Em finais de 2009 envolvi-me com o gang do É Tudo Gente Morta. A experiência foi interessante: o meu primeiro blog colectivo, a arquitectura duma casa usada e estimada. Embora o mais novo, tipo mascote, sempre fui bem tratado e ganhei muito. E, ao contrário do sucateiro Godinho, não recebi robalos, mas dois pregados grelhados à beira-mar, um deles sob Canadairs atarefados. Mas como tudo o que é bom sempre se acaba, apercebi-me do que tinha ficado maltratado: este blog.
Depois do fim do ETGM não quis regressar sem limpar a casa. A coisa levou tempo, as teias de aranha eram muitas, mas cá está, de cara lavada. Sim, os blogs já não são o que eram, e os poucos leitores que tinha não virão. Ainda assim, gosto deste cantinho. Voltei.
There are certainly disadvantages on the Apple Store model, but in the near future, with the open Marketplace and the inevitable larger Android market share, which platform will be the primary target of security threats?
Anteontem o nosso Primeiro-Ministro veio aos Estados Unidos dar um seminário à margem do mestrado que Manuel Pinho lecciona na Universidade de Columbia, NY. Não quero fazer nenhum grande debate sobre a política, os políticos ou as energias renováveis. Venho só falar dos números. De um em particular, que o PM aventou e que os media papaguearam sem nenhum enquadramento.
Não cabe aos noticiários fazerem crítica, mas cabe-lhes a eles, isso sim, ajudar os leitores a perceberem o que estão a ler. Confesso que não lido com montantes dessa ordem, mas 100 milhões de euros não me pareceram muito… Fui ver o que dava para comprar com esse dinheiro: a terceira travessia do Tejo custaria 2.000 milhões de euros, portanto, nada de pontes no Tejo. Um TGV para Espanha, custa ao estado (que só paga 42% do total) 5.940 milhões de euros, a preços de 2009, nada de comboios. Um novo aeroporto são só 4.900 milhões de euros; também não dá, embora segundo os senhores do JN no artigo referenciado, a terceira travessia é uma pechincha, só 145 milhões, mas prefiro confiar no valor anterior, que vem do próprio governo e foi escrito por extenso.
Certo, dirão, mas isso são investimentos a muitos anos, para durarem uns, vá lá, cinquenta anos. Logo, 50 x 100M€ = 5.000 milhões de euros! É comparável… a poupança no petróleo dá para um daqueles investimentos! Afinal não é assim tão pouco! Vejamos só um último valor, antes de largarmos o assunto… Que significam 100 milhões de euros em poupança petróleo, no panorama total das coisas?
Ora bem, em 2009, o custo médio do barril de Brent, foi de $62.7/barril. A taxa de conversão média foi de 1.39, logo o preço médio por barril dá €45. Agora o consumo: segundo o WolframAlpha, a estimativa do consumo de petróleo para 2009 foi de 272.181 barris por dia. Logo, num ano, gastou-se €4.470.572.925, i.e, cerca de 4.500 milhões de euros. O que se poupa é 2.2% do total do consumo anual.
Claramente, um título que dissesse 2.2% era menos chamativo. Sei mais informação 2.2% por ano não parece ser nada de milagroso. Contando com o restante das importações energéticas, em 2008, o saldo da balança era de -8.000 milhões de euros, logo a percentagem é menor considerando toda a energia que importamos. Confesso, no entanto, não sei o investimento que foi necessário para garantir essa poupança de 100 milhões de euros anuais, portanto esses 2.2% até podem ser um bom negócio. Estas minhas contas todas, acabaram por não dizer o fundamental: é ou não bom o negócio que está a ser feito. Não tenho os dados para dizer se sim, senão, mas a questão que quis deixar aqui foi a de que os números só por si dizem pouco, há que os enquadrar (que é diferente de massajar) e os jornais deviam-no fazer decentemente.
Em 1936, nos jogos Olímpicos de Berlim, Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro no atletismo, tendo triunfado na mediática prova dos 100m. A sua vitória estragou os planos nazis de fazer o pleno das vitórias arianas, muito embora os alemães tenho ganho mais medalhas que qualquer outro país, sendo que os Jogos foram considerados um sucesso pelo regime. Hitler não terá cumprimentado Owens, mas mais tarde o atleta afirmou que quando passou em frente ao Führer, este ter-se-à levantado e acenado, tendo Owens respondido de igual forma. Hitler terá deixado de cumprimentar quaisquer atletas a seguir ao primeiro dia, quando tinha saudado apenas os atletas alemães; o comité olímpico terá pedido a Hitler para cumprimentar todos ou nenhum, sendo que Hitler escolheu a segunda hipótese. Quando Owens ganhou, Hitler nem se encontrava no estádio.
