25 de Outubro de 2012

Antes de começar, dois pontos:

  1. Claro que não é preciso ter curso para se ter sucesso na vida. Por experiência e pelo que tenho visto no mundo, a dedicação, persistência e capacidade de trabalho são factores mais importantes do que a formação académica per si. É certo que determinadas profissões necessitam de conhecimentos técnicos que geralmente se obtem através dos meios educacionais convencionais e que quem tem curso superior, estatisticamente, tem melhor condições de vida do que os que não possuem curso superior. Mas não é por termos curso que nos tornamos melhores seres humanos.

  2. De forma também pouco científica, conjecturo que o pior que se tem passado na educação em Portugal não é a má qualidade dos conteúdos e conhecimentos que os alunos adquirem (embora isso seja um dos problemas), mas sim a forma como os adquirem, juntamente com a progressiva degradação da valorização do trabalho e da responsabilidade.

Posto isto, comecemos. Vinha no Público, Visão e outros que tais, uma notícia acerca dum novo livro: “Faz o curso na maior – Estuda o mínimo, vive ao máximo”. Fiquei nervoso assim que li a entrevista aos autores e mais ainda quando passei os olhos pelo capítulo que a LeYa disponibiliza livremente. Não li mais, já que o livro só saiu recentemente, mas, mesmo que pudesse, não queria que os autores ganhassem dinheiro meu à custa deste livro.

É possível que os autores respondessem a esta crítica afirmando que não faço parte do público alvo do livro. No liceu era, para alguns, marrão, na faculdade já nem tanto, e vim fazer o doutoramento para o MIT, a Meca dos nerds. Nunca fui aluno brilhante ou genial, mas fui muitas vezes muito bom aluno. Isto tudo para dizer que gostava de estudar, tinha os meus métodos, tinha relativamente boas notas. Nunca fui anti-social, mas também não era das pessoas mais sociais (em que muito social, na minha interpretação lata do livro, é aquele que vai às festas todas). Simplesmente não faz parte do meu feitio. Mas ter que estudar, na faculdade, não me impediu de ir a ocasionalmente a festas ou noitadas (cheguei a dar uma cabeçada num porteiro do Kremlin!) ou de fazer outras actividades extra-curriculares que penso terem enriquecido a minha vida.

O livro, cujo primeiro capítulo é narrado pelo Nuno Ferreira, baseia-se num princípio: que a universidade está longe de ser unicamente para se estudar, i.e., há muitas outras coisas para aprender nessa altura da vida e uma grande parte dela está fora das salas de aulas, fora dos livros. Para se alcançar isto, oferece um método para todos aqueles que ou não gostam de estudar, ou que pensam que gastam muito tempo a estudar: a universidade é um sistema com regras e como todos os sistemas, pode ser manipulado e suas regras dobradas. E a promessa é lançada (realce meu):

Eu também ouvi tudo isso e a todos respondi da mesma forma: com resultados. É possível conciliar sucesso social com sucesso académico. Não tens de ser um cromo para tirar um curso com boas notas. Não tens de abdicar de nada. Tens apenas de te organizar e de alterar a forma como estudas. Se gostas de curtir à grande vais ter de estudar à grande também. E vais ver que não custa muito. Não importa o “quanto” estudas, mas sim o “como” estudas.

O Nuno atira-nos com as suas credenciais académicas e profissionais para dizer que sim, que é possível: não tens de abdicar de nada. O livro é escrito num tom coloquial, amigável, tu cá, tu lá com o universitário que o estará a ler. “Curtir”, “chato”, tudo palavras apropriadas para os agitados tempos modernos de quem não pode pegar em dicionários.

Assisti a metade das aulas da cadeira e comecei a estudar cinco dias antes do exame. Percebi que os exames dos anos anteriores eram todos muito semelhantes e por isso apostei que o do meu ano não fugiria muito ao estilo. Concentrei-me nas perguntas que tinham saído mais, mecanizei respostas e acabei por ter 18 valores.

É possível passar às cadeiras sem ter de estudar durante o semestre. Sim, é possível “deixar tudo para a última hora” ou “apanhar o comboio a meio da viagem”. O segredo está no método de estudo e na definição de prioridades.

Lembra-te que não tens de saber tudo. Tens apenas de saber responder às perguntas do exame. E isso faz toda a diferença.

O Nuno diz ter o segredo, exemplificado acima – há que saber manipular o sistema. A universidade “mede” o nosso desempenho através de exames portanto ter sucesso na universidade depende única e exclusivamente de termos boas notas nos exames. E para isso, em larga medida não é preciso saber a matéria testada nos exames, é apenas necessário acertar nas respostas. E como os professores são, em larga medida, preguiçosos e dão sempre variações do mesmo exame, basta pegar em exames antigos e há uma grande probabilidade de sabermos aquilo que vai ser perguntado. Assim podemos passar o resto do semestre a enriquecer a nossa vida com outras coisas fundamentais. Para quê gastar tempo em coisa chatas e maçadoras?

