
Minha mãe tem talento para cozinhar. Domina o cânone clássico da gastronomia portuguesa, apenas não incorrendo muito pelos doces conventuais. No entanto, não se fica por aí e recolhe receitas de todo o lado, sempre com um sentido prático e de eficiência, mas mais importante, não se limita pelo rol de instruções das mesmas. Chama a si mesmo a liberdade para inovar, mudar, substituir ou acrescentar e não se coíbe de tentar gestos culinários menos óbvios para tentar imitar este ou aquele conjunto de sabor que experimentou, mas para o qual não tem receita.
Acho que herdei algumas dessas características, talvez a mais importante a tal de não seguir à risca as receitas, muito embora um certo excesso de confiança já me tenha custado alguns dissabores. Ainda assim, aquela que mais espanto causa à maioria das pessoas a quem confesso, é o facto de não gostar de revelar receitas. Não é que não defenda o trânsito de ideias gastronómicas; aceito as que me derem. Revelar, no entanto, especialmente as melhores, é algo que faço a contragosto. Não me perguntem porquê, é algo interior, mais forte que eu. Às vezes é tão forte, confesso, que aos mais insistentes que não se contentam com um simples não, há que recorrer a um golpe baixo. Lá temos de revelar a receita, mas só aparentemente, claro, já que vai, ou sem o segredo principal, ou adulterada. Não é má vontade, e também não sou dono de nenhum restaurante que precise de guardar a alma do negócio. É algo mais cósmico, um tanto ou quanto herdeiro do espírito monástico e obscuro de algumas ordens religiosas. Se for das melhores receitas, é provável que não consigam obter nada de mim. Verdade seja dita, também não sou nenhum chef.
13 de Janeiro de 2010
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Quem lê o título “Temperatura em Portugal está a aumentar mais do que no resto do mundo” fica, e com razão, a julgar que o aumento de temperatura em Portugal é maior do que em qualquer outra parte do mundo. Com razão, porque é o que lá está escrito.
No entanto, no corpo da notícia o que se lê é:
“Verifica-se um aumento da temperatura média de 0,33 graus à década, um ritmo de crescimento superior ao que se verifica fora de Portugal, em termos mundiais. A temperatura de 2009 ficou muito acima dos valores médios, quase um grau”, afirmou Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia, em entrevista à Lusa.
Comparativamente às temperaturas no resto do mundo, Portugal ficou este ano entre 0,55 e 0,33 graus acima dos valores médios.
Ah, então o que acontece é que Portugal tem um aumento médio de temperatura superior à média mundial do aumento de temperatura. É verdade, talvez pudesse ser o valor mais afastado da média e portanto o título estaria certo. Embora não tenha dados para dizer com toda a certeza, é muito pouco provável. Mas nada no artigo diz algo que possa suportar o que está no título.
17 de Dezembro de 2009
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, desta feita sobre a votação de uma magistrada para o Supremo Tribunal de Justiça, quando reparo nos números da votação: 139 a favor – muito bem, estão a favor, – 67 brancos – muito bem, abstêm-se – e 10 nulos, muito bem… perdão? Dez nulos? Nulos?!
Das duas uma, ou temos deputados ceguinhos e não acertam com a cruz no quadrado, ou então estamos perante política pós-moderna, que ultrapassa o limite das minhas capacidades cognitivas. Ora, na minha ignorância, sempre cuidei que o voto nulo era uma manifestação de desprezo pelo sistema, um voto de reacção contra algo com que se não concorda, nem se consegue compaginar. Muito mais que uma mera abstenção, é desdenhar as alternativas e está destinado ao cidadão anónimo que prescinde do seu direito de voto como forma de manifestar a sua posição.
Ora um deputado não é nem anónimo, nem impotente. Muito menos deve ocupar o lugar que ocupa, se não estiver de acordo com o regime que nos rege. Um deputado, em democracia, não pode votar nulo. É cobardia.
11 de Dezembro de 2009
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“Criar um programa de estágios Inov Social, protocolando 1.000 vagas em instituições da economia social ou em instituições de promoção cultural”
in Programa do Governo
Existe, é um regionalismo brasileiro. Mas soa mal à brava…
“Prestação de serviços de design global do estacionário da Comissão Nacional e dos materiais de suporte à comunicação dos diferentes eixos programáticos”
in Contratos Públicos Online
Estacionário diz-se de um sistema que não evolui no tempo. Ou dum carro que não se mexe. Não de papel de carta.
5 de Dezembro de 2009
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Recebi a seguinte mensagem automática de resposta a um email:
I may not be able to regularly attend to my mails until December 25, 2009. Thank you for your message and I’d appreciate your patience during this time.
Mas não, não era o menino Jesus.
23 de Novembro de 2009
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Devido ao facto de aqui, nos EUA, o café ser bebido aos baldes, constatei que esta bebida é altamente diurética. Bica à bica, não dava para reparar, mas assim dá. Também o café é uma bebida de aluguer.
28 de Outubro de 2009
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Quem diz que as novelas da TVI não têm profundidade intelectual, quem?
Guarda Jacinto – Guarda moçambicano. Virá a revelar-se um homem corrupto que faz serviços a quem lhe paga.
Com que então, “faz serviços a quem lhe paga”. Há cá uns desses na minha rua! São merceeiros, mas devem ser terroristas.
em «A Outra»
20 de Outubro de 2009
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Sexta-feira, além de ser data de aniversário de minha mãe, vem o Obama cá à universidade.
20 de Outubro de 2009
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