construtiva, mas antes escolhendo o caminho da birra. Eu queria alguém que me tivesse dito: certo, o governo cumpriu o processo da Troika, mas fê-lo mal, pelas razões A, B e C, e nós vamos pegar no que está feito e melhorar. Agora, Costa e o PS estão entre as proverbiais espada e parede: aqueles que querem soluções efectivamente distintas e mais drásticas, acolhidos de braços abertos pelo PCP e pelo BE, e aqueles que, por via das dúvidas, consideram o PSD-CDS como o mal menor, ou pelo menos o mal já conhecido. Se alguns preferem o potencial bem ao mal conhecido, muitos não se dignam a ouvir, sequer, aqueles que não são merecedores de confiança, porque a verdade é que imediatamente antes da coligação estava lá o PS.

Costa e o PS não conseguem coligar-se com outros para criar uma solução de governação que vá buscar força aos mais de 2/3 de portugueses descontentes com o Governo. Costa e o PS não conseguem atrair votos suficientes para eles próprios constituírem uma solução. Se no Domingo for isto o que acontece, só tem um nome: falhanço em toda a linha. Espero estar enganado.

3 de Outubro de 2015

Pôr-do-sol visto do miradouro da Senhora do Monte
Inverno em Lisboa | Pôr-do-sol visto do miradouro da Senhora do Monte

31 de Maio de 2015   ·   in English

21 de Maio de 2015

Se há escriba copioso, na nossa praça, ele é João Lemos Esteves. E se não o conhece, aqui ficam as suas próprias palavras, quando em 2010 começava a Politicoesfera no Expresso:

João Lemos Esteves. Finalista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Blogger desde 2008, com especial incidência no youtube, desde Fevereiro de 2010. Militante da Juventude Social-Democrata. Embora considere que a independência de pensamento e a liberdade de análise são indispensáveis a uma intervenção cívica plena.

Hoje em dia o professor assistente convidado da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa é articulista do Sol. É também um autor polarizador: suscita mimos de parte a parte, tanto sendo considerado um «génio do comentário político» por uns, como «uma besta» por outros.

“Passos Coelho: Esperança Portugal!”
“A saga de Rui Rio: um guia para um final infeliz!”
“Marcelo Rebelo de Sousa: o próximo Presidente da República portuguesa!”
“Diário Universidade PSD: Vítor Gaspar discorda (subtilmente) de Passos Coelho!”
“Cavaco Silva reconhece que Marcelo Rebelo de Sousa será um Presidente melhor!”

Alguns títulos de artigos de João Lemos Esteves

Não vou aqui entrar em discussões acerca da sagacidade do autor, da pertinência dos argumentos, ou da qualidade da retórica, mas como cientista e engenheiro de formação, tenho o hábito de olhar para números. Em cerca de 4 anos e meio, Lemos Esteves produziu 481 artigos, o que, tendo em conta só os meses em que escreveu, significa pouco menos de 10.5 artigos por mês. Como blogger, talvez não seja assim tanto. E como opinion-maker também não. O Miguel Esteves Cardoso, pese embora o facto de essa ser a sua profissão, já vai em 18 crónicas em Maio e ainda faltam dez dias para acabarmos o mês.

Sendo prolixo, aquilo que me deu vontade de analisar a obra Lemos Estevesiana foi a tipologia dos títulos. Aqui ficam os resultados da compilação:

Tipos de artigos - percentagem
A produção de João Lemos Esteves: número de artigos mensais e distribuição de títulos declarativos, interrogativos e exclamativos. [até 18 de Maio de 2015]

Quando começou a escrever regularmente na imprensa, Lemos Esteves apresentava-se perante os leitores sobretudo declarativo, não deixando de se mostrar por vezes interrogativo e outras exclamativo, numa mistura bem equilibrada. Mas à medida que amadurece como cronista, Lemos Esteves deixa de lado a declaração e a interrogação não cresce; Lemos Esteves tornou-se um exclamativo! Nestes anos o autor interrogou-se 122 vezes, afirmou 152 e exclamou 207. Desde que começou a colaborar com o Sol, não há mês que Lemos Esteves não exclame em menos que metade das crónicas.

Ora, João Lemos Esteves é, por ventura, o homem mais exclamativo de Portugal. Será que conviver com ele será semelhante a conviver com Ken Dove, o homem eleito por duas vezes como a pessoa mais interessante de Dorking?

