Fall/Boston | Outono no Public Garden, Boston.

23 de Outubro de 2013   ·   in English

8 de Outubro de 2013

Vou recorrer a Shakespeare:

You common cry of curs! whose breath I hate
As reek o’ the rotten fens, whose loves I prize
As the dead carcasses of unburied men
That do corrupt my air, I banish you;
And here remain with your uncertainty!
Let every feeble rumour shake your hearts!
Your enemies, with nodding of their plumes,
Fan you into despair! Have the power still
To banish your defenders; till at length
Your ignorance, which finds not till it feels,
Making not reservation of yourselves,
Still your own foes, deliver you as most
Abated captives to some nation
That won you without blows! Despising,
For you, the city, thus I turn my back:
There is a world elsewhere.

The Tragedy of Coriolanus

8 de Outubro de 2013

27 de Setembro de 2013   ·   in English

23 de Setembro de 2013

No Público de Sexta-feira vinha um esperançoso artigo intitulado “O português conquistou a Internet, agora quer ser língua oficial nas organizações internacionais”.

Na Internet, o português já é a quinta língua mais usada. Nas redes sociais – Facebook e Twitter – é a terceira. Também alcançou esse ranking, terceiro mundial, nos negócios de gás e petróleo, em grande parte graças a Angola e Brasil. Entre as áreas a conquistar, estão a ciência e a diplomacia.

“Conquistou a Internet?” “Em grande parte?” – Digo que o artigo é esperançoso para não dizer fantasioso. Sim, se formos pelo número de falantes até podemos ser a quinta língua mais usada na internet (graças aos brasileiros). E depois? O número absoluto de falantes é, claro, importante, mas a não ser que haja uma revolução de natalidade, pouco poderemos fazer contra o inglês, o cantonês e o mandarim, ou mesmo o espanhol.

Um exemplo – perguntem à Siri que línguas fala:

Línguas da Siri

O português provavelmente vem a caminho, mas a pressa é muito pouca. E para os que acham que a Apple é elitista e não quer saber dos pobrezinhos, a Google demorou quatro anos a implementar a língua.

Para o bem ou para o mal, aquilo que determina o poder da língua é sobretudo económico, em dois aspectos fundamentais. O primeiro é a economia pura e dura: língua de negócios, língua franca de interesses económicos e financeiros. Goste-se ou não. E é por isso que a Siri fala alemão e francês, coreano e italiano.  O segundo é a cultura: uma presença forte e indispensável. A cultura em si mesmo tem uma dimensão económica – a indústria cultural e turística – mas é muito mais que isso.

Ninguém fora da lusofonia vai conduzir negociações diplomáticas importantes em português. Ninguém vai usar a língua em organismos internacionais. É pura fantasia. Assim como é fantasia tentar usar o português como língua de ciência.

“A língua de ciência a nível mundial é o inglês. Mas isso não significa que outras não se assumam como línguas em que se pode escrever o resultado da ciência realizada”

Há muita coisa a fazer para a ciência portuguesa (ou lusófona) se desenvolver e esta não é, claramente, uma prioriadade. Devemos esforçarmo-nos por divulgar ciência em português? Claro que sim, mas os esforços tem de ser bem medidos e alocados. O mesmo se tem de passar na cultura: há que preservar e desenvolver o que resta dos nossos créditos históricos e do respeito que algumas das outras civilizações (nomeadamente as Orientais) ainda têm por nós. Há que aliar isso aos esforços económicos. Há que ter uma política coerente de ensino e promoção da língua, que não pode flutuar ao sabor de governos e nomeações e que, a ser considerada prioritária, não pode ser abandonada à menor dificuldade.

A cultura da língua portuguesa só será defendida se se promover a cultura dos que a falam. Apoiar, criar e divulgar o que se faz no nosso país (e no resto da lusofonia). Com trabalho, inteligência, estratégia e qualidade a conquista da língua virá de seguida. E o mais curioso é que esse trabalho até pode (deve) ser feito em inglês, ou mandarim, ou francês, porque para já, se não fôr, poucos o entendem.

23 de Setembro de 2013

LA → SF | Pela costa do Pacífico acima.

