6 de Novembro de 2008

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Sou um europeu e por agora vivo nos Estados Unidos. Longe de mim saber o que é a América. A América é um continente. Longe de mim saber o que pensa a América; vivo num bastião democrata. Obama ganhou e embora eu pudesse, ou mesmo devesse, ter intitulado este artigo como Obama pode vir a tornar-se um dos melhores presidentes dos Estados Unidos, vou deixar um certo entusiasmo constringido levar-me um pouco mais adiante.
Obama ganhou a McCain por cinco por cento do voto popular. Embora a vitória tenha sido descrita como estrondosa, o facto é que a América permanece, em boa parte, dividida. Agora que Obama se prepara para ocupar o seu lugar na Sala Oval, há que sermos realistas e ter consciência que chega à presidência com as mãos atadas. E as mãos atadas por duas cordas: a primeira é a que quer ele, quer McCain, quer qualquer presidente teria e são as restrições do poder presidencial americano. O presidente dos EUA não é um senhor todo poderoso. O sistema político e executivo americano está baseado numa série de barreiras que tornam difícil as alterações de fundo e, embora tanto o Congresso como o Senado sejam da côr do presidente, aqui não há disciplina de voto. A segunda corda que ata as mãos de Obama é a situação desastrosa em que herda o país: financeira, económica, de credibilidade e respeitabilidade internacional. Bush foi um mau presidente.
Um presidente negro não significa o fim do racismo. A eleição de Obama é sem dúvida um passo no progresso e na evolução da moral e da cultura do bem, no que à segregação e violência racial diz respeito. Não é, no entanto, nenhum símbolo do fim do conflito e da mentalidade racista. É porém um passo de gigante: nos próximos oito anos, toda uma geração vai crescer com um negro como presidente do seu país. Claro que ainda vão existir skinheads, claro que vão haver pais a incitar ao ódio os filhos e claro que vão haver crianças que vão propagar essas bestialidades Mas a figura vai lá estar presente, aos olhos de todos e mais importante nas mentes de todos. Vai ser normal.
Oiço de Portugal e da Europa vários comentadores a opinar sobre o rumo que o novo presidente vai dar à política externa, que é isso que interessa ao mundo. Acho que os Estados Unidos vão sobretudo ser mais corteses e menos arrogantes. Mas sinceramente não acho que Obama vá deixar de ter uma posição firme, forte e pesada. Não acredito que continuem Guantanamo e afins, e penso que Obama vai conseguir que os EUA sejam novamente respeitados, mas não me espantaria se na política externa os EUA não deixassem de ser exigente para com o mundo. Contudo não concordo com o que a maioria vai dizendo: para o mundo, o mais importante é mesmo o sucesso da política interna que Obama possa vir a ter. Só assim é que a América ganhará verdadeiro peso – quando se encontrar a si própria. E convenhamos, apesar dos Estados Unidos terem perdido nos últimos anos o estatuto e o poderio que detinham, o que existe para os substituir? A Europa continua a não ter uma mão forte para ditar o rumo que quer seguir, a China, embora em crescendo ainda não ousa ou não quer assumir a dianteira e a Rússia parece que só pulsa à cadência do preço da energia. Os EUA podem não ser o bastião que eram, nem empurrar para a frente da forma como faziam, mas não houve ainda nenhum país ou conjunto de país que tomasse essa posição.
Obama não vai poder fazer milagres. Não controla os mercados financeiros, não controla erros passados, não controla a situação económica. E é certo e sabido que a economia vai estar complicada nos próximos tempos. Algumas medidas governamentais poderão ditar se recupera dentro de um ano, se recupera dentro de três. Vai subir impostos, sim, não há dúvidas. É aí, talvez, que se encontra o papel mais importante que pode vir a ter: quais os programas e políticas que vai financiar e quais é que vai cancelar, num contexto de fraca disponibilidade financeira.
Mas a economia vai começar a recuperar nos próximos quatro anos. E vai recuperar sobre o signo de Obama. Melhor ou pior, poderá depender dele, como também poderá não depender. Eu acho que vai depender. Hoje ouvi, num contexto que nada tinha a ver com política, a seguinte frase: Once you start something, you don’t know what path the road will lead you to. The one thing you know is that discipline and dedication will make you accomplish far more great things that if you’d have immediately backed out. Obama corporiza a dedicação, mas sobretudo a disciplina. E é essa disciplina aliada à força inspiradora com que contamina os que o ouvem, que vai fazer da América um novo novo mundo. Como já foi dito, Obama não fez campanha para ganhar a maioria. Obama fez campanha para mudar o mundo a começar pelos EUA. Obama montou uma das mais impressionantes máquinas de vender sonhos palpáveis, sonhos que se agarram e isso ficou provado com a forma como vendeu o sonho de chegar a presidente. Do improvável à realidade, de uma forma verdadeiramente empreendedora e métrica. E é este corporativismutópico que vai fazer com que o seu projecto vá para a frente. Sessenta e seis por cento dos menores de trinta anos votaram por ele: são estes que se querem livrar do pessimismo, do manto negro, deprimente e que tolhe, são estes que querem uma inspiração, não para ir para o café à noite discursar sobre um mundo melhor e uma ideologia, mas querem ter a motivação para irem trabalhar de manhã, a inspiração para criarem novos projectos e a liberdade para darem mais de si para que o país melhore.
Acho que Obama vai investir na educação, não sei exactamente como, mas penso que vai empurrá-la na direcção de uma maior exigência. Acho que Obama vai investir mais na ciência e tecnologia e isso é fundamental para o garante do conhecimento futuro, base de quase todas as revoluções industriais e motores económicos. Acho que Obama vai investir num sistema de saúde digno. Não vejo em Obama um messias, nem vejo nele um pragmático. Vejo nele a personificação de uma máquina, quase imparável e sempre apontada em direcção à utopia palpável. Vejo nele um negociador exímio e um gestor fabuloso. É isso que lhe vai dar a vantagem, é isso que vai fazer dele um dos melhores presidentes americanos de sempre. E sinto-me privilegiado por poder viver isso aqui.

6 de Novembro de 2008