Todos sabem que as tentativas de implementação de utopias no mundo real acabaram invariavelmente mal. O mais flagrante dos exemplos será o Comunismo, que em teoria é muito bonito. A utopia é, por definição, utópica, portanto qualquer um que se dedique a tentar criá-la falhará rotundamente. E é por isso que o mundo não é perfeito; e é por isso que só sistemas não utópicos é que funcionam.
Deixaremos então a utopia para a literatura? Eu defendo que quase todas as ideias utopicamente boas têm um papel fundamental na nossa construção como sociedade simbiótica. O que quero dizer é que apesar de as utopias serem irrealizáveis, todos nós somos melhores seres humanos se vivermos as nossas vidas e construirmos os nossos objectivos tendo como ideal subjacente uma utopia, nunca esquecendo que ela é o que é, e portanto, utópica. São sonhos pensados, cujo objectivo é ajudar a traçar caminhos, a elevar padrões e cuja existência, deve ter-se sempre presente, é volátil.
No outro dia fui correr praia fora. Ao fim de algum tempo, cansado, com calor, sentei-me numa esplanada para beber algo refrescante. Estava a olhar para lista e vejo o nome Mazagran. Até que enfim! Alguém que ainda nos consegue servir um mazagran sem que se tenha de explicar como é que é feito! Era isto mesmo que ia escolher até que olhei para o preço: €1,75. O quê? Quem é que vai dar quase quatrocentos paus por um copo com um café aguado fresco com uma rodela de limão? Está tudo louco ou quê?
Como toda a gente sabe, este caso não é único. As esplanadas, cafés, restaurantes e afins, pelo menos aqui para os lados da Capital do Império (lembro-me que há uns meses, no Porto, os preços eram bem mais baixos) andam todos a praticar preços incomportáveis. Mas como toda a gente também sabe, apesar das queixas dos comerciantes, as esplanadas e restaurantes estão sempre cheios. Há gente que se dá ao luxo de pagar estes preços por ninharias. E essa gente é muita. O que me faz questionar sobre o seguinte: se há crise, como é que as pessoas gastam dinheiro assim? Será que não têm dinheiro contado no fim do mês? E se têm, não seria nestas coisas supérfluas que deveriam cortar? Das duas uma, ou a falta de dinheiro não é assim tão grande (e digo que nestas esplanadas se vêem pessoas de várias classes sociais), ou então estas não são coisas supérfluas, o que também é preocupante, porque se não cortam aqui cortam noutras coisas, como por exemplo livros.
Eu acho que os preços, tal como estão, são incomportáveis. Mais tarde ou mais cedo isto vai rebentar. Estamos a ser roubados. Provavelmente os donos dos cafés dirão o mesmo, portanto não sei bem quem é o ladrão, mas as coisas tal como estão, são impossíveis de manter. Detesto ser ave agoirenta, mas penso que as Clark´s e cia. foram apenas o princípio. Um exemplo é as casas que se vê para alugar/vender; eu vivo na zona das segundas casas/casas de fim-de-semana – Cascais – e de um momento para o outro, a quantidade de placas a dizer Aluga-se disparou. Porque será?
Hoje estava a ouvir a TSF quando, de repente, aos meus ouvidos chegam as palavras de uma anúncio da Galp – Energia Positiva! Trata-se de um novo produto, um cartão em que os pais creditam uma certa quantidade de dinheiro para os filhos poderem gastar em gasolina. Assim, alegam, há mais controlo; e tudo isto ao som de um adolescente que regozija à medida que a quantia no seu cartão é aumentada pelo seu querido Pai. Antigamente pedia-se a bênção, agora é a gasosa.
Isto leva-me a questionar a tão falada crise. Ou não há crise, ou os promotores de Marketing da Galp são idiotas. Ou então são os tugas, os idiotas. É que o simpático adolescente do anúncio não se dá já por contente em ter ao seu dispor uma viatura (muito provavelmente por obra e graça do trabalho das entidade parentais), bem como alguém que pague os seguros, as revisões, as inspecções (isto se tiver o azar de ter recebido um carro com mais de 4 anos), as lavagens, os pneus e as portagens, mas ainda se dá ao luxo de receber dos pais o dinheiro da gasolina. Ou os jovens de hoje não têm dignidade, ou os pais estão tolos.
A liberdade conquistada no 25 de Abril não é sinónimo de libertinagem, nem de irresponsabilidade e não é afogando os petizes com bens materiais que se podem colmantar falhas que os pais outrora tiveram. Que se queira o melhor para os seus filhos, é perfeitamente legítimo e mais, deveria ser uma preocupação de todos os pais. Mas este objectivo não pode fazer com que numa nação já pouco responsável, sejam criados ainda mais irresponsáveis – irresponsáveis que nunca sofreram na vida por nada.
A Crise é Real
A crise existe. E é grave.