Além disso, uma boa parte dos professores universitários não sabe ensinar. Não sabem dar aulas e não te vão ajudar durante as aulas. Não porque eles não queiram, mas porque simplesmente não conseguem. Muitas aulas não são mais do que 90 minutos em que o professor enumera aquilo que escreveu num powerpoint ou se limita a debitar monólogos que podes facilmente encontrar num livro ou numa sebenta.

É verdade, há muitos professores que são maus professores. Muitas cadeiras que não têm interesse nenhum, cursos inteiros com qualidade zero. Então para que servem? Em muitos casos para nada – o Nuno tem razão. Mas tudo isto deixa-me triste. A universidade deveria ser um espaço de comunhão de conhecimento, onde os alunos tivessem gosto em explorar coisas novas, onde pudessem ter relações produtivas com os seus professores e instrutores, onde pudessem integrar projectos interessantes, onde tivessem espaço para expandir a sua criatividade e ganhar ou expandir a sua sede de conhecimento.

Como professor, o que esperava do Nuno é que estivesse a contribuir para eliminar os defeitos que identifica na vida académica e a tornar a universidade num sítio melhor.

E hoje tenho muitos alunos que conseguem passar às cadeiras que eu lecciono sem ir às minhas aulas. Eles sabem o programa e conhecem a bibliografia. Estudam, vão a exame e passam.

Infelizmente o Nuno diz que para muitos alunos ele próprio tem pouca utilidade na sala de aulas; presumimos que tendencialmente cada vez menos se o seu livro tiver sucesso. Infelizmente o Nuno gasta o seu tempo a escrever um livro destes e não a criar aulas a que os alunos queiram não faltar. E como qualquer livro de auto-ajuda faz grandes promessas, mas o quase milagre – não tens de abdicar de nada – não é simples de alcançar – há que trabalhar:

Ninguém é licenciado sem trabalho (a menos que sejas um ministro com grande experiência profissional e capacidade de influência para conseguir equivalências a umas quantas cadeiras).

Tendo em conta que o Nuno é professor na mesma prestigiada instituição que atribuiu o grau ao ministro Relvas, talvez um bocadinho de decoro fosse apropriado. Ainda assim, sendo que muitos dos conselhos do livro passam por tentar dar a volta ao sistema, fiquei surpreendido que àquela frase não tenha seguido ”mas se tiveres essa capacidade de influência, usa-a!".

Em parte esse trabalho materializa-se em usar o trabalho dos outros:

Acabei por fazer a cadeira com 13 valores estudando apenas pelas fotocópias dos acetatos e por uns resumos que me arranjaram. Nem toquei no livro.

Raramente estudava pelos livros recomendados, porque sabia que alguém já os tinha lido e havia algures uns apontamentos resumidos com a matéria que era preciso saber.

Ou seja: nem todos podemos ser como o Nuno. Há que haver uns tansos que providenciem os resumos. Mas não se preocupem, o Nuno advoga a partilha de informação em todas as direcções, inclusive algumas que, mais uma vez, se conseguem manipulando as regras do sistema:

Quando os professores não deixam levar o teste para fora da sala, podes sempre tirar uma fotografia discretamente. Se chumbares, vais ter o enunciado para estudar. Aproveita e partilha a foto com os teus amigos (não te esqueças de tirar o som, para que o teu professor não oiça a máquina a disparar…).

Nos tempos que correm, com elevados níveis de corrupção e da manipulação do sistema que é o nosso mecanismo estatal, não só é de mau tom promover a chico-espertice, como, em minha opinião, é irresponsável e anti-patriótico. Como se diz aqui nos EUA, a apologia da jerk ethic em vez da work ethic.

Há coisas que o Nuno diz que são verdade. Já falámos da má qualidade de muita da oferta académica. E é verdade que a universidade é um local privilegiado para estabelecermos relações importantes na nossa vida, seja a nível pessoal, seja profissional. Há quem leve isso muito a sério: aqui nos Estados Unidos vejo pessoas que pagam mais de 50.000 dólares por ano de propinas para, entre outras coisas, terem acesso a redes de contactos que por certo lhes tornaram a vida mais fácil no futuro. Mas há coisas que o Nuno diz que são, na minha opinião, profundamente falsas:

Mas a esmagadora maioria dos cursos (Direito, Gestão de Empresas, Engenharias, Ciências Sociais) podem ser feitos começando a estudar algumas semanas ou mesmo dias antes do exame.