21 de Maio de 2015

Laguna de los tres
Laguna de los tres | Parque Nacional Los Glaciares, Patagonia

3 de Fevereiro de 2015   ·   in English

2 de Fevereiro de 2015

Anda tudo desvairado. Nova edição da PACC – a prova que os recém-encartados potenciais professores têm de passar para poderem candidatar-se a dar aulas no Ensino Público – e está tudo a gritar. É injusto, é inútil, os professores são burros. Há opiniões para todos os gostos. Resolvi fazer a prova. Fiz duas, a de Dezembro de 2014 e a de Dezembro de 2013 e em duas vezes tive o resultado de 30 respostas certas em 32. Depois vim rever o que da prova estava a ser dito.

Antes de mais há que contextualizar: a prova, promessa eleitoral do ministro Crato, pretende ser uma barreira na entrada para a carreira de professor. Há anos começaram a aparecer as Escolas Superior de Educação (ESE) privadas, que passaram a receber, entre outros, quem não tinha média ou lugar para os cursos na Escola Pública. Sem querer generalizar, muitas destas ESE começaram a formar professores de qualidade duvidosa, mas que saíam com médias altas. Estes professores passariam, mais tarde, à frente de professores com médias mais baixas. A questão não é de agora: em 2006 a vice-reitora da universidade de Coimbra sugeria esta prova aos ministros da Educação do governo PS e, três anos depois, o secretário de Estado da Educação dizia:

(…) que “não tem absolutas garantias” de que a formação prestada por todas as instituições de ensino superior “corresponda aos padrões de qualidade exigível” à profissão docente. Pedreira adiantou que existem “indícios” de facilitismo e eventual inflação de notas em alguns cursos, e citou os casos da Escola Superior de Educação Jean Piaget, e do Instituto Superior de Ciências Educativas, ambos privados, onde se formou um terço de todos os professores admitidos no sistema nos últimos dez anos.
in Pedreira acusa escolas de educação de facilitismo

Esta encarnação da prova tem uma componente comum, para todos os candidatos a professor, e, presumo, mais tarde uma componente específica. A componente comum tem 32 duas perguntas de resposta múltipla e um exercício de escrita de um texto de 250 a 350 palavras. É esta componente comum que está a fazer correr tinta nos jornais.

Raciocínio

A pergunta que mais tem dado que falar é a seguinte:

O selecionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol. Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes.

Supondo que o selecionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes

(A) é inferior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos.
(B) é superior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos.
(C) é igual ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos.
(D) não se relaciona com o número de grupos diferentes de jogadores efetivos.

Ora, nesta pergunta, serem jogadores de futebol, ou serem bolas do totoloto é indiferente. Para evitar confusões, vamos pegar em 17 bolas numeradas. O enunciado diz que se vão repartir as bolas em dois grupos, um de 6 bolas e outro de 11 bolas. Diz ainda que não interessa a ordem das bolas. A questão é, então, relacionar o número de diferentes grupos de 6 bolas com os diferentes grupos de 11 bolas que se podem fazer.

Pergunta 6
Um grupo diferente numa das caixas implica um grupo diferente na outra.

Como o diagrama acima demonstra, se trocarmos uma das bolas numa das caixas (1 pela 12, no segundo caso), obtemos um grupo diferente em cada uma das caixas. Como a ordem não interessa, a cada grupo de bolas numa caixa corresponde um e só um grupo na outra caixa. Logo a resposta é a (C).

O enunciado talvez não seja o mais transparente, mas é assim tão rocambolesco? Olhando para as reacções, talvez seja mesmo!

Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido. Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder. O dr. Crato perdeu a cabeça.

Vasco Pulido Valente in A estupidez à solta

E se a palavra “grupo” designar “conjunto de pessoas ou objectos”, como o que vem no dicionário? Jogadores de ataque, de defesas?!

No meu caso, essa questão ficou rapidamente resolvida graças à fórmula matemática que descreve o número de combinações de um grupo de P pessoas escolhidas entre um total de N pessoas. Mas concedo que, sem ela, talvez não tivesse chegado à resposta tão depressa ou sequer percebido a pergunta.