Owens, foi o primeiro atleta negro a receber um patrocínio, quando Adolf Dassler, fundador da Adidas, o convenceu a usar sapatilhas da sua marca. No salto em comprimento, o alemão Luz Long, que acabou por ficar em segundo lugar a seguir a Owens, sugeriu-lhe, quando Owens já tinha invalidado dois saltos da classificação, fizesse uma marca na pista uns centímetros antes da marca, para não arriscar demais. Na final, quando Owesn ganhou, o primeiro a cumprimentá-lo foi Long. Owens terá continuado a corresponder-se com a família de Long após a morte deste, na Segunda Guerra Mundial. Também na Berlim nazi, certo é que menos opressiva para a recepção da olimpíada, Owens pôde usar os transportes públicos livremente e entrar em bares e noutros lugares públicos sem problemas. Como é visível no video acima, a sua vitória foi efusivamente celebrada e nas ruas pediam-lhe tantos autógrafos que Owens se queixou da fama. Ao regressar aos Estados Unidos, houve uma parada na Quinta Avenida em Nova Iorque em sua honra, mas na subsequente recepção no hotel Waldorf-Astoria, Owens teve de tomar o elevador de serviço. Continuou a ter de andar na parte de trás do autocarro e nem Roosevelt, nem Truman o convidaram à Casa Branca. Sem patrocínios ou outros contratos phelpianos, Owens terá ganho algum dinheiro a correr contra cães e cavalos.
“Hitler não me desprezou – foi Roosevelt quem o fez. O presidente nem um telegrama me enviou”.
João Baptista dos Santos nasceu em Faro, no ano de 1843. Eu nunca tinha ouvido falar dele. Não é que haja falta de anormais na nossa praça pública, pelo que é concebível que um ou outro escape, no entanto, a este senhor não faltaria fama por entre os mais jovens, caso dele tivessem tido conhecimento no ano certo da escolaridade obrigatória. É que João Baptista dos Santos possuía, entre as duas normais, uma terceira perna. Uma aberração, ou mera curiosidade, consoante as opiniões, a verdade é que o homem nasceu com mais um membro (que na realidade eram duas pernas atrofiadas fundidas). A perna não era funcional, embora pudesse ser manipulada e, muito embora nunca tenha sido operado, Baptista dos Santos era capaz de andar a cavalo, amarrando a sua terceira perna a uma das coxas. Ainda assim, por curioso que este fenómeno fosse, o que suscitava mais interesse era o facto de João Baptista dos Santos sofrer da raríssima diphallia. E, ao contrário da sua terceira perna, o segundo pénis era perfeitamente funcional. Segundo o fotógrafo Charles DeForest Fredricks, que registou a única fotografia conhecida de João Baptista, “basta a visão de uma mulher para excitar as suas propensas amorosas. Ele funciona com ambos os pénis, acabando com um e continuando com o outro.” Tendo sido oferecido um generoso contrato para se exibir em circos franceses, João Baptista dos Santos recusou a oferta, preferindo mostrar-se apenas em círculos médico-científicos.
Mas como uma curiosidade se torna ainda mais interessante quando outra curiosidade se associa a ela, cá vai a segunda parte desta diplopia. Embora não haja provas, reza a história que João Baptista dos Santos terá tido um affair, em Paris, com a cortesã Blanche Dumas. Dumas não só tinha também uma terceira perna, como sofria de duplicação vaginal, que, à semelhança do seu contraposto luso, eram perfeitamente funcionais.
*É sabido que qualquer terrinha americana tem a melhor loja de gelados do mundo e, na Nova Inglaterra, os melhores lobster rolls do universo. Aqui também eu faço uso da hipérbole para dar ao Guincho um título que não precisa. E para os que não gostam dos desportos anemoaquáticos, o melhor do Guincho é a raridade com que proporciona o acolhimento a que todos se julgam devidos.
Um bom verão a todos. via
Tenho andado um pouco distante destas paragens, por variadas e diversas razões. Por trabalho (publiquei o meu segundo artigo, embora tenha sido fruto de trabalho já passado), por algumas viagens e ausências e ainda por estar envolvido nuns e noutros projectos. Por agora fico-me por aqui, para dizer que não está devoluta esta casa, e também para dizer que tenho usado mini-blog, companheiro deste para a vida mais agitada em scheeko.tumblr.com.
A militância pela militância, embora por vezes poderosa, tem pouco de interessante. O vazio do ateísmo é tão vazio como o vazio religioso, sendo que o vazio do ateísmo é solitário, enquanto que o religioso é acompanhado.
Haverá, certamente, muitos tipos de ateísmos e o meu provém indubitavelmente da evolução do pensamento humano sobretudo devido ao avanço da ciência. E sendo racional, tem pouco a ver com o pragmatismo e hiperrealismo que muitos lhes querem atribuir.