Claro que isto depende da definição do que é “fazer um curso”. Se é chegar ao fim e ter um diploma com uma nota satisfatória, sim, talvez seja possível em muitos casos. Mas se fazer um curso for ganhar um conjunto de conhecimentos e métodos de interagir com o mundo à nossa volta, mais ao espírito da definição de Universidade, então a coisa torna-se mais difícil. O meu curso é o de Física e garanto-vos que não sabem nada se só estudarem uns dias antes dos exames. Mais, basta que o modo de ensino mude um pouco para o conselho ser inútil: se os professores derem trabalhos todas as semanas, deixa de se poder estudar só na véspera do exame. Outro exemplo (especialmente eficaz em disciplinas que não ciências exactas): um professor que forneça aos alunos, antes do exame, sete perguntas, três das quais saem na prova. Claro que um aluno pode tentar arriscar, e só preparar três ou quatro das respostas, mas aí a probabilidade de ter nota negativa aumenta muito. Se as perguntas forem bem desenhadas, então os alunos ao prepararem-se terão de estudar toda a matéria (o que não quer dizer que isso não possa e deva ser feito de forma eficiente) e não interessam nada os esquemas para se tentar obter os enunciados. Mas voltando à questão do que é fazer um curso, para que serve a universidade. Se a função das universidades for apenas dar canudos… para quê existirem? Doutro livro:

Some say we [the United States of America] couldn’t have reversed the consequences of globalization and technological change. Yet the experiences of other nations, like Germany, suggest otherwise. Germany has grown faster than the United States for the last 15 years, and the gains have been more widely spread. While Americans’ average hourly pay has risen only 6 percent since 1985, adjusted for inflation, German workers’ pay has risen almost 30 percent. At the same time, the top 1 percent of German households now take home about 11 percent of all income — about the same as in 1970. And although in the last months Germany has been hit by the debt crisis of its neighbors, its unemployment is still below where it was when the financial crisis started in 2007.

How has Germany done it? Mainly by focusing like a laser on education (German math scores continue to extend their lead over American), and by maintaining strong labor unions.

The Limping Middle Class, Robert Reich

E agora, a teoria subjacente:

Quem aplica o conceito 80/20 na sua vida, seja a nível pessoal ou profissional, consegue melhores resultados com menos esforço (…).

O que o princípio 80/20 diz é que os ganhos marginais requerem grandes investimentos. E é certo que na maioria dos casos é pouco ou nada eficiente tentarmos o perfeccionismo, gastando muitos recursos para ganhos muito pequenos. Mas este princípio é fácil de ser mal compreendido e manipulado, um bocadinho à semelhança daquelas historietas do Einstein ser mau aluno, e por isso qualquer pessoa pode ser um génio, ou de que o Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg desistiram dos cursos, por isso estes não servem para nada.

O Cristiano Ronaldo era apanhado no ginásio à meia-noite a dar toques na bola com pesos nos pés. Na Facebook, as celebrações que Zuckerberg promove quando atingem marcos importantes são maratonas de programação, não festas de cocktails. Claro que nem todos almejamos ser os melhores do mundo, mas reparem, cada vez que entram num avião aposto que esperam que 100% das peças estejam a funcionar bem e sem defeitos…. não apenas 80%. Além de que os 80/20 aplicam-se em distribuições com invariância de escala. Um exemplo: 20% da população detem 80% da riqueza. Mas de entre esses 20%, 20% deles têm 80% desses 80% da riqueza. Isto é equivalente a dizer que 4% da população detem 64% da riqueza.

Não tens de estudar durante o semestre mas apenas concentrar-te nas quatro semanas antes do exame (20% do tempo de um semestre lectivo). (…) Como podes ver, 80% da tua nota (16 valores) vai depender de 20% do esforço, tempo e dedicação que vais empregar nos teus estudos.

Se aplicarmos a invariância de escala, então significa que se só estivermos interessados em 80% desses 80% só precisamos de extudar 20% desses 20%. Ou seja, consegue-se uma nota de 12.8 valores (13), com apenas 5.6 dias de estudo. Ou para passar com apenas um 10.2 (51.2% do resultado)? Bastam 1.1 dias de estudo (0.8% do esforço)! Parece-vos razoável?

Dou-vos um outro princípio, ouvido por aí, e em directa contradição com o não tens de abdicar de nada: na vida real, para cada coisa que tens ou fazes só podes escolher duas das três características: bom, rápido e barato. Um curso rápido e barato (aqui relativo a investimento de esforço e não monetário)? É quase de certeza de má qualidade.