Ana Gershenfeld in A minha experiência com a prova

Discordo Ana, mesmo sem a fórmula, qualquer pessoa pode lá chegar. De certa forma havia pistas: o exame é para todos e para ser feito sem calculadora…

Nos comentários do Público alguns concidadãos vociferavam:

(…) o desgraçado do professor terá de saber que no futebol só pode se pos usar um suplente um só vez no jogo, se esse jogador/suplente que está a jogar depois for o banco já já não pode entrar de novo para o jogo. É uma pergunta imbecilizada de quem pariu a prova e que pensa que todo o mundo sabe as leis e regras do futebol.

Convenhamos que na primeira questão o erro reflecte algumas ambiguidades, já que para responder acertadamente, é necessário que o candidato tenha um mínimo de conhecimento quanto à formação de uma equipa de futebol.

in As três questões em que mais professores erraram

Afinal parece que este exercício não é assim tão fácil. Talvez quem já tenha feito deste tipo de exercícios esteja mais habituado, mas a verdade é que está lá tudo no enunciado.

Outra pergunta:

A Júlia saiu de casa para visitar uma amiga: andou 1 km para oeste, 500 m para noroeste, 300 m para oeste, 500 m para sudeste e, por último, 1 km para sul.

O percurso da Júlia
O percurso da Júlia (ilustração minha)

Para voltar a casa pelo mesmo caminho, a Júlia necessita de andar:

(A) 1 km para sul, 500 m para sudoeste, 300 m para oeste, 500 m para nordeste e 1 km para oeste.
(B) 1 km para sul, 500 m para sudeste, 300 m para oeste, 500 m para noroeste e 1 km para oeste.
(C) 1 km para norte, 500 m para nordeste, 300 m para este, 500 m para sudoeste e 1 km para este.
(D) 1 km para norte, 500 m para noroeste, 300 m para este, 500 m para sudeste e 1 km para este.

É difícil, esta pergunta? Não, é elementar, e acho que saber os pontos cardeais não é um requisito desumano. Só acertaram 44.7%

Cultura geral

De entre as pergunta, duas delas, pelo meio de interpretação de textos, perguntavam conhecimentos de cultura geral. Num desses textos, em que o narrador ia ao café de uma qualquer terra portuguesa falar com um suposto herói da guerra recém-chegado do campo de batalha em Armentières, mencionavam-se soldados alemães e ingleses, trincheiras enlameadas e fogo de metralhadora.

A pergunta pedia para seleccionar de entre quatro períodos temporais (1875–1900, 1900–1925, 1925–1950, 1950–1975), qual deles se referia aos acontecimentos descritos no texto. Será demais querer que um professor saiba minimamente o que foi a Primeira Guerra Mundial, a única guerra mundial em que Portugal participou e cujo centenário foi amplamente comemorado nos meios de comunicação no ano que ainda agora terminou?

Noutra pergunta, lia-se no texto que precedia a seguinte frase:

Nos anos seguintes, e durante quase todo o reinado de D. João V, a Inquisição teve o cuidado de justificar a sua existência com autos de fé copiosos.

e a questão de escolha múltipla:

De acordo com o texto, durante o período mencionado, a Inquisição
(A) apresentou relatórios a D. João V.
(B) copiou modelos de outros países.
(C) produziu diversos textos religiosos.
(D) realizou muitas cerimónias públicas.

Será demais querer que um professor saiba que autos-de-fé eram cerimónias públicas destinadas a que os hereges fossem penitenciados?

Em nenhum destes casos houve mais de metade dos examinados a responder correctamente.

Deficiências

A prova está bem construída? Sinceramente não sei. Não me parece inteiramente descabida, mas há, claramente, deficiências. O grupo de questões onde se inseria uma das outras questões com menos de 30% de respostas certas (por curiosidade, eu acertei nessa, mas errei nas duas outras desse grupo), baseava-se num texto cuja tradução deixa muito a desejar. Aqui dou razão a Pulido Valente – «em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga». Também «concentrar muito entusiasmo» não é brilhante tradução de «summon much enthusiasm». E concordo com Luis Miguel Queirós em “Português dos redactores da PACC não cumpre os requisitos mínimos”, no que diz respeito a esta pergunta. Ainda que seja uma edição da Gulbenkian, este texto é obscuro e a tradução má. Porquê escolher isto? É inadmissível.