Este post segue como um desabafo. Eu faço parte da Associação 100ideias; é uma associação juvenil cultural, sem fins lucrativos, do concelho de Cascais (podem dar uma vista de olhos em www.100ideias.org). Temos um projecto para a baixa de Cascais com um duplo objectivo: animar e dinamizar o centro pedonal da cidade e ainda promover e debater a nova música portuguesa. Assim propomo-nos a organizar um ciclo de concertos durante todos os fins-de-semana do mês de Setembro, no Largo de Camões e no Parque Palmela, acompanhados de conferências semanais e demonstrações no Centro Cultural de Cascais. A localização é excelente, mais central não poderia ser. Os pequenos comerciantes só ficam a ganhar. Os ouvintes e os transeuntes também. Da prestável Câmara Municipal já temos o som e a autorização. As bandas, seleccionadas no projecto online iniciado em Fevereiro na nossa página, são de todo o país e, embora ainda com pouca visibilidade no panorama musical nacional, têm de ter qualidade naquilo que fazem. Propomo-nos também a ajudá-las no seu percurso. Conferencistas, já temos alguns confirmados, assim como muitas das bandas.Só nos falta pouca, coisa; uma vez que este projecto pretende ajudar as bandas a promoverem-se não serão pagas para tocar. Mas como também ninguém gosta de ter de pagar para tocar, queremos arranjar patrocinadores para a alimentação, estadia e outras despesas que as bandas possam ter. Não será nada por aí além.
E porque é que eu digo que a crise é Real? Patrocinadores só temos um: o Beefeater´s em Cascais, dispõe-se a alimentar os músicos. Mais ninguém. Destes todos, Lois, Ballantines, Avis, Apple, IPAE, AEIOU, Siva, Entreposto, IOL, Associação dos Comerciantes de Cascais, Sacoor, Citroën, Honda, Peugeot, EDP, Sony, Siemens, Páginas Amarelas, Scott Urb, Corte Inglés, Schering, Somague, Mota-Engil, Galp, Bp, Shell, Salvador Caetano, Fiat, Ford, Mitsubishi, Nabisco, Lipton, Cintra, Panrico, Olá, Dan Cake, Kellogg´s, Schweppes, Sumol, NovaDelta, Danone, Nestlé, Triunfo, Compal, UNICER, CENTRALCER, Coca-cola, Pepsi, DHL, Hard Rock Café, Caves Aliança, Bacardi Martini Portugal, Vizzavi, Telepac, TVCabo, Clix, Jazztel, PT, ONI, Novis, Optimus, Vodafone, TMN, Portugalia Airlines, Valentim de Carvalho, Diapasão, IOP Musica, Salsa, Casino Estoril, HP, Compaq, Toshiba, Chip7, Yorn, ninguém tem um tusto. Coitados. A vida está difícil…
Ah! Esqueci-me de dizer, os donos do Beefeater’s são ingleses. Curioso, não é?
Descobri o site www.bookcrossers.com. Trata-se de um local onde as pessoas se inscrevem e depois registam os seus livros. A cada um desses livros é dado um código de identificação – BCID – e depois é-nos proposto o seguinte desafio: cole uma etiqueta no livre a dizer que é um livro viajante, que pretende deambular de mão e mão e que cada novo dono deverá ir ao site, introduzir o número de registo do livro e, caso queira, fazer comentários ao que leu. Depois só se pede que o deixe esquecido algures, para que possa seguir o seu caminho.
Penso que é uma ideia bestial. Não que considere que é desta forma que se vai resolver os problemas culturais do mundo, até porque geralmente quem tem a mente aberta a este tipo de actividades é já uma pessoa predisposta para a cultura. Mas há certos aspectos interessantes: em primeiro lugar, algo deste tipo e com esta envergadura só poderia ser feito com a internet de hoje, e se há muitos que apregoam o fim do papel como suporte de ideias e escritos, penso que esta mistura livros/novas técnologias só será benéfica para esta relação que não se quer dicotómica. Acho também que este tipo de relação livro-pessoa-livro é bastante íntima e sedutora e pode criar laços de cumplicidade não só entre pessoas, como também com os próprios livros. É bom para a leitura, dos que já gostam de ler e dos que podem, por um acaso desde há muito ocultado pela sociedade moderna, passar a gostar de ler.
Eu já estou a preparar a pequenina, mas belíssima peça de teatro de Alessandro Baricco, Novecentos, para ser largada por Lisboa.
Há alturas em que nos dedicamos ao pensamento de questões mais
melindrosas. Questões filosóficas, problemas da vida, nossa e
do mundo, cujo pensar pode ser útil para toda a sociedade. Quando me
dedico a esse tipo de pensamento, dou comigo a questionar-me quantas pessoas
estarão neste momento a pensar sobre estes assuntos. Porque serei eu
original? E quantas pessoas em tempos passados terão pensado nestes mesmos
problemas, com as óbvias implicações de enquadramento socio-cultural?
Será que valerá a pena? Será que eu farei a diferença.
Provavelmente não. A estatísitica diz-nos que não. Mas
é isso que nos torna humanos e não formigas. Não somos
seres completamente sociais e o nosso processo de auto-construção
é muito importante. O tempo que cada um gasta neste tipo de pensamento
varia muito de pessoa para pessoa, mas o que é relevante é que
todos nós precisamos de nos confrontar com problemas maiores que nós
e muitas vezes incomportáveis. Ainda bem, pense-se. Mas lembremo-nos
que sem trabalho, não há boa ideia que dê frutos.