21 de Setembro de 2013   ·   in English

20 de Setembro de 2013

Pela costa do Pacífico acima, entre Los Angeles e a São Francisco, e porque seguíamos na companhia de uma pessoa não portuguesa, íamos procurando os vestígios da emigração lusa. No meio de tanto espanhol é difícil, mas imbuídos dum nacionalismo jocoso lá íamos tentando desencantar raízes. Tudo começara com Juan Rodríguez Cabrillo, ou antes, João Rodrigues Cabrilho, o primeiro explorador europeu da costa californiana, ainda que ao serviço de Espanha, cujo nome designa a porção da estrada US 1 ao longo da costa entre Santa Barbara e São Francisco.

A certa altura essa pessoa sugeriu que se parasse na Duarte’s Tavern – porque já tinha ouvido elogios – para irmos comer uma das famosas tartes. Duarte – não é nome que possa ser espanhol. Pelo menos não nos veio nenhum Duarte espanhol à cabeça, pelo que tinha de ser português. A história da taberna, que tenhamos visto, não mencionava grande coisa sobre uma possível luso-descendência – algo estranho, já que as comunidades emigrantes tendem a assumir-se com orgulho, pelo menos quando já estão bem integradas. Sabíamos que existe uma enorme comunidade luso-descendente na costa Oeste – menos concentrada, geograficamente, que a da Nova Inglaterra, mas quase tão grande – e olhando para os retratos das quatros gerações de Duartes que desde 1894 gerem a taberna, não havia grande margem para dúvidas. A confirmação veio com um retrato: cowboys, numa fotografia a preto e branco do final do século XIX ou início do século XX, uma dúzia deles, todos alinhados e com os nomes escritos por baixo. Além de Duartes, havia Bettencourts e os famosos Enos. Lembrei-me da história do professor Onésimo, que aqui segue:

Causou-me sempre espécie o facto de encontrar nas listas telefónicas de Fall River, New Bedford e Providence o nome Enos (com o). A princípio julguei tratar-se de mais um erro de ortografia, possivelmente por culpa do burocrata dos serviços de emigração, como aconteceu com Cardoza, Oliviera, Viera, Ferriera, Mediros, entre tantos outros. A minha surpresa surgiu quando descobri que as famílias que conheci com esse nome eram de origem micaelense. Ora, em São Miguel, «Enes» não é um nome vulgar e nem sei mesmo se existe. Conheço-o na Terceira, no Pico e em São Jorge, mas não em São Miguel. Há meses, numa conferência da série que o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown promoveu sobre a história da presença portuguesa nos Estados Unidos, encontrei um luso-americano reformado (engenheiro, esteve destacado na base aérea das Lajes na década de 50), que dedica muito do seu tempo livre a investigar vestígios da presença portuguesa na América do Norte. A propósito, referi-me de passagem ao facto de os portugueses já não mudarem de apelido, como faziam antigamente, muitas vezes a seu próprio pedido. «Não é verdade!» – reagiu o senhor Amaral. «Ainda há meses chegou aqui uma família de São Miguel, e os familiares, que já cá estão há muitas décadas, disseram-lhes que deveriam mudar o apelido, porque em inglês o que correspondia ao seu apelido português era “Enos”». Perguntei então ao meu interlocutor: «E qual era o apelido português dessa família?» «Inácio» – respondeu-me.

Caí em mim e naquele momento resolveu-se-me o mistério: «Enos» deveria ser nada mais nada menos do que a transcrição fonética de «Inácio» pronunciado à micaelense «Inóce», que terá naturalmente sido como o funcionário da imigração americana há muitos anos registou por escrito o som que lhe foi transmitido por alguém da família e que, como era comum, provavelmente não sabia escrever, daí ter simplesmente ditado o nome.

Onésimo T. Almeida, Comunidades portuguesas dos Estados Unidos; identidade, assimilação, aculturação

Para quem tiver interessado sobre a história da taberna, uma peça da NPR aqui. E as tartes eram mesmo boas!