Em conclusão: eu não tenho uma vida que, ao contrário do Nuno, dava um livro. Por ventura aos olhos de muita gente serei aborrecido e desinteressante e não terei a capacidade de escrever coisas “do caraças”. Por isso não liguem ao que eu digo, leiam o livro do Nuno e aproveitem o tempo livre que ganharam com este método para realizarem os vossos sonhos, para alcançarem os vossos projectos, para… bem, para quê estar eu a dizê-lo, o livro já o faz de forma tão eloquente:

Porque podes aproveitar essas horas em actividades muito mais interessantes do que estudar: fazer desporto, ir à praia, teclar no Blackberry Messenger com várias amigas ao mesmo tempo, beber umas cervejas com os amigos, passar horas no Facebook ou no Youtube, trabalhar para financiar as próximas férias…

25 de Outubro de 2012

  • Joel

    Boa exposição Chico 🙂 Realmente esse senhor é mto bom… por isso temos o país como temos…cheio de chico espertos desse género…

  • deKruella

    Não sei o que se passa com esta gente. Banaliza-se tudo por dá cá aquela palha…

    No outro dia, vi no jornal, que ia ser lançado um livro…com métodos de estudo…pelo que percebi a senhora que escreveu aconselhava a usarem canetas de cor diferente, sublinhar as partes importantes e outras coisas parecidas (sempre fiz isso sem ter que ler livro de instruções).

    Ora, na minha opinhião, aluno que é aluno a sério desenvolve isso naturalmente. Cada pessoa tem o seu método de estudo…depende do que o seu cerebro tem capacidade de apreender. uma pessoa que tenha capacidade de decorar fá-lo outra que só apreende quando comprende estuda de outra maneira.

    Em relação ao livro mencionado e pelo pouco que li no seu post muito me espanta que o teor usado seja oriundo de um professor…mas eles “andem” por aí.

    Não acho que essa técnica funcione. Tem que haver um equilibrio…até porque quando se faz um exame num dia, há outro, dois dias depois…digo eu…que já deixei os estudos há algum tempo!

    Qualquer dia o tal professor Nuno apercebe-se que pode ser demitido…por ausência de alunos à sua aula e depois escreve outro livro sobre a vida de um operador de guindaste…em que para ter sucesso bastará usar a técnica do 20/80 😉

    • Ora aí está uma grande verdade: a existência do professor depende da existência de alunos e um professor que escreve um livro que ensina a estudar só para concluir cadeiras, não é um professor que se interesse por ensinar e proporcionar enriquecimento de conhecimentos, mas sim avaliar alunos. Neste sentido, os professores só existem para passarem e corrigirem exames. É a mesma coisa que um médico dizer: se estiverem doentes, vão à farmácia comprar medicamento. lol

  • Também sou da LEFT no IST e acho que esse gajo é… enfim…

  • ∫nês

    Muito bom!

  • Gostei bastante da sua argumentação. Encontrei o seu parecer no meio de alguns comentários negativos quando analisava a página do livro no facebook e descreveu bem a sua opinião.

    O título do livro por si só é provocador e chamativo e a capa bastante sugestiva de filmes do género American Pie: diversão ao máximo e pouco estudo.
    Basicamente os conteúdos da página do livro dizem o que os turistas escolares, os borguistas e os que são obrigados a frequentar um curso para fazer as vontades dos pais gostam de ouvir. É importante não sermos extremistas com soluções universais para todo o caso e o livro parece-me ser bastante anti-pedagógico.

    Conhecer as pessoas certas e debater sobre questões interessantes que possam fomentar uma possível parceria ou negócio não é algo que se consiga facilmente em festas, porque as pessoas vão às festas para se divertirem e não para comunicarem sobre coisas interessantes.

    Infelizmente é possível concluir um curso sem saber fazer rigorosamente nada. De quem é a culpa? Dos professores que passam alunos que não sabem a teoria ou não conseguem aplicar conhecimentos leccionados no curso na prática. Ao estarmos a produzir licenciados incapazes de que serve?

  • xovan

    parabéns pela análise. quando tirei o meu curso (de engenharia), já havia destes. sempre os houve. podem até tirar boas notas, mas não têm a menor ideia do que estão a fazer. este livro aparenta ser um tiro, de canhão, no pé, e de tal forma violento que nem sobrou a cabeça. não deve ser à toa que um dos autores é ‘professor’ naquela famosa instituição.

  • Obrigado a todos os que concordam. Façam favor de espalhar!

  • Joana

    Estimado Francisco.

    Sou a Joana, estou interessada no seu blog para uma campanha de publicidade, sera que poderia entrar em contato comigo atraves do meu email, a fim de que eu possa fornecer mais detalhes.
    Melhores cumprimentos
    Atentamente,
    Joana

  • Rita V.

    magnífico post!
    abraço