Prova escrita

Não fiz a prova escrita, por razões óbvias, mas não me parece nada de extraordinário. São entre 250 a 350 palavras, para fazer um comentário à seguinte frase:

Como a prensa de Gutenberg, a Internet e as redes sociais permitem que muito mais gente seja capaz de comunicar mais depressa e com mais pessoas, mas isso não implica que a informação que circula seja melhor e mais útil.

Não vou entrar pela questão dos erros ortográficos, embora segundo consta, erros por escrever com a ortografia certa – aquela a que chamam de antiga – não contavam. Mas vou comentar a estatística que diz 21,9% dos examinados teve cotação 0 (zero)! Mais – do grupo de examinados que tentavam o exame pela segunda vez, 27% teve cotação zero nas duas tentativas. Ora, o que significa cotação zero:

  • Resposta ilegível
  • Resposta com extensão inferior a 150 palavras
  • Resposta com extensão superior a 450 palavras
  • Resposta em que se verifica um afastamento integral do tema
  • Resposta que não atinge o nível 1 de desempenho

O nível 1 de desempenho:

– Respeita parcialmente a instrução no que se refere ao tema.
– Produz um texto com uma estrutura pouco adequada à tipologia proposta.
– Apresenta a sua perspetiva de forma ambígua e defende-a através de uma linha argumentativa pouco articulada e/ou pouco coerente.
– Manifesta um domínio lexical limitado (com pouca variedade, mas sem incorrer em impropriedades que comprometam o sentido global do texto).
– Manifesta um domínio limitado dos mecanismos de coesão textual (com pouca variedade, mas sem incorreções que comprometam o sentido global do texto).

Ou seja, para ter zero é preciso muito esforço. Não vi, é certo, o que os zeros escreveram, mas vou aceitar o que os correctores tenham seguido estes critérios de correcção. Adiante

Resumindo e concluindo

Fiz duas das provas e, sinceramente, embora o português de algumas das questões seja duvidoso e haja uma escolha de um texto inadmissível, a verdade é que não penso que a prova seja assim tão extraordinária. Apresenta um mínimo de questões que testam um pouco de raciocínio, de cultura geral, de interpretação e de capacidade de produção escrita.

A PACC suscitou muitas reacções: já citei a de Pulido Valente, contra, o António Santos, que diz que já temos bons professores e esta não é mais do que uma manobra resultante do desprezo do governo pela classe profissional dos professores. O próprio IAVE, responsável pela implementação da prova, está, de forma um tanto ou quanto surreal, contra ela, afirmando que “este tipo de provas ignora aquilo que é essencial na acção docente” temendo que os futuros cursos de professores os passem a treinar para passar esta prova (ensinando os pontos cardeais, presume-se)! Outros aproveitam para desancar nos professores, sabendo (presumo), que estes ainda não são professores, mas querendo com certeza generalizar. Ou seja, há opiniões para todos os gostos e cores políticas.

A PACC gera melhores professores? Certamente que não? A PACC consegue prever quais os candidatos a professores que vão ser melhores educadores? Claro que não. Então para que servirá a PACC?

Ao Observador, João Pedro da Ponte, director do Instituto de Educação, da Universidade de Lisboa faz a seguinte mirabolante afirmação:

[A PACC] “não está concebida para avaliar o trabalho das instituições”. Quanto muito, continuou, estes erros e a percentagem de chumbos revelam que “o nível de formação no ensino básico e secundário não é o adequado”. E se o indivíduo for passado no secundário, estamos indevidamente a atribuir culpa ao ensino superior”, explicou, acrescentando que os alunos “saem bem preparados” das instituições de ensino superior para dar aulas.

A sério? Vêm mal-preparados do secundário, mas bem preparados do ensino superior? Querem ver que ainda posso vir a ser jogador do Real Madrid?!

O já famoso Mário Nogueira afirmou:

“Gostava que os pais dos alunos se dessem ao trabalho de ir à página do Instituto de Avaliação Educacional [IAVE] na internet e lessem a prova. Será que ficavam mais descansados por entregar os filhos a um professor que tivesse passado naquela coisa?”, questionou, nesta terça-feira, Mário Nogueira, da Federação Nacional de Professores (Fenprof). Ele próprio assegura que “não”. “A PACC é de uma inutilidade completa. A não ser para afastar professores, que em Setembro, muito convenientemente para o Governo, já não aparecerão como não colocados”, disse.

in PACC: instrumento de “selecção” para o MEC e de “exclusão” para os professores

Será que ficaria mais descansado por entregar os meus filhos a um professor que passasse nesta “coisa”? Só por si, é claro que não, mas sei que ficaria bastante receoso se o meu filho estivesse a ser ensinado por alguém que não passou nesta prova. Disso tenho a certeza.