[Foto: Frank e Maria Duarte, emigrantes portugueses que em 1894 compraram por doze dólares em ouro um terreno em Pescadero, CA, que incluía uma taberna. via NPR da Colecção da Família Duarte]

20 de Setembro de 2013

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Martha’s Vineyard | Long Cove pond

19 de Setembro de 2013   ·   in English

ao telefone
Em Milão | ao telefone

10 de Setembro de 2013   ·   in English

9 de Setembro de 2013

No ano passado, perante o desfasamento entre o número de candidatos ao Ensino Superior e as vagas disponibilizadas, fiz uma pequena análise para perceber a capacidade de prever o número de estudantes no Ensino Superior através da natalidade. Desse modo talvez se pudesse dimensionar melhor a oferta de vagas. Fiz um modelo para prever o número de alunos que termina o ensino secundário a cada ano, mas concluí que esse parâmetro por si só não é suficiente:

Desta forma, este parâmetro não é suficiente para prever o número de vagas a serem criadas, já que à medida que o grau de instrução da população aumenta – de forma idêntica ao que aconteceu com o ensino secundário – prevê-se que aumente a proporção de alunos que procura o ensino secundário. Assim, a baixa de natalidade é contrariada por aumento da percentagem de alunos que prosseguem os estudos.

No entanto, o parâmetro serviu para olhar para o número relativo de vagas e candidatos por aluno que termina o secundário e daí extrair algumas considerações. Além disso, observei que há uma enorme correlação entre o número de candidaturas e a média do exame de matemática A. Na altura fiz as seguintes previsões:

  1. o facto de ter havido o programa “Novas Oportunidades” não se traduz em mais pessoas a procurar o ensino superior. Não vimos aumento devido aos que certificaram o secundário e não veremos, também, aumento nos próximos anos, devido aos que certificaram o básico e que teriam, posteriormente, completado o secundário.
  2. não havendo alteração de dificuldade dos exames/programas, teremos uma estabilização do número de candidatos em cerca de 45.000/ano até 2017 (cerca de 40% da população que acaba o 12º ano), por ventura ainda um ligeiro decréscimo para o ano. Esta minha previsão significa que o único factor de aumento da proporção dos alunos que prosseguem estudos superiores tem sido exclusivamente a dificuldade dos exames. Em particular, não vejo influência da conjuntura económico-financeira, mas o modelo é validado com os dados relativos a 2000–2012 altura em que, verdadeiramente, só nos últimos 2–3 anos as coisas se tornaram realmente más. Há no entanto potencial para ficar pior, o que muito possivelmente faria diminuir o número de alunos que seguem para o ensino superior.
  3. se o número de vagas continuar a variar da mesma forma e, novamente, o grau de dificuldade não variar, a disparidade entre a procura e a oferta vai continuar a aumentar. É possível que isso não se venha a ver, uma vez que já há notícias de congelamento de vagas.

Utilizando o modelo do ano passado (só com valores relativos à primeira fase), vemos uma vez mais que a média do exame de matemática A se correlaciona muito bem com o número de candidatos:

Rácio entre vagas e número alunos que terminam o 12º ano e entre candidatos e número de alunos que terminam o 12º ano. Comparação com as médias da prova de matemática A.
Rácio entre vagas e número alunos que terminam o 12º ano e entre candidatos e número de alunos que terminam o 12º ano. Comparação com as médias da prova de matemática A. As cores de fundo representam “eras” de diferentes graus de dificuldade no exame nacional.

As três previsões essencialmente confirmaram-se:

  1. Continuamos a não ver o programa “Novas Oportunidades” a contribuir para o aumento de alunos no Ensino Superior.
  2. A correlação do número de candidatos com o “nível de dificuldade” do exame de matemática continua a verificar-se, essencialmente nos mesmos termos. É certo que este “nível de dificuldade” pode englobar outros parâmetros. Para referência, a Sociedade Portuguesa de Matemática considerou que o exame teve “um nível de exigência semelhante ao realizado no ano passado”, ao passo que a Associação de Professores de Matemática considerou o exame “bem mais difícil e extenso do que no ano passado”. Não tenho nenhum mecanismo de controlo para despistar se, por exemplo, a conjectura económica influencia directamente o sucesso académico dos alunos, sendo que poria pressão directamente na nota. Custa-me a crer, mas não tenho nenhum controlo para invalidar esta hipótese.
  3. Continuamos a ver a disparidade entre o número de vagas e candidatos a aumentar. Isto deve-se não só ao meu postulado aumento de dificuldade dos exames, mas também é devido à não persecução duma política de racionalização da oferta de vagas. Embora estas tenham diminuido cerca de 1,6%, o número de alunos colocados na primeira fase no ano passado diminui 4,4%. Já no ano anterior o número de colocados na primeira fase tinha diminuido 7,3%, mas as vagas só diminuiram 2,3%. Este ano os colocados de primeira fase voltam a diminuir cerca de 7,4%. Como o gráfico indica, o superavit de vagas continua a engrossar, especialmente tendo em conta o número relativo à pool de possíveis candidatos.