O ateísmo é apenas uma face de uma atitude que se quer muito diferente de um mero prospecto em branco. A palavra fundamental para descrever o ateísmo que defendo é evolução. A mesma de Darwin, que se manifesta no mundo natural, entre as espécies, mas que também opera a nível de consciências, sejam elas individuais e colectivas, e a nível de dinâmicas comportamentais que emergem de sistemas complexos. A espécie humana, a certa altura, parece-me, precisou de lidar com as capacidades que o seu desenvolvido cérebro lhe oferecia. Parte dessas capacidades exigiam a obtenção de explicações para o mundo que a rodeava e o mecanismo evolutivo que permitiu colmatar as falhas de processamento mental foi o da criação de uma solução satisfatória e transitória chamada Deus. Como o período de transição é grande — é preciso que ocorra o desenvolvimento de instrumentos capazes de auxiliar na procura de outra solução — há espaço para que desabrochem comportamentos e atitudes derivadas.
O ateísmo que defendo é, portanto, fruto de uma evolução dos tais instrumentos, que embora não dêem respostas definitivas, vão no seguimento de uma estrutura formal de desenvolvimento de conhecimento e permitem a formação de conjecturas, ou talvez apenas educated guesses.
O ateísmo como evolução, é-o na forma imaterial, isto é, não é fruto das pressões evolutivas ambientais por si só — o cérebro humano terá evoluído muito pouco ou nada nos últimos milénios, — mas fruto da evolução da estrutura de pensamento humano, dos desenvolvimentos colectivos no domínio do conhecimento objectivo e na auto-educação da consciência.
O ateísmo que defendo não pretende a erradicação do conhecimento humano empírico. Nem todo o conhecimento é científico e os milénios de religião têm-nos ensinado sobre a nossa própria natureza, as nossas necessidades. A evolução será feita com a selecção das aprendizagens aí obtidas.
O ateísmo reconhece a necessidade que o espírito tem do metafísico e do espiritual. Isso não implica a presença do sobrenatural, mas implica a necessidade da existência da dúvida, da dúvida subjectiva, pessoal e contemplativa.
O ateísmo reconhece a necessidade lógica e racional do funcionamento do mundo, embora nisso esteja previsto a emergência de padrões de complexidade que permitem a consciência, um elemento, por agora, metafísico, que lida com as particularidades da essência humana, ou a níveis mais básicos, dos animais.
O ateísmo reconhece a inexistência de um Bem ou de um Mal universal, mas apenas de convenções humanas, em que, por exemplo, o Bem humano é convencionado como o conjunto de acções que promovem a vivência feliz e segura da maioria dos elementos duma comunidade. A prevalência de uma ligeira tendência para a bondade da sociedade emerge da dinâmica complexa da coexistência dos indivíduos, em que as sociedades globalmente boas tendem a ser mais estáveis e eficientes do que as más. Penso que isto não está provado cientificamente, trata-se apenas de uma teoria minha; faço ainda notar que existem e existiram sociedades globalmente más (nazis, estalinismo, o Iraque de Saddam etc.), temporariamente estáveis, mas cuja estabilidade foi de curta duração, quando comparada com as sociedades globalmente boas, maioritárias no mundo actual. Aí se operou selecção natural e evolução.
O ateísmo reconhece a existência do desconhecimento humano, tal como a religião, mas não reconhece a existência de um conhecimento supranatural. Isso implica a presença da tangibilidade do desconhecido, não pela sua inacessibilidade supranatural, mas precisamente por ser natural e se encontrar, nas escalas do universo, a um degrau acima, ou degrau abaixo. No entanto esse desconhecido pode e deve ser sempre formalizável como objecto de estudo, ainda que meramente potencial, já que não existem, ainda, os instrumentos necessários para o colocar como problema em toda a sua integridade.
O ateísmo concede mais direitos e deveres ao homem, sendo que ambos coincidem no conceito de responsabilização. Ao homem é-lhe retirado o comando divino, sendo que lhe cabe a ele mesmo o destino.
O ateísmo é a promoção da dúvida existencial quantificável, procurando respostas que obedecem aos mesmos critérios da ciência e aguardando serenamente quando essas respostas não são possíveis numa dada altura do tempo.
O ateísmo implica o reconhecimento da materialidade e insignificância humana, rejeitando o antropocentrismo das religiões, mas celebrando as capacidades que possuímos. Não implica um desespero pela inexistência de propósito sobrenatural capaz de responder à questão da existência humana, mas sim a responsabilização de cada um, individual e colectivamente, na construção de mecanismos capazes de nos tornar aptos a lidar com os cérebros que temos, que abominam a ausência de causalidade.
O ateísmo em si não é nem pode ser o princípio de nada, nem o fim a alcançar. O ateísmo é apenas um passo na evolução humana, nomeadamente no raciocínio e na consciencialização das nossas capacidades e da nossa posição no universo. Como evolução é e será sempre, resultado do que existe para trás e nunca poderá ignorar isso.
É este o ateísmo que quero*
*exceptuando se me tiver esquecido de alguma coisa