O ministro deveria ter chamado a este exame “PERMID”: prova eliminatória dos que não reunem os mínimos indispensáveis para a docência. No entanto, o mais assustador é que quem foi prestar esta prova tinha acabado de terminar um curso homologado pelo Ministério da Educação. É a este problema que os sindicatos, comentadores e governantes deveriam dedicar a sua energia, como já outros bem o disseram.

2 de Fevereiro de 2015

29 de Janeiro de 2015

Desde Novembro do ano passado que tem havido uma troca de palavras nas páginas do Público acerca da homeopatia. Começou com físico Carlos Fiolhais a desancar o parlamento por ter regulado a profissão de homeopata, numa portaria que constatava mesmo factos sobre a homeopatia tais como:

“A homeopatia trata as doenças com medicamentos que, numa pessoa saudável, produziriam sintomas semelhantes aos da doença.”

“Os medicamentos homeopáticos têm como princípio a indução de um processo de reorganização das funções vitais, estimulando o mecanismo de autorregulação.”

O historiador Paulo Varela Gomes – que infelizmente sofre de um cancro grave, o qual não respondeu às terapias médicas – escreveu uma carta aberta ao cientista em que descreve o seu caso, contando que o prognóstico de apenas 3 a 4 meses de vida foi invalidado com os seus agora dois anos e meio de sobrevivência, sem tratamentos médicos e acompanhado por tratamentos homeopáticos.

A troca epistolar continuou e há dias, no Público, o bioquímico David Marçal deu uma entrevista, sensata e equilibrada, na minha opinião, acerca do trabalho que tem feito junto do público pela clarificação do que é a ciência e como se opõe à pseudo-ciência, nomeadamente à homeopatia. Recomendo a leitura.

No entanto, a discussão continua (e continuará). Desta feita, o filósofo Fernando Belo afirma que a ciência, ou a falsa ciência, não sabe discutir. Não estive no colóquio a que se refere, mas venho aqui analisar o artigo de opinião que expõe.

Primas

O que parece certo é que a homeopatia, ao contrário da vacinação, sua prima pelo princípio da semelhança, não teve até agora sucesso nas tentativas laboratoriais da medicina molecular, donde não ser tida como ‘ciência’ por ela; as isso significa antes de mais uma incompatibilidade ‘experimental’, como a que creio existir

O texto encontra-se truncado, a seguir, pelo que não sei o resto do raciocínio do autor.

Segundo a homeopatia, o seu princípio terapêutico deriva do possível fenómeno da memória da água. Ou seja, introduz-se uma substância (potencialmente nociva) em água e depois de várias diluições, através dum mecanismo ainda não conhecido, os medicamentos homeopáticos ficam com uma qualquer capacidade de combater doenças, ou de estimular o organismo a fazê-lo por si própria. Apesar das diluições terem o efeito de que estatisticamente a probabilidade de se encontrar uma única molécula dessa substância no medicamento é essencialmente nula, a homeopatia teoriza a memória da água: a água deformaria-se-ia estruturalmente de alguma maneira, por forma a manter na solução alguma memória do efeito da substância inicial. Depois, como é que a água induz a resposta do corpo a essa memória, também não é esclarecido.

Quando Belo afirma que a homeopatia é “prima pelo princípio da semelhança” da vacinação cai num erro. Há vários tipos de vacinas, mas quase todas funcionam expondo ao sistema imunitário (glóbulos brancos) a bactérias, vírus, pedaços destes, ou ainda moléculas que determinados organismos possam excretar como toxinas. O sistema imunitário detecta estas moléculas e gera anti-corpos contra elas. Os anti-corpos servem como marcadores de agentes externos nocivos ao corpo e são produzidos em quantidade para marcarem os virus, ou bactérias invasoras. Depois dessa marcação, esses agentes externos são destruídos por outros componentes do sistema imunitário. A ciência sabe que isto acontece porque, entre outras coisas, consegue ver isto mesmo a acontecer. Aqui fica um exemplo visual:

Rotavirus
Anti-corpos (marcados com partículas de ouro, a preto) agarrados à proteína VP6 do rotavirus, um dos causadores de gastroenterites e diarreias severas em crianças. [wikicommons/Graham Colm]

Ora, chegar a este conhecimento foi um processo que demorou muitos anos e envolveu o esforço de muita gente. Mas mais importante foi o facto de ter sido demonstrado, com vários tipos de provas, testes, experiências e ensaios clínicos, quais os mecanismos subjacentes ao funcionamento das vacinas. Pode ter havido primeiro uma teoria, mas as teorias científicas têm de ser comprovadas experimentalmente.

Quando F. Belo afirma que a homeopatia e a vacinação são primas, isto diz muito pouco à ciência – sim, há uma teoria, mas não há demonstração científica válida, nem dos efeitos a larga escala, nem dos mecanismos básicos subjacentes que expliquem o método seu funcionamento. Aos cientistas isto soa como alguém a dizer que a astronomia e a astrologia são primas porque há corpos celestes envolvidos em ambas as actividades.

É claro que a ciência tem de ter um espírito aberto a novas ideias, mas um espírito sempre crítico. E para ter aceitação é preciso que se façam as experiências e demonstrações.

O caso particular

Paulo Varela Gomes pode muito bem ser um caso em que o cancro se tornou menos agressivo, ou mesmo retrocedeu por razões alheias à medicina convencional. Há inúmeros relatos de casos não explicados. Não sabemos. Mas com um caso apenas não podemos fazer generalizações. Por isso existem ensaios clínicos regulamentados e controlados: para obtermos resultados baseados em amostras significativas. O David Marçal explica-o bem na entrevista que referi.

Ora Fernando Belo cita também um caso:

Vi uma familiar que começava a perder cabelo largar as injecções sem efeito dum dermatologista por uma homeopatia que lhe recuperou o cabelo em poucos meses.

Sendo filósofo, acredito que Belo saiba o que são falácias indutivas, logo citar este exemplo, por si só não adianta nada. É como numa discussão sobre como resolver a dívida do país alguém afirmar: – eu não sou especialista, mas no outro dia, um amigo meu ganhou o euromilhões. E depois?

Outra falácia

Fernando Belo não se fica por aí e usa outros argumentos falaciosos: o apelo à autoridade, neste caso de dois prémios Nobel.

A correlação entre a medicina molecular e a homeopatia conheceu uma viragem com a proposta em 1988 do médico francês J. Benveniste: a questão de ser a água que guarda a memória da substância homeopática desaparecida na dissolução, o que o Nobel de Medicina (2008) Luc Montagnier recentemente disse consistir na única explicação para fenómenos que ele próprio encontrou (“J. Benveniste”, Wikipédia). Outro Nobel, inglês de física (1973), Brian Josephson, acolhe a proposta de Benveniste em 1997, dada a diferença da estrutura da água enquanto líquido

A viragem que Fernando Belo afirma que existiu, não existiu. Houve um estudo, publicado em 1988 na revista Nature do tal médico francês Benveniste que afirmava que demonstrava a memória da água. O estudo foi publicado com a condição que a seguir, uma equipa iria ao laboratório de Benveniste replicar a experiência. Embora com o auxílio do grupo do cientista, os resultados não foram reproduzidos. Desde então, vários grupos, ao longo dos anos, tentaram múltiplas vezes reproduzir os resultados e não conseguiram (algo que Fernando Belo não afirma).

De facto, em 1999 a American Physical Society aceitou a proposta de Josephson para financiar uma nova tentativa de replicar os resultados de Benveniste (e James Randi ofereceu o seu prémio de 1 milhão de dólares, caso se verificasse que o resultado era verdadeiro), ao que Benveniste concordou. No entanto, nem Benveniste, nem Josephson avançaram com o teste.

Luc Montagnier levou ainda o resultado mais adiante, afirmando que as moléculas de ADN deixam sinais electromagnéticos na água. Mas só ADN de bactérias patogénicas para os humanos! A comunidade científica nem sequer acredita na validade dos estudos, publicados numa revista nova, da qual é o editor-chefe. Pelo contrário, a descoberta que lhe granjeou o Nobel, é bem aceite e já foi confirmada, independentemente, muitas e muitas vezes. Quem tiver curiosidade vá ver o artigo, em que só há um gráfico com resultados, e praticamente nenhuma análise ao ruído do sistema ultra-rudimentar utilizado para, supostamente, medir sinais electromagnéticos reduzidíssimos.

É certo que o consenso nem sempre é sinal de razão, mas em muitos dos casos em que há gritaria, trata-se de um grupo de indivíduos em contra-mão a gritar que está tudo a ir em sentido contrário. Não há falta de gente a ir contra o consenso. Há quem ache que o aquecimento global é uma invenção ambientalista. Há um quase-Nobel, um dos inventores da ressonância magnética e o primeiro a diagnosticar um cancro através deste método, que acha que a terra tem menos de 6000 anos de idade. Há quem ache que se deve parar de vacinar as criancinhas porque pode causar autismo, segundo um estudo desacreditado de um médico inglês.

Para concluir, um alerta. Apelar aos prémios Nobel nem sempre dá bom resultado. Se é verdade que, em princípio, alguém que ganhou esta distinção está na posse de maiores faculdades para discutir este assunto, é verdade que nem sempre se pronunciam ajuizadamente sobre outros assuntos, ou então são malucos varridos. Ora vejamos dois exemplos:

  • Linus Pauling ganhou dois prémios Nobel (Química e Paz), mas isso não impediu de ser um dos que ridicularizaram Daniel Shechtman por ter anunciado a descoberta de quasi-cristais. Pauling, que discordava da teoria de Shechtman, afirmou publicamente que “não há quasi-cristais, apenas quasi-cientistas“. Em 2011 Daniel Shechtman ganhou o prémio Nobel precisamente pela sua descoberta dos quasi-cristais.

  • O mesmo Linus Pauling a certa altura da sua vida começou a acreditar (e a divulgar publicamente) que doses elevadas de vitamina C curavam o cancro.

  • Nikolaas Tinbergen, prémio Nobel pela descoberta de padrões de organização social em animais, defendeu (na aula Nobel!) que o autismo é causado pela falta de amor maternal.

  • Kary Mullis ganhou o prémio Nobel da Química pela descoberta da reacção em cadeia da polimerase. Entre outras coisas, acredita na astrologia, que o HIV não causa SIDA e que em 1985 teve um encontro com um guaxinim verde fluorescente que falou com ele, no norte da Califórnia (e garante que não estava alcoolizado ou drogado).


ACTUALIZAÇÃO – Acrescentei mais dois exemplos à lista de prémios Nobel (Fev. 2015)

29 de Janeiro de 2015

New Hampshire
Lago Ogontz | New Hampshire

25 de Agosto de 2014   ·   in English

14 de Agosto de 2014

No final da semana passada, a DGES revelou o número de candidatos ao Ensino Superior (candidaturas à 1.ª fase do concurso nacional). Há cerca de dois anos que ando a tentar ver, ano a ano, se se consegue prever o número de candidatos para se poderem definir melhor as vagas no Ensino Superior público (Partes I, II, e III). No mês passado, depois de ser a lançada a nota do exame nacional de Matemática A, usando o modelo com os dados dos anos anteriores, previ um intervalo de confiança (99%) de entre 37.431 a 42.510 candidatos. Segundo a DGES o valor final, este ano foi de 42.455, praticamente no limite superior do intervalo. No ano passado já tinha verificado a validade do modelo à posteriori, este ano consegui prever o número de candidatos.

Figura 1 – Rácio entre vagas ou candidatos e número de alunos que terminam o 12º ano, segundo o meu modelo. Comparação com as médias da prova de Matemática A. As cores de fundo representam “eras” de diferentes graus de dificuldade no exame nacional. A zona a cinzento representa o intervalo de confiança a 99% da previsão do número de candidatos.

Segundo o MEC há 50.820 vagas, 1,2% a menos que no ano passado. Deste modo, com uma ligeira descida do número de vagas e um ligeiro aumento dos candidatos, o diferencial entre candidatos e vagas começa finalmente a descer, sendo que ficarão por preencher 8365 vagas, cerca de 16% do total.

A correlação entre a média dos exames de Matemática A e o rácio do número de candidatos por finalistas (segundo o meu modelo) parece manter-se relativamente robusta. Ou seja, $$ R = p_{1} \times média + p_2 $$ em que \(p_1 = 0.0278\), \(p_2 = 0.1334\) (baseados nos valores de 2000 a 2013) e \(R=\frac{candidatos}{finalistas}\).

Revisitando a minha questão original – tentar construir um modelo que previsse o número de candidatos ao Ensino Superior – a versão actual do meu modelo é então: $$ candidatos = \left( p_{1} \times média + p_2 \right) \times finalistas $$ sendo que os \(finalistas\) do 12º ano são calculados através da propagação dos nascimentos pelos anos de escolaridade, com dois parâmetros que modelam as reprovações e a passagem do Ensino Básico para o Secundário. Esses parâmetros estão descritos em detalhe na Parte I.

Outra forma alternativa de mostrar a mesma informação é precisamente desenhar um gráfico da equação anterior, em que os factores de correcção dados pela correlação (e que variam, ano a ano, consoante a média do exame de Matemática A) ajustam os valores calculados do número de alunos que terminam o Ensino Secundário (para os anos futuros, assumi uma média de 8,5 valores). Os resultados estão representado na linha azul. Como se pode ver, estão muito próximos dos valores oficiais (a preto), o que é já era esperado dada a correlação que encontrei. Ainda não arranjei forma de comparar a minha determinação de alunos finalistas com dados oficiais, mas cada vez mais me parece que a minha estimativa deve estar próxima da realidade, se não em números absolutos, pelo menos na tendência relativa.

Figura 2 – Actualização do modelo com a correlação do número de candidatos com a média de Matemática A (azul). Comparação com números oficiais (preto)
Figura 2 – Actualização do modelo com a correlação do número de candidatos com a média de Matemática A (azul). Comparação com números oficiais (preto)

A reacção oficial aos números de candidatos deste ano congratulou-se pelo aumento de candidatos. Se o meu modelo estiver correcto, este ligeiro aumento deveu-se sobretudo a tendências demográficas, já que o nível de facilidade do exame de Matemática A se manteve semelhante ao ano passado. No Público, o jornalista afirma:

Este resultado significa uma inversão na tendência de quebra da procura que se registava desde 2008, pelo que o presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES) acredita que a conjuntura negativa no sector está a ser ultrapassada.

Caro jornalista Samuel Silva: isto não é necessariamente uma inversão de tendência. Uma tendência necessita que haja qualquer coisa que tenda para um lado ou para o outro, por definição, logo uma flutuação não muda necessariamente a tendência. Veja-se, no gráfico acima, o número de candidatos entre 2000 e 2006, com tendência claramente de decrescimento. No entanto, em 2002, 2004 e 2006 houve valores que foram maiores que nos anos anteriores, sem que isso se tenha traduzido numa alteração da tendência. Quanto muito a inversão deu-se em 2006, mas isso só foi possível ser afirmado em 2007.

A crer no meu modelo, no entanto, o jornalista poderá vir a ter razão. Se as médias se mantiverem, e, mais ainda, se aumentarem, há razão para que haja, nos próximos 5 anos, uma ligeira tendência de aumento dos candidatos (qualquer coisas como 7500 a 12500 candidatos a mais, daqui a 5 anos, dependendo da facilidade dos exames). Parece que os factores demográficos estão a dar o último fôlego ao sistema:

População no Ensino Básico e Secundário (modelo e dados). Resultados do modelo para a população que acaba o 12º ano. Vagas e candidaturas ao ensino superior público.
Figura 3 – População no Ensino Básico e Secundário (modelo e dados). Resultados do modelo para a população que acaba o 12º ano. Vagas e candidaturas ao ensino superior público.

A pequena bossa de alunos no Básico no início desta década está agora a passar para pelo Secundário. Note-se que o meu modelo não entra em linha de conta com os efeitos do programa Novas Oportunidades (os desvios enormes, iniciados em 2009, nos dados oficiais da Pordata, mas que nunca observei traduzirem-se em mais alunos a irem para a faculdade). De facto, depois de 2015 a tendência decrescente de alunos no Ensino Básico é assustadora. Essa tendência passará para o Secundário e depois para o Ensino Superior. De notar que só cerca de 50% dos alunos que acabam o Ensino Secundário é que se candidatam ao Superior. Há aí margem para combater a demografia, mas em termos de futuro demográfico do país é meramente um paleativo.

14 de Agosto de 2014