No ano passado o governo impunha que não fossem abertos “cursos com menos de 20 vagas, a não ser que preparatórios de Artes ou resultantes de protocolos internacionais, que não sejam financiados pelo Estado ou quando se prove a sua “especial relevância”, entre outras excepções.” Este ano o Público adianta que “30% dos cursos ficaram com dez ou menos candidatos colocados”.

Claro, nesta notícia do Público há o normal apontar de dedos: o Bastonário da ordem dos engenheiros a dizer que se criaram cursos de engenharia como “cogumelos” – em parte é verdade, mas é mais substancial a quebra de alunos a entrar no Ensino Superior e, se eu tiver razão no que diz respeito à correlação com o grau de dificuldade dos exames, o número de alunos universitários foi artificialmente aumentado entre 2007 e 2010. Podemos comparar os números de 2013 com 2000: as vagas aumentaram 10%, ao passo que o número de candidatos (de primeira fase) é 23% menor. Na altura eram colocados 76% desses candidatos, agora 93%. Posto isto, não há dúvida: há que se redimensionar a oferta.

A segunda voz é a do sindicalista Mário Nogueira que diz que “desde que os governos começaram a fazer aumentar o desemprego dos professores e desvalorizaram as carreiras, criaram um clima de instabilidade e precariedade enormes” para explicar a redução das taxas de ocupação de cursos na área da formação de professores e ciências da Educação. Não digo que não seja verdade, mas mais verdade é aquilo que disse acima: há menos alunos, logo precisamos de menos professores. E basta olhar para o gráfico do número de alunos no ensino básico e secundário – há pouco a fazer com a natalidade que temos.

Resta-me dizer que mantenho as previsões do ano passado para o o próximo ano, sendo que não tenho maneira de tentar adivinhar o tal “nível de dificuldade” dos exames, pelo que não posso dar números concretos.

9 de Setembro de 2013

15 de Agosto de 2013

A lei da limitação dos mandatos autárquicos é verdadeiramente um espelho daquilo com que contamos da parte de quem nos governa, envolvendo os três poderes: o legislativo, o executivo e o judicial. Não, não somos o único país imperfeito, longe disso, mas aqui está um exemplo que resume muita coisa. A lei foi feita (propositadamente?) de forma pouco clara – nem o Presidente da República sabe o que lá está dito, sendo que foi ele que a promulgou. A Assembleia da República recusa-se a clarificar o espírito da lei. O chefe da maioria e do Governo, pouco faz pelo esclarecimento, porque quase todos os autarcas em dúvida são do seu partido. O chefe da oposição também pouco ajuda, já que no seu caso, não tem quase autarcas envolvidos. Enquanto isto, a semanas das eleições, temos candidatos-autarcas em dúvida sobre se estão em situação legal, ou não, para se poderem candidatar e todos os dias vêm a público decisões judiciais contraditórias, sendo que parece que cada tribunal interpreta a lei de forma diferente.

A corrupção no poder local é um fenómeno grave, num pasto fértil para o florescer do caciquismo e do clientelismo partidário. A lei talvez tenha tido como motivação inicial o combate à corrupção nestes círculos. No entanto não conseguimos chegar à discussão sobre se ela faz sentido como instrumento para tal, já que nem sequer chegamos a uma conclusão sobre que sentido tem o que lá está escrito. E ninguém mexe uma palha para evitar ou resolver este imbróglio que atinge um dos elementos fundamentais e elementares da democracia: a possibilidade de ser eleito e fazer eleger.

15 de Agosto de 2013