3 de Outubro de 2015

As sondagens parecem claras: a maioria dos portugueses não gosta e não quer os actuais governantes. E no entanto o governo vai, muito provavelmente manter-se. A culpa, essa pode ser repartida, começando pelo facto de a oposição não ter a mínima capacidade de diálogo para criar uma alternativa que efectivamente reúna o descontentamento. Fazer política é isso mesmo: gerir.

Mas se no Domingo António Costa e o PS não ganharem, ficará à vista de todos a inépcia política destes, mas – pior – vislumbrar-se-á a incapacidade de perceberem o país.

António Costa foi propalado como génio da política (por exemplo, no Contraditório da Antena 1, às sextas-feiras, Raúl Vaz todas as semanas diz que António Costa é o mais competente político português, mesmo sendo da área política oposta – ou terá sido estratégia psicológica?), mas desde o primeiro ataque à liderança do PS que se tem vindo a revelar uma nódoa. Costa foi de faca ao largo do Rato e voltou de lá assobiar, corado, como menino mal comportado. Na política, sabemos, há facadas a toda a hora, mas se é para fazê-lo, que se faça com determinação e manifestando capacidade de liderança. Costa só voltou à carga quando Seguro estava prostrado no chão, mexendo-se pouco, já morto aos olhos de quase todos. E o aparelho depois recompensou o novo líder com uns soviéticos 96% dos votos o que só mostra que os aparelhos também não são nada do qual alguém se deve sentir orgulhoso.

Mas pior que tudo é o facto de nem Costa nem sus muchachos terem efectivamente percebido os portugueses. Do &conomia à 4ª, no Expresso:

Quatro anos depois, os desequilíbrios macroeconómicos estão muito pior do que há quatro anos. A dívida pública aumentou de 108% para 130% do PIB, a dívida externa líquida de 82% para 105%. A direita subiu ao poder prometendo ajustar os desequilíbrios macroeconómicos da economia portuguesa, mas conseguiu apenas empobrecer o país, deprimindo a produção e fazendo alastrar as falências e o desemprego.

O articulista Alexandre Abreu argumenta com factos, indiscutíveis, mas com a mesma interpretação do PS, afirmada no seu programa: estamos hoje piores do que há quatro anos. Vamos lá ver uma coisa: Sócrates foi péssimo, mas nem tudo foi mau, e qualquer pessoa há-de valorizar, por exemplo, o Simplex, ou a política de ciência. E no entanto, sem margem para dúvidas senão nas cabeças dos mais facciosos, os governos de Sócrates deixaram-nos na bancarrota (seja por acção própria, seja por contribuição de factores externos). Durante os quatro anos de governo da coligação parou a sangria – há que reconhecê-lo. Sim, como afirma Alexandre Abreu, os números são piores, mas qualquer pessoa que veja os gráficos dos números vê que em 2011 a tendência destes parâmetros era crescente (ia ficar pior fosse quem fosse que lá estivesse) e que durante o tempo de governo da coligação as tendências melhoraram (efectivamente reduzindo a velocidade a que estavam a agravar-se em muitos casos, noutros invertendo mesmo a tendência). Se em muitos casos em termos absolutos estamos pior, a verdade é que em muitos dos números e valores estamos com tendências positivas. É melhor estarmos a desacelerar, mesmo se ainda a viajarmos um pouco mais rápido, do que continuar com com o pé no acelerador em direcção à parede, à espera da colisão certa. Em 2011, o acelerador ainda estava bem a fundo. É tudo obra do governo? Provavelmente não. A conjuntura, embora longe de famosa, está melhor aqui, como em Itália, França ou Espanha, mas não é possível ignorarmos que algo foi feito.

Se é verdade que a maioria dos portugueses está a sofrer, também é verdade que a maioria percebe o que se passou. O PS tinha que reconhecer estes dois factos: que foram os seus governos passados que nos puseram na trajectória financeira e que durante estes últimos quatro anos efectivamente se estancou a sangria. Depois o PS teria de ter alegado que a gestão da coligação foi má, que fizeram opções e decisões erradas, que não foram eficientes na gestão da coisa pública, e finalmente teria de ter apresentado alternativas (e não só antes da campanha) que os portugueses pudessem equacionar. Aquilo que o público recebeu foram mensagens contraditórias: uma negação completa do trabalho do governo e propostas que não se assemelham aos portugueses como suficientemente diferenciadoras. Eu como cidadão sinto-me desiludido pelo facto do maior partido da oposição não se comportar com responsabilidade, demonstrando uma atitude construtiva, mas antes escolhendo o caminho da birra. Eu queria alguém que me tivesse dito: certo, o governo cumpriu o processo da Troika, mas fê-lo mal, pelas razões A, B e C, e nós vamos pegar no que está feito e melhorar. Agora, Costa e o PS estão entre as proverbiais espada e parede: aqueles que querem soluções efectivamente distintas e mais drásticas, acolhidos de braços abertos pelo PCP e pelo BE, e aqueles que, por via das dúvidas, consideram o PSD-CDS como o mal menor, ou pelo menos o mal já conhecido. Se alguns preferem o potencial bem ao mal conhecido, muitos não se dignam a ouvir, sequer, aqueles que não são merecedores de confiança, porque a verdade é que imediatamente antes da coligação estava lá o PS.

Costa e o PS não conseguem coligar-se com outros para criar uma solução de governação que vá buscar força aos mais de 2/3 de portugueses descontentes com o Governo. Costa e o PS não conseguem atrair votos suficientes para eles próprios constituírem uma solução. Se no Domingo for isto o que acontece, só tem um nome: falhanço em toda a linha. Espero estar enganado.

3 de Outubro de 2015