29 de Janeiro de 2015

Desde Novembro do ano passado que tem havido uma troca de palavras nas páginas do Público acerca da homeopatia. Começou com físico Carlos Fiolhais a desancar o parlamento por ter regulado a profissão de homeopata, numa portaria que constatava mesmo factos sobre a homeopatia tais como:

“A homeopatia trata as doenças com medicamentos que, numa pessoa saudável, produziriam sintomas semelhantes aos da doença.”

“Os medicamentos homeopáticos têm como princípio a indução de um processo de reorganização das funções vitais, estimulando o mecanismo de autorregulação.”

O historiador Paulo Varela Gomes – que infelizmente sofre de um cancro grave, o qual não respondeu às terapias médicas – escreveu uma carta aberta ao cientista em que descreve o seu caso, contando que o prognóstico de apenas 3 a 4 meses de vida foi invalidado com os seus agora dois anos e meio de sobrevivência, sem tratamentos médicos e acompanhado por tratamentos homeopáticos.

A troca epistolar continuou e há dias, no Público, o bioquímico David Marçal deu uma entrevista, sensata e equilibrada, na minha opinião, acerca do trabalho que tem feito junto do público pela clarificação do que é a ciência e como se opõe à pseudo-ciência, nomeadamente à homeopatia. Recomendo a leitura.

No entanto, a discussão continua (e continuará). Desta feita, o filósofo Fernando Belo afirma que a ciência, ou a falsa ciência, não sabe discutir. Não estive no colóquio a que se refere, mas venho aqui analisar o artigo de opinião que expõe.

Primas

O que parece certo é que a homeopatia, ao contrário da vacinação, sua prima pelo princípio da semelhança, não teve até agora sucesso nas tentativas laboratoriais da medicina molecular, donde não ser tida como ‘ciência’ por ela; as isso significa antes de mais uma incompatibilidade ‘experimental’, como a que creio existir

O texto encontra-se truncado, a seguir, pelo que não sei o resto do raciocínio do autor.

Segundo a homeopatia, o seu princípio terapêutico deriva do possível fenómeno da memória da água. Ou seja, introduz-se uma substância (potencialmente nociva) em água e depois de várias diluições, através dum mecanismo ainda não conhecido, os medicamentos homeopáticos ficam com uma qualquer capacidade de combater doenças, ou de estimular o organismo a fazê-lo por si própria. Apesar das diluições terem o efeito de que estatisticamente a probabilidade de se encontrar uma única molécula dessa substância no medicamento é essencialmente nula, a homeopatia teoriza a memória da água: a água deformaria-se-ia estruturalmente de alguma maneira, por forma a manter na solução alguma memória do efeito da substância inicial. Depois, como é que a água induz a resposta do corpo a essa memória, também não é esclarecido.

Quando Belo afirma que a homeopatia é “prima pelo princípio da semelhança” da vacinação cai num erro. Há vários tipos de vacinas, mas quase todas funcionam expondo ao sistema imunitário (glóbulos brancos) a bactérias, vírus, pedaços destes, ou ainda moléculas que determinados organismos possam excretar como toxinas. O sistema imunitário detecta estas moléculas e gera anti-corpos contra elas. Os anti-corpos servem como marcadores de agentes externos nocivos ao corpo e são produzidos em quantidade para marcarem os virus, ou bactérias invasoras. Depois dessa marcação, esses agentes externos são destruídos por outros componentes do sistema imunitário. A ciência sabe que isto acontece porque, entre outras coisas, consegue ver isto mesmo a acontecer. Aqui fica um exemplo visual:

Rotavirus
Anti-corpos (marcados com partículas de ouro, a preto) agarrados à proteína VP6 do rotavirus, um dos causadores de gastroenterites e diarreias severas em crianças. [wikicommons/Graham Colm]

Ora, chegar a este conhecimento foi um processo que demorou muitos anos e envolveu o esforço de muita gente. Mas mais importante foi o facto de ter sido demonstrado, com vários tipos de provas, testes, experiências e ensaios clínicos, quais os mecanismos subjacentes ao funcionamento das vacinas. Pode ter havido primeiro uma teoria, mas as teorias científicas têm de ser comprovadas experimentalmente.

Quando F. Belo afirma que a homeopatia e a vacinação são primas, isto diz muito pouco à ciência – sim, há uma teoria, mas não há demonstração científica válida, nem dos efeitos a larga escala, nem dos mecanismos básicos subjacentes que expliquem o método seu funcionamento. Aos cientistas isto soa como alguém a dizer que a astronomia e a astrologia são primas porque há corpos celestes envolvidos em ambas as actividades.

É claro que a ciência tem de ter um espírito aberto a novas ideias, mas um espírito sempre crítico. E para ter aceitação é preciso que se façam as experiências e demonstrações.

O caso particular

Paulo Varela Gomes pode muito bem ser um caso em que o cancro se tornou menos agressivo, ou mesmo retrocedeu por razões alheias à medicina convencional. Há inúmeros relatos de casos não explicados. Não sabemos. Mas com um caso apenas não podemos fazer generalizações. Por isso existem ensaios clínicos regulamentados e controlados: para obtermos resultados baseados em amostras significativas. O David Marçal explica-o bem na entrevista que referi.

Ora Fernando Belo cita também um caso:

Vi uma familiar que começava a perder cabelo largar as injecções sem efeito dum dermatologista por uma homeopatia que lhe recuperou o cabelo em poucos meses.

Sendo filósofo, acredito que Belo saiba o que são falácias indutivas, logo citar este exemplo, por si só não adianta nada. É como numa discussão sobre como resolver a dívida do país alguém afirmar: – eu não sou especialista, mas no outro dia, um amigo meu ganhou o euromilhões. E depois?

Outra falácia

Fernando Belo não se fica por aí e usa outros argumentos falaciosos: o apelo à autoridade, neste caso de dois prémios Nobel.

A correlação entre a medicina molecular e a homeopatia conheceu uma viragem com a proposta em 1988 do médico francês J. Benveniste: a questão de ser a água que guarda a memória da substância homeopática desaparecida na dissolução, o que o Nobel de Medicina (2008) Luc Montagnier recentemente disse consistir na única explicação para fenómenos que ele próprio encontrou (“J. Benveniste”, Wikipédia). Outro Nobel, inglês de física (1973), Brian Josephson, acolhe a proposta de Benveniste em 1997, dada a diferença da estrutura da água enquanto líquido

A viragem que Fernando Belo afirma que existiu, não existiu. Houve um estudo, publicado em 1988 na revista Nature do tal médico francês Benveniste que afirmava que demonstrava a memória da água. O estudo foi publicado com a condição que a seguir, uma equipa iria ao laboratório de Benveniste replicar a experiência. Embora com o auxílio do grupo do cientista, os resultados não foram reproduzidos. Desde então, vários grupos, ao longo dos anos, tentaram múltiplas vezes reproduzir os resultados e não conseguiram (algo que Fernando Belo não afirma).

De facto, em 1999 a American Physical Society aceitou a proposta de Josephson para financiar uma nova tentativa de replicar os resultados de Benveniste (e James Randi ofereceu o seu prémio de 1 milhão de dólares, caso se verificasse que o resultado era verdadeiro), ao que Benveniste concordou. No entanto, nem Benveniste, nem Josephson avançaram com o teste.

Luc Montagnier levou ainda o resultado mais adiante, afirmando que as moléculas de ADN deixam sinais electromagnéticos na água. Mas só ADN de bactérias patogénicas para os humanos! A comunidade científica nem sequer acredita na validade dos estudos, publicados numa revista nova, da qual é o editor-chefe. Pelo contrário, a descoberta que lhe granjeou o Nobel, é bem aceite e já foi confirmada, independentemente, muitas e muitas vezes. Quem tiver curiosidade vá ver o artigo, em que só há um gráfico com resultados, e praticamente nenhuma análise ao ruído do sistema ultra-rudimentar utilizado para, supostamente, medir sinais electromagnéticos reduzidíssimos.

É certo que o consenso nem sempre é sinal de razão, mas em muitos dos casos em que há gritaria, trata-se de um grupo de indivíduos em contra-mão a gritar que está tudo a ir em sentido contrário. Não há falta de gente a ir contra o consenso. Há quem ache que o aquecimento global é uma invenção ambientalista. Há um quase-Nobel, um dos inventores da ressonância magnética e o primeiro a diagnosticar um cancro através deste método, que acha que a terra tem menos de 6000 anos de idade. Há quem ache que se deve parar de vacinar as criancinhas porque pode causar autismo, segundo um estudo desacreditado de um médico inglês.

Para concluir, um alerta. Apelar aos prémios Nobel nem sempre dá bom resultado. Se é verdade que, em princípio, alguém que ganhou esta distinção está na posse de maiores faculdades para discutir este assunto, é verdade que nem sempre se pronunciam ajuizadamente sobre outros assuntos, ou então são malucos varridos. Ora vejamos dois exemplos:

  • Linus Pauling ganhou dois prémios Nobel (Química e Paz), mas isso não impediu de ser um dos que ridicularizaram Daniel Shechtman por ter anunciado a descoberta de quasi-cristais. Pauling, que discordava da teoria de Shechtman, afirmou publicamente que “não há quasi-cristais, apenas quasi-cientistas“. Em 2011 Daniel Shechtman ganhou o prémio Nobel precisamente pela sua descoberta dos quasi-cristais.

  • O mesmo Linus Pauling a certa altura da sua vida começou a acreditar (e a divulgar publicamente) que doses elevadas de vitamina C curavam o cancro.

  • Nikolaas Tinbergen, prémio Nobel pela descoberta de padrões de organização social em animais, defendeu (na aula Nobel!) que o autismo é causado pela falta de amor maternal.

  • Kary Mullis ganhou o prémio Nobel da Química pela descoberta da reacção em cadeia da polimerase. Entre outras coisas, acredita na astrologia, que o HIV não causa SIDA e que em 1985 teve um encontro com um guaxinim verde fluorescente que falou com ele, no norte da Califórnia (e garante que não estava alcoolizado ou drogado).


ACTUALIZAÇÃO – Acrescentei mais dois exemplos à lista de prémios Nobel (Fev. 2015)

29 de Janeiro de 2015