“Some people walk in the rain, other just get wet”
Roger Miller
Tacanhos
São tacanhos, os tugas. No outro dia, falava com o pai de um amigo meu,
que me dizia: "uma vez, estávamos lá em Espanha a acampar
e levei o Luís a um restaurante. Na altura ele comia que se fartava e
mal acabou o prato o dono do restaurante abeirou-se dele e perguntou-lhe se
ele queria mais. Claro que sim! Encheu-lhe o prato e não cobrou mais
por isso." Ganhou um cliente fiel e toda a sua comitiva (leia-se família,
que passou as férias a ir lá comer). É este tipo de mentalidade
que nos falta. Não é que sejamos incompetentes, nem estúpidos.
Somos simplesmente burros, tacanhos e não há reforma alguma que
vá funcionar, não há aumentos de produtividade se não
se mudarem as mentalidades. Há que ter visão e o exemplo tem de
vir de cima.
Eu comecei agora nestas coisas dos Blogs. Não posso dizer que tenha sido por moda: só agora é que soube disto. Na verdade já tinha ouvido falar do site da Blogger há bastante tempo, mas os únicos Blogs que na altura lá vi eram diários inúteis (para mim, claro) de adolescentes americanas.
Depois descobri a exponencialmente crescente comunidade bloguista portuguesa onde muita coisa interessante é discutida. Desde que cá cheguei, além dos blogs pessoais e intransmissíveis tenho visto acesos despiques políticos e sobretudo uma auto-análise dos blogs e seu movimento. Como ainda sou novo nestas andanças, pouco sei dizer, mas relato os anseios de novato:
Será que alguém quer ler o que eu escrevo? E mesmo que queiram, como é que o vou encontrar? Ahh! isto é uma futilidade, não vai para aqui. Para quê comentar o Berlusconi. De certeza que já 1167 bloguistas o fizeram e deve haver pelo menos um com opinião muito parecida à minha. E porque é que na maioria dos posts dos outros bloguers há referências de parte a parte. Afinal isto não é apenas um diário público de manifestações puramente narcisistas! Não! No fundo é um grande campo de batalha onde cada um dispõe do seu quinhão de terra para esgrimir os seus argumentos!
Vejamos… no que sai do meu…
XLZ43.psi2
crónica surrealista sobre o destino do mundo
original em www.100ideias.org
"Perhaps
you will not only have some
appreciation of this culture; it is even possible
that you may want to join in the greatest adventure
that the human mind has ever begun."
Richard P. Feynman
Todos dizem que está mal. Tudo está mal, especialmente em Portugal. E os Portugueses dizem-no primeiro. É preciso fazer isto e aquilo, remendar acolá, reformar aqui, renovar ali. Mentalidades novas! Sim, todos aqueles que antes o proclamaram, ou se suicidaram, ou não conseguiram implementar aquilo que afirmavam. Tivemos e temos bons poetas, tivemos e temos bons escritores. Tivemos e temos bons pensadores, cientistas e juristas. Fazemos revoluções sem mortos, descobrimos caminhos, mas… e agora? Todos os dias pergunto isto, como todos antes de mim o fizeram e disseram: agora é que vai ser, é só passar este momento de crise. Não. ( Já agora, quem não leu os Lusíadas pode fazê-lo aqui ) Não. E não. Vamos ficar a olhar? Vamos.
Agora já pouco choca. Tirando o absolutamente horrendo, o desumano, já pouco choca. Não há vergonha, pudor, brio ou amor-próprio. Só amor ao próprio. Aristófanes disse um dia que não vale a pena zombarmos dos insignificantes; o poeta faz mira aos que têm o poder. Mas nós não aprendemos. A minha conclusão é de que os portugueses são, por natureza burros. Não é casmurros, teimosos, ou maldispostos: é mesmo burros. Fazemos sempre os mesmos erros, vezes e vezes sem conta desde há 850 anos. É verdade. Dizem que não trabalhamos. É verdade. Poucos trabalham e geralmente os que trabalham empregam mal os seus recursos. Só alguns se escapam a este destino. Antes de mais quero convocar uma greve. No próximo dia 1 de Julho, das 8h30 às 18h00, peço a todos que parem tudo aquilo que estão a fazer e que, bem, trabalhem. Sim. Uma greve de trabalho. Original.
E porque é que é importante trabalhar? Para sermos os melhores da Europa? Para termos mais telemóveis? Para integrarmos o pelotão da frente? Para sermos mais industrializados? Para termos mais riqueza? Para sermos os melhores? Não. Ninguém nos obriga a ser do 1º mundo. Se todos forem felizes num país do terceiro mundo, tanto melhor – cá se arranja, certamente. Trabalhar – só para uma coisa: para não roubar. Para sermos pessoas honradas e decentes. Simplesmente isso: não